terça-feira, 29 de novembro de 2011

O golpe de estado alemão - 2ª parte

«Os critérios de convergência não eram automática e rotineiramente aplicados, e o conselho da união europeia ainda podia decidir - por maioria qualificada - admitir países na zona euro. Na verdade, o Conselho da União Europeia viria a admitir países como a Bélgica e a Itália, que não cumpriam o critério de limite da dívida pública de 60% do PIB. Mesmo a Alemanha não cumpria os critérios. Além disso, muitos países só cumpriram os critérios recorrendo a truques contabilísticos, que adiaram despesa e geraram receita extraordinária. Alguns países só conseguiram cumprir os critérios em 1997, ano em que foram indicados os futuros membros da união monetária.. E muitos só cumpriram os critérios porque se esperava que entrassem na união monetária, o que fez com que as taxas de juro baixassem, reduzindo, assim , o peso da dívida pública e do défice.
O pacto de estabilidade e crescimento (PEC) não era tão duro como Theo Waigel sugerira. Quando o PEC foi finalmente assinado em 1997, perdera grande parte do seu poder disciplinador, o que levou Anatole Kalteksky a comentar no "The Times" que o desfecho do Tratado de Maastricht representava a terceira capitulação da Alemanha à França no espaço de um século...
Waigel pretendera limites mais estritos do que os definidos por Maastricht. Quisera restringir os défices públicos a 1% e uma sanção monetária automática para a violação desse limite.. Contudo, quando o governo françês se opôs à medida, as sanções deixaram de ser automáticas, passando a estar dependentes de decisão política; e decidiu-se que as receitas iriam para a União Europeia.
A comissão da União Europeia era responsável pelo acompanhamento do PEC, mas este nem na Comissão Europeia tinha grande apoio. O presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, descrevia as cláusulas como «estúpidas»: a Comissão deve fazer recomendações ao Conselho para Assuntos Económicos e Financeiros (EcoFin); este é composto pelos ministros das finanças da UE e deve reunir-se uma vez por mês. Por recomendação da Comissão, o EcoFin deve decidir, por maioria qualificada, se os critérios do PEC estão a ser cumpridos ou não e então fazer fazer um aviso ou anunciar a existência de défices excessivos. Para determinar as sanções é necessária uma maioria de 2/3. As multas podem ir de até 0,5% do PIB.
Os pecadores iriam eles próprios decidir se iriam ser punidos.Se vários países não cumprissem os critérios, poderiam facilmente apoiar-se uns aos outros e bloquear as sanções. Até hoje; nenhum país teve de pagar por não cumprir os critérios.
Em Novembro de 2003, o EcoFin rejeitou as sanções contra a Alemanha e a França recomendadas pela Comissão; isto desencadeou um debate sobre a eficácia do PEC. A versão já de si mitigada do PEC finou-se a 20 de março de 2005; a Alemanha violou o limite de 3% para a dívida pública, pela terceira vez consecutiva. Como consequência, o EcoFin diluiu ainda mais o PEC, definindo diversas situações que justificariam que se violasse o tecto dos 3%; catástrofes naturais, quebra do PIB, recessões, gastos com investigação e desenvolvimento, investimentos públicos, gastos em ajuda internacional e política europeia,e pensões e reformas.
Esta reforma significava carta-branca para o défice. Como os próprios políticos decidiam se as sanções do PEC eram aplicadas, os países com défices excessivos nunca pagariam. Posteriormente, os políticos justificaram o seu comportamento diluindo o PEC, o que na prática significava acabar com ele.
(...) O tratado de Maastricht também estabelecia que as estratégias relacionadas com as taxas de juro deveriam ser determinadas pelos políticos e não pelo BCE. O governo françês solicitara até - em vão - que os políticos decidissem sobre as políticas relativas às taxas de câmbio de curto prazo. Uma decisão política que considere a taxa de câmbio do euro sobrevalorizada, devendo por isso ser desvalorizada, está em contraste vincado com o funcionamento autónomo de um banco central que deve garantir a estabilidade. Mina a autonomia do BCE.

O golpe de estado alemão

«A introdução do euro na alemanha assemelhou-se a um golpe de estado. Em 1989, o Bundesbank apoiara uma proposta britânica de Nick Lawson sobre a concorrência monetária na comunidade europeia. John Major também tentara algo do género para o reino unido quando propusera o ECU: 13 moedas na união europeia sendo as 13 aceites como moeda legal. mas o governo alemão rejeitou a proposta britânica de mercado livre; preferia a proposta socialista de moeda fiduciária. O governo alemão foi contra a vontade da maioria dos Alemães, que queriam manter o marco. Para tal, lançou uma campanha publicitária, com anúncios nos jornais a afirmarem que o euro seria tão estável quanto o marco. Quando os Dinamarqueses votaram contra a introdução do euro, o orçamento da campanha publicitária foi aumentado: passou de 5,5 para 17 milhões de marcos.
Os políticos alemães tentaram convencer os seus eleitores com um argumento absurdo: afirmaram que o euro era necessário para manter a paz na europa. O antigo presidente, Richard von Weizsacker, escreveu que política implicava uma união monetária estabelecida e que esta seria necessária para manter a paz, uma vez que a posição central da Alemanha já levara a duas guerras mundiais. Num momento de arrogância e paternalismo típicos da classe política, Gunther Verheugen, um social democrata alemão, afirmou num discurso no parlamento alemão: «uma Alemanha forte, unida, pode facilmente - ensina-lo a história - tornar-se um perigo para si própria e para outros». Ambos se haviam esquecido de que após a reunificação a Alemanha não era tão grande quanto fora antes da II guerra mundial. Além disso, não perceberam que a situação era muito diferente da de outros tempos. Em termos militares, a Alemanha era muito inferior à França e à Inglaterra, e estava ainda ocupada por soldados estrangeiros. E depois da guerra, os aliados haviam educado os Alemães no sentido do socialismo, progresso e pacifismo - para afastar qulaquer oposição militar.
Culpar implicitamente a Alemanha pela II guerra mundial e lucrar com isso era uma táctica que a classe política usara várias vezes. Agora, o argumento implícito era que por causa da II guerra mundial, e Auschwitz em particular, a Alemanha tinha de abandonar o marco, como medida no sentido de união política. O paternalismo e a cultura da culpa no seu melhor.
De facto, o chanceler Alemão Helmut Schmidt, ao referir-se ao SME (sistema monetário europeu), o antecessor do euro, afirmou que aquele fazia parte de uma estratégia para poupar a Alemanha a um isolamento fatídico no coração da europa. Em 1978 disse a elementos do Bundesbank que a Alemanha precisava de protecção ocidental por causa das suas fronteiras com países comunistas; e acrescentou que, no rescaldo de Auschwitz, o país ainda estava vulnerável. A Alemanha precisava de ser integrada na NATO e na comunidade europeia, e o SME seria um meio para atingir um fim - como o euro, mais tarde, viria a ser. Ao reler as suas palavras em 2007, Schmidt afirmou que não mudara de opinião. Acreditava que sem uma moeda única as instituições financeiras alemãs tornar-se-iam líderes, causando a inveja e a ira dos seus vizinhos, com consequências políticas adversas para a Alemanha.
Uma ameaça semelhante de isolamento político ocorreu mais tarde, aquando da reunificação alemã. Mitterand aventara a hipótese de uma tripla aliança entre a Inglaterra, a França e a União Soviética, bem como o cerco da Alemanha. Só a moeda única impediria tal cenário.
Enquanto a classe política alemã tentava convencer os alemães cépticos dos benefícios de uma moeda única, os académicos alemães tentavam convencer a classe política dos perigos da moeda única, e instavam o governo a que não assinasse o tratado de Maastricht. Em 1992, 60 economistas assinaram um manifesto que, entre outras coisas, afirmava que as claúsulas do tratado eram demasiado suaves. Em 1998, 155 professores de economia pediram o adiamento da união monetária (em vão). Para que esta fosse viável, as estruturas dos países europeus teriam de ser diferentes. Muitos elementos do Bundesbank opunham-se à introdução do euro antes de se conseguir a união política, e argumentavam que a moeda comum deveria ser um fim, e não um meio da convergência económica.
Em termos constituicionais, os juristas de colocaram algumas dúvidas ao tratado de Maastricht. Karl Albrecht Schachtschneider, um professor de direito, afirmou que a união monetária só poderia ser estável e funcionar no âmbito de uma união política. Mas esta união política, todavia, implicava o fim do estado alemão, o que em si mesmo era inconstitucional. Schachtschneider também salientou que a constituição alemã requeria uma moeda estável, algo que não conseguiria numa união monetária com estados independentes. E numa união monetária inflacionária, também o direito de propriedade seria violado.
Contudo, o tribunal Constitucional Alemão determinou que o tratado de Maaastricht era, de facto, constitucional. Estipulou que a Alemanha só poderia participar numa moeda estável e que teria de sair da união monetária se esta se revelasse instável.
Por fim, os políticos alteraram a cosntituição alemã para permitir a transferência do poder soberano sobre a moeda para uma instituição supranacional. Tudo isto foi feito sem consultar as pessoas.
Além disso, os políticos alemães afirmaram que o euro seria estável por causa dos critérios de convergência, da independência do BCE e das sanções instituídas no Pacto de Estabilidade e Crescimento proposto pelo ministro das finanças alemão, Theo Waigel, em 1995. Mas estes três argumentos viriam a fracassar».
Continua.

Transcrição feita do livro "A tragédia do euro" de Philipp Bagus

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A tragédia do euro - prefácio à edição portuguesa

«Nao há como uma crise para desfazer dogmas e levantar interrogações. E se existe na Europa projecto político que, pelo seu dogmatismo e insensibilidade às realidades do dia a dia, precisa de ser interrogado, esse é sem dúvida o euro. Tanto mais que - não será exagero dizê-lo - se criou uma verdadeira religião do euro, com os seus fíeís e a sua liturgia.
A crise actual da zona euro, contudo, veio pôr em causa os dogmas da irreversibilidade da moeda única europeia e da sua adequação às necessidades dos estados membros da União.
Hoje, para alguns dos países que adoptaram o euro, pertencer à moeda única começa a ser crescentemente considerado um fardo insuportável e tem-se a sensação (especialmente nítida em Portugal) que continuar a fazer parte do euro significa, afinal, não ter futuro e perder as esperanças de reencontrar um caminho de progresso económico e social. Portugal precisa de sair do euro - se quiser voltar a ter esperança de um futuro económico melhor, se quiser manter o seu estado social, se quiser, afinal, voltar a acreditar em si próprio.
Não se trata de sair de qualquer maneira, de sair empurrado, mas sair de forma controlada e apoiada. Contudo, para se equacionar uma saída ordeira é preciso primeiro eliminar outro dogma: o da catástrofe.
Com efeito, os nosso fieís do euro, ao verificarem que começa a ser cada vez mais difícil justificar a nossa pertença à união monetária, em desespero de causa, inventaram um dogma que é a tradução caseira do dogma mais geral da irreversibilidade do euro: é o dogma da catástrofe da saída, ou seja, que qualquer abandono do euro, mesmo que controlado e apoiado, será um desastre para a economia nacional com falências em série e outras catástrofes que são anunciadas mas não concretizadas.
Estes arautos da desgraça nunca justificam por que é que a saída do euro terá de ser necessariamente um desastre. E se em muitos casos essa ausência de justificação pode indiciar uma lamentável incapacidade de análise, noutros é apenas fruto do não menos lamentável dogmatismo que se sobrepõe à racionalidade.
Todas estas questões eram tabu ainda há dois ou três anos. A realidade, no entanto, veio trazê-las à primeira linha do debate, onde deveriam ter estado desde o início. Por isso começam a ser cada vez em maior número as publicações que questionam os dogmas do euro, como é o caso deste livro de Philipp Bagus. Obra que é do maior interesse porque encara criticamente o euro, mas fá-lo de um ponto de vista liberal, do liberalismo por vezes chamado austríaco.»

O prefácio continua, limitei-me a transcrever aquilo que me parece mais interessante. Devo também dizer que o livro está escrito em acordês, mas como sou contra o acordês, fiz a transcrição em Português correcto.

A ler


O livro está escrito em acordês, infelizmente, mas é muito bom. Desmonta todos os dogmas associados ao lixo de moeda que é o euro. Recomendo vivamente a leitura deste livro.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Da fraternidade às greves - o utilitarismo de feira

24 de novembro de 2011. Greve! O direito à greve é de um docetismo tal, que não me admiraria nada que alguns trabalhadores sejam coacionados a aderir à greve. Assim sendo, prejudica-se todos os outros trabalhadores, que invariavelmente também eles passam 3 horas na estrada para fazerem 30, 40, 50 Km. para chegarem ao seu local de trabalho.

A greve é um direito que nada resolve, tudo ficará na mesma e daqui a algum tempo outra greve.
Direitos que nada resolvem temos vários, mas o utilitarismo (de feira) associado à escatologia dos direitos (aqui como conceito naturalista) oblitera as mentes. Nenhum ganho real se reportará a mais esta greve, a fraternidade seguirá, impiedosa, em direcção à nova escravatura.

Mentes pensantes e anti-utilitarismo são necessários, as greves a fazer são outras, implicam outra ordem psicosocial.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Da falocracia à liberdade - o panteísmo geométrico

Nos primórdios da civilização a humanidade era andrógina, não tinha sexo, na acepção actual da palavra, mas possuía um estado intrínseco, hoje perdido, de liberdade. Era uma liberdade natural, que não estava manchada pelo dogma político nem pela filosofia degenerativa dos movimentos revolucionários que se seguiram à época das luzes. Naquelas épocas a humanidade não tinha um cérebro tão virado para o exterior, como agora, tinha uma clarividência interna mais ou menos alargada, sentia-se feliz na sua condição, não perfilhava dogmas, nem ideologias tontas, nem panteísmos geométricos como o de Espinoza. Este tontinho, Espinoza, costumava revoltar-se com a ideia duma providência que cuidasse do mundo criado por Deus, para além de considerar que a utilidade na natureza era nula, ou quase nula, pois não se podia sobrepôr à utilidade da matemática. Quando a humanidade sofreu a sua queda, a separação dos sexos, a humanidade entrou num novo ciclo, mais denso, cada vez mais material e menos espiritual.

O culto fálico foi uma realidade em muitas culturas, na mesma medida em que hoje o é a liberdade, ora Espinoza idealizava um mundo onde tudo fosse tratado como se de linhas, círculos, superfícies e volumes se tratasse. Com a liberdade actual passa-se exactamente o mesmo, tratado como um barbarismo tecnocrata qualquer, sujeito às disparidades e aos conluios da agenda.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A igualdade envenenada

A igualdade é um veneno insidioso do qual todos nós acarretamos as suas consequências. Toda a gente sabe (os que forem sérios e descomprometidos com o politicamente correcto), que a igualdade nos actuais moldes, não existe, não pode existir.
A igualdade enquanto conceito naturalista e conceito puramente filosófico, manifesta-se na perfeição, dentro dos seus limites, mas enquanto conceito político, a coisa é bem diferente. A igualdade surgiu na filosofia grega mais para formular um ideal do que verificar um facto. A crença na "igualdade de todos os homens", ainda que não estivesse, porventura, de todo ausente na filosofia, não chegou a pesar demasiado no pensamento político. O conceito de igualdade mantinha-se unido ao ideal de justiça. Mais tarde, com o estoicismo e o cristianismo, o conceito torna-se mais directo e revelador, por participarem igualmente da razão universal (estoicismo) ou por serem criaturas de Deus (cristianismo), todos os homens são iguais em dignidade ou importância. Em ambos os casos, o que se afirmava era um facto, mais do que um ideal, um facto sobre a importância cósmica do homem e o seu significado aos olhos de Deus.

A partir do século XVII, o conceito naturalista de igualdade é tomado de assalto pelas hostes revolucionárias, tendo sido o conceito totalmente deformado, e a partir daqui a igualdade perde o seu sentido inicial, deixa de ser um conceito naturalista para passar a ser um dogma político. E aqui começaram os problemas. A igualdade, que na nossa actualidade é apenas política, tendo deixado de ser naturalista, aniquila as nossas crenças, ignora as nossas intuições e gostos pessoais, impossibilita-nos qualquer separatismo.

Porque temos de ser iguais? Iguais a quê? Como considerar iguais as desigualdades? E porque tem de ser a igualdade norma, numa sociedade desde os primórdios desigual?
Evidente que a igualdade, natural e intrínseca, transformou-se num dogma político, do qual, concretamente, o politicamente correcto se alimenta abundantemente.

Este dogma, da igualdade, inverte as polaridades, fomenta o relativismo e o facilitismo, etapas seguintes da desformulação política e filosófica. Tanto faz se uns são bons e outros são maus, se uns são eficientes e outros não, se uns se esforçam e outros não, a igualdade elimina as diferenças, são todos iguais.... A excelência e a meritocracia passam a recordações macabras do passado..

O artigo 1º dos direitos do homem adverte que: «todos os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos». Ora aí está, em direitos, e esses direitos são de índole naturalista; as hostes revolucionárias foram as causadoras da "desnaturalização" da igualdade, pois ao ser tomada de assalto pelo politicamente correcto promoveu uma igualdade que não eleva os homens nem lhes dignifica os seus esforços, bem pelo contrário, rebaixa-os à mediocridade prevalecente, mas igualitária, e porque de dogma se trata, há uns mais iguais do que outros.., dependendo das circunstâncias e interesses.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A questão democrática e a ditadura do capital

Não vá dar-se o caso de alguém pensar que sou anti-democrata, esclareço desde já que por princípio não o sou, mas questiono, veementemente, o significado da palavra democracia, isto é, a sua evolução ao longo dos tempos. E evolução aqui engloba diversos campos.

A palavra democracia é a contínua catarse das relações humanas, nada é concebível fora dessa realidade, e como em tudo no politicamente correcto, a sua utilização de forma irresponsável para justificar coisas que não são justificáveis e para encherem egos e manterem ideologias, nada possui de intrinsecamente democrata. Se já nos planos meramente teóricos o conceito é de difícil expressão, como já o sabiam os autores da antiguidade clássica, nos planos puramente materiais, a situação torna-se explosiva. Deu lugar à ditadura do capital.

Quando alguém vem propôr que o 1º de maio seja um dos dois feriados a ser abolido, logo os do costume vêem alardear que querem acabar com a democracia e com os trabalhadores, sempre com o grande ideal democrata. Pode dar-se o caso, desses do costume, pretenderem festejar a sua condição de ESCRAVOS, e a dulocracia onde vivem, mas isso é com cada um. Um verdadeiro acto de democracia seria deixar precisamente de festejar esse feriado, mas é preciso grandeza de espírito para se ver isso, e todos os que perfilham ideologias muito libertinárias não a conseguem ter. Mas algumas perguntas são necessárias para quem passa a vida com a palavra democracia na boca: Mas, ele existe democracia? Onde está ela? Ele existem trabalhadores? Onde? 
A democracia deveria ser uma série contínua de consequências positivas e de realizações elevadas, não podemos ser como os ingénuos (os abrilinos) que só pelo facto de termos muita liberdade de expressão, de acção e de movimentos, somos livres e muito democratas e vivemos em democracia. Esse cenário seria bom numa sociedade elevada, mas numa sociedade como a nossa onde a ditadura do capital dita leis, ela torna-se dulocrata e não serve quem diz servir.

A palavra democracia não sofre apenas os efeitos de uma etimologia desajustada, sofre igualmente de desfigurações antropológicas e sociológicas sérias. A (des)evolução do conceito democrático, do qual uns poucos tiram grande proveito, mostra a seguinte situação, que não deixa de ser irónica, quanto mais alguém, um país, região ou sociedade berra pela democracia - MAIS INJUSTA É.
E só não vê quem não quer.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A escatologia anti - escatológica do euro

Salve-se o euro, gritam-se a plenos pulmões nos corredores poeirentos das «pousarias dos decisores "bruxelistas"». Este grito de guerra, é altamente escatológico, está sempre por uma moeda e uma política monetária que se revelou um fracasso total. Insiste-se no euro quando o próprio já não pode ser salvo, porque logicamente foi um erro de base considerar e tratar as economias dos países do sul da europa, mais fracos economicamente, do mesmo ponto de partida em relação às economias mais fortes do norte da europa. Escatologicamente, este princípio é uma anti - escatologia, porque os dados foram viciados à partida, tudo isto não aconteceu por acaso e sabia-se que alguém iria lucrar com a situação, tal como está precisamente a acontecer neste momento da história.

As teorias de conspiração voltam a agitar-se, a Alemanha continua a fabricar marcos!!, novos marcos alemães que já existem desde 2009, não sei quantos milhares de milhões. Circulam por aí fotografias dessas pretensas notas de 100 marcos, de 50 e de 10, todas devidamente com a respectiva data de fabrico, não posso discorrer sobre a verdade deste assunto, porque não sei se são verdadeiras ou não, as notas .., mas que é tudo muito estranho é.

O euro, a crise e a desvalorização do trabalho

É por demais conhecido o que se tem vindo a passar desde a introdução do euro. A moeda única foi um erro muito grave e Portugal nunca deveria ter aderido ao euro. Provavelmente, não teríamos esta carga de problemas se tal tivesse acontecido. Escusam os economistas, e eu não sou economista nem é preciso sê-lo para chegar a esta conclusão, de vir dizer que se não aderíssemos ao euro ficaríamos isolados. Só de má fé se pode dizer uma coisa dessas, porque o grande facto é que não se teve em conta que geoestrategicamente, Portugal, tem muita importância. E termos ficado no nosso escudo só nos traria vantagens na actualidade, ao contrário do que afirmam os economistas de pacotilha ao serviço dos serviços de desinformação.

A crise, esta crise de que falam diariamente, que não é só uma crise financeira, é muito mais do que isso, é uma crise de valores, de pensamento, de fé e de bom senso, existe, principalmente, para a desvalorização do trabalho provocando de seguida uma baixa generalizada (exceptuando a cáfila que está instalada à volta da tretocracia) de ordenados. Começa-se a pagar cada vez menos pelo trabalho, obrigando as pessoas a aceitar qualquer trabalho a qualquer preço, A ESCRAVATURA OU DULOCRACIA.

Entenda-se que esta crise teve várias etapas. Começou, isto em Portugal, nos meados dos anos 90, quando os bancos começaram a emprestar dinheiro "à pá". As pessoas, uma boa parte delas, não tiveram juízo e pediram dinheiro de mais para as suas possibilidades, e hoje estão a pagar bem caro pelo erro cometido. Estão elas e estamos todos nós, porque o que afecta a uns afecta a todos. Alguns desses bancos já faliram, outros estão na iminência do mesmo, e toda a população portuguesa, exceptuando uma pequena minoria, vão falindo diariamente. Esta falência que acabo aqui de referir, não é uma falência económica, mas sim espiritual e antropológica. Enquanto os bancos não triplicavam anualmente os seus lucros, esta onda facilitista de pedir emprestado uns milhões aos bancos, manteve-se, quando tal objectivo foi conseguido, triplicar os lucros anualmente, o que aconteceu entre 2002 e 2007, os bancos fecham a torneira, pegam no dinheiro e vão investí-lo nas bolsas. Em 2008, veio a crise e o respectivo afundamento da bolsa (de propósito, e quem achar o contrário, não sabe do que fala, seja ou não economista) tendo o dinheiro desaparecido do dia para a noite quando a bolsa afundou na sua totalidade.

Ora, o regabofe e o descalabro foram totais, dezenas e dezenas de bancos faliram em todo o mundo, e pelo meio tivemos um dos maiores vigaristas da história contemporânea, "Maddoff".

Mas alguém de boa fé, ainda acredita que a crise tem causas naturais ou laivos de plausibilidade?
Laivos de plausibilidade, havia de certeza, mas causas naturais não, porque esta crise foi fomentada e instrumentalizada pela agenda secreta que governa o mundo nas sombras. E todos nós, somos uns insignificantes personagens, uns comedores inúteis como nos classifica David Rockefeller, iminitente Bilderberg, membro da comisssão trilateral e do CFR.

E o que temos visto depois disto tudo? A tentativa de resolução da crise criada por eles? De maneira nenhuma! o que se vê é a agudização da crise, seja em aumentos reais do custo de vida, seja em aumentos de impostos, seja em aumentos de bens de primeira necessidade como combustíveis e electricidade.

ESTES AUMENTOS, DIGA-SE EM ABONO DA VERDADE, NADA TÊEM A VER COM A PATRANHA DA AUSTERIDADE,  a austeridade é uma mentira pegajosa muito utilizada pelos pulhíticos e agentes financeiros, esses aumentos são simplesmente para se continuar a pagar milhares e milhares de euros aos mesmos de sempre, aos conselhos de administração e agentes infiltrados.


Os telefunis e restante comandita merdiática continuam a fazer do povo parvo, continuam a mentir ao povo, continuam a mostrar paninhos cor de rosa com florzinhas, que se revelam autênticas armadilhas lipofrénicas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Acordo ortográfico Versus complexo colonialista

Na continuação deste post: espectivas.wordpress.com, deve salientar-se que o acordo ortográfico visa dois objectivos, que não são discerníveis um sem o outro. O primeiro dos objectivos é por demais conhecido. Aliado ao complexo colonialista, muito em voga no actualmente dos meandros da politiquice caseira. Em Portugal, pelos vistos, não há homens (decisores, políticos, o que for..) que possam fazer da condição natural da língua Portuguesa norma. A língua Portuguesa foi criada em Portugal, não no Brasil, em África, ou em Goa. Foi para lá levada por grandes homens de artes, de mestrias, de ciências, políticas e naturais,  de ofícios diversos.

Assim como se destróí o Portugal histórico, destrua-se também o seu património linguístico, como se a semântica fosse uma coisa de somenos importância, e por inerência, toda a tradição cultural em torno da própria língua. Ora quando a língua serve propósitos que não são os seus, atinge-se o segundo objectivo. Ele decorre do primeiro, por isso, é mais difícil de o detectar, mas é bem patente este segundo objectivo: acelerar o processo de destruição de um país e do seu património linguístico.

As intenções de More com a "Utopia"

Porque imaginou More a ilha utópica, com tantos traços de Inglaterra? Porque não a descreveu directamente? Na verdade, as intenções do futuro chanceler não são fáceis de descortinar. A sua personalidade é forte e presencial e sobretudo complexa. More misturou, com plena consciência disso, as críticas e louvores ao seu próprio país com transposições e invenções fantasistas. Imprimindo a tudo isto a sua marca pessoal, espírito rico e subtil, com muito humor. More, tal como Erasmo, é um humanista cristão, altamente disciplinado no helenismo e na patrística.

              Revelam-se em More duas influências importantes no seu pensamento, a utopia da antiguidade, representada por Platão e a mística da cidade de Deus, de S. Agostinho.

More pretendeu antes de tudo "um regresso às fontes", porque segundo o próprio, a erudição liberta da superstição, e, ao mesmo tempo, libertava o catolicismo reinante das degenerescências. More era um adversário das deformações do pensamento cristão através de obras de segunda mão e de segundo plano, mostrava-se mesmo hostil ao tomismo, especialmente na sua forma inglesa: o escotismo. É também um crítico, muito respeitoso mas severo, dos abusos cometidos pela igreja de então. Mas ele próprio não deixa de abordar o tema. Segundo ele, os utópicos são epicuristas no verdadeiro sentido do termo, isto é, para eles "nenhum prazer é comparável à felicidade de possuir uma consciência virtuosa e um coração puro." Mas o futuro santo não faz deles cristãos, praticam a religião natural, diz More, que é a melhor possível na ausência de revelação.

More mostra-se neste aspecto um antagonista dos reformadores do século XVI e dos heréticos do século XVII, como Calvino e Jansénio, embora o quisessem ligar aos teólogos protestantes, na realidade, o seu pensamento moldava-se na concepção tradicional do catolicismo que considera que o Homem possui, necessariamente, por essência, um valor próprio e é livre na escolha da sua salvação. Nem tão pouco More prefere a religião natural, e nem opõe a natureza à graça como fazem os protestantes. À semelhança de Erasmo, Colet, Pico de Mirandola, Lefévre, Ficino, Etaplos e outros, More foi um grande humanista, defendendo com convicção uma natureza humana susceptível de grandeza, de progresso e de santidade, ainda que diminuída pelo pecado, considerando também que a alma conserva, da sua primitiva rectidão, uma inclinação natural para o bem e para a virtude.

A este respeito More acrescenta, algo de realmente novo, a tolerância e a liberdade, mas não uma tolerância e uma liberdade qualquer, ilimitada, More dizia que o homem nasce para a filosofia  e para a virtude; não pode ser constrangido a alcançar estes bens sem ser através das suas inclinações naturais e dos cuidados atentos da educação. More, de acordo com as tendências do seu tempo, proíbe a propaganda de ideias que ele considera perniciosas mas permite que se discuta com os descrentes. Por outro lado - e isto é uma das provas do seu humor e um testemunho da sua tolerância - existe na ilha um neófito cristão que é expulso por ter dado provas de um proselitismo imoderado.

Mais vale mudar os homens e os costumes que as instituições, é preferível reformar a vida interior do que a vida pública, diz More, e, por consequência, indica, descreve, sugere. A utopia, embora seja uma ficção, foi muito bem pensada, usando na perfeição ora a semelhança ora o contraste, o que revela um esforço para tentar conquistar os espíritos, e como a utopia tem como condição essencial a honestidade intelectual, a firmeza de carácter e a independência do juízo, ela ajudou a que More, chegado o momento, se oponha às atitudes imoderadas do príncipe e pronuncie um irredutível Num Possumus. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

hooligans ingleses cantando canções romanticas

Big City Nights- Scorpions (live with Berlin Philarmonic Orchestra)



A propósito do concerto dos Scorpions no nosso país. Pena que eu não possa assistir.

S. Tomás More

De Erasmo a More a transição é fácil. Ambos humanistas, encontram-se além disso ligados por uma profunda amizade. Esta foi contestada a fim de aproximar Erasmo de Lutero, mas Henri Brémond (Le Bienheureux Thomas More-Paris-Lecofre, 1904) não encontrou na obra de More uma única linha em que transparecesse o mínimo desacordo com a obra e pensamento erasmiano.

Tomás More nasceu em Londres em 1640. Foi jurista e advogado de renome. Certos autores sugeriram que ele não gostava muito da sua profissão, no entanto, os rendimentos que lhe provinham desta, parecem mostrar que ele se revelava activo e hábil no seu desempenho. Humanista, brilhante conservador, dotado de muito espírito, poeta, artista, alcançou as boas graças de Henrique VIII em 1635. Foi declarado «bem-aventurado» pela igreja e depois «santo», em 1935.

O papel de More na política foi breve. H. Brémond, apesar da consideração que por ele mostrava, concorda e faz notar que a sua influência junto de Henrique VIII, monarca absoluto, foi extremamente limitada, até ao momento em que, tendo-lhe More oposto uma resistência respeitosa mas inflexível, o monarca condenou-o à morte. Em contrapartida, More ocupa um lugar considerável na história das ideias políticas como autor da obra escrita, "utopia". A palavra «utopia» vem do grego "ou topos", cujo sgnificado é «não lugar» ou «lugar inexistente». Sobre a obra propriamente dita, todos os personagens e lugares têm nomes imaginários que traduzem a irrealidade quer dos seus seres quer das coisas. A capital da "utopia" chama-se «Amaurota», a cidade fantasma. O rio que atravessa Amaurota chama-se anidris, «o rio sem águas». O rei de utopia chama-se «Ademos», o príncipe sem povo. Os cidadãos são os «Aleopolitas» ou sem cidade (hoje díríamos apátridas). Os habitantes dos países vizinhos são os «Acoreanos», atenção que é Acoreanos e não Açoreanos. Quanto ao viajante que descobriu a Utopia, More dá-lhe com humor o nome de «Hitlodeu», o vendedor de balelas.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A extrema-direita está a crescer em toda a Europa - Globo - DN

A extrema-direita está a crescer em toda a Europa - Globo - DN

Perante a merda que nos desgoverna estavam à espera de quê? Cresce e ainda bem que cresce, qual xenofobia, qual anti-semitismo, qual racismo, qual mais tretas. Isto são argumentos próprios de quem não tem argumentos, a tristeza ideológica ao serviço dos burrinhos de merda e dos comunas amestrados que nem sequer sabem o significado desses chavões.

As eurofalácias e a sovietização da europa

Esta não foi a europa que nos prometeram, bem pelo contrário, fomos traídos e atirados para canto, como se nós fossemos lixo. Os leitores vão desculpar-me a linguagem que se vai seguir, mas perante a bandidagem que nos calhou em sorte, não pode haver outras palavras. O euro foi introduzido na europa para SERMOS ROUBADOS TODOS OS DIAS, IMPLACAVELMENTE, INAPELAVELMENTE, sem dó nem piedade, e sempre em nome da estabilidade dos idiotas úteis sovietizados desta merda de união europeia.
Quando o euro foi introduzido em 2002, e daí para cá, assistimos a uma inflação de preços, sobretudo nos produtos básicos, que faria corar de vergonha qualquer pessoa que tivesse um pingo de decência. Mas como decência não faz parte do vocabulário nem da ordem moral destes MAIORES FILHOS DA PUTA DA NOSSA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA, assistimos a este escândalo sem fim.

É claro que nada disto acontece por acaso, e as hostes maçónicas esfregam as mãos de contentamento por via da aproximação a passos largos da escravatura que se seguirá. Por mim digo, porque essa gente não me merece nenhum tipo de respeito, deveriam ser dizimados, queimados vivos na pira gigantesca da indecência.

Para alterar este estado de coisas só à chapada, mas chapada valente, de criar bicho. Que vão para A PUTA QUE OS PARIU MAIS AS SUAS LEIS E A MERDA QUE DESGOVERNA O EDIFÍCIO EUROPEU.

Está a chegar a hora do juízo final, e esses cabrõezinhos de merda pagarão bem caro aquilo que estão a fazer aos povos. Boicotar é preciso, uma série de serviços e empresas monopolistas, boicotar é imperioso, todo o sistema político e a casta de palhaços amestrados que lhe dão vida.

A verdadeira revolução vai começar, mas cuidado, revolução com cabeça, porque revoluções para tirar do poder uns títeres de merda para lá colocar merda e meia não adianta de nada. Esta revolução é uma revolução que transcende os conceitos naturais e por consequência, o sentido da própria palavra revolução.

Preparem-se meus amigos, a revolução já começou, e daqui para a frente nada será como dantes.

Portanto aqui lanço o grito de alerta, abaixo a união europeia, o euro e todos os carrascos da europa.
Por uma nova europa, agora e sempre.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O humanismo cristão: Erasmo

Erasmo não conheceu o secretário florentino (Maquiavel), mas nem por isso deixa de retratar na perfeição, a contra corrente do seu pensamento. Face a uma política não só «laicizada» como também «descristianizada», Erasmo, como diz Charles Benoist «recria a tradicional imagem do Príncipe cristão».
A instituição aparece em 1516. Escrita em latim, é dedicada, segundo o uso da época, a uma grande príncipe- o imperador Carlos V. A obra, traduzida quase imediatamente para françês no reinado de Francisco I, será publicada segunda vez, numa edição famosa de 1665, chamada "La sphére".

Erasmo, de seu verdadeiro nome Desiderius Erasmus Roterodamus, nasceu em roterdão, holanda, em 1466, tendo morrido em basileia na suiça em 1536. É a figura mais notável do humanismo renascente. A sua obra, extraordinariamente extensa, exprime uma curiosidade universal. A esta corresponde uma aceitação universal para o seu tempo. Toda a europa conhece as suas obras que são lidas com paixão. Por meio dos seus escritos tão diversos, Erasmo propõe-se o objectivo fundamental do renascimento do homem, e através dele e de toda a sociedade, no duplo sentido racionalista e cristão. Tendo em conta as suas primeiras directrizes é muitas vezes considerado como um dos precursores e um dos principais representantes da corrente do livre pensamento, mas, na realidade, é um católico convicto. Uma grande parte da sua obra é dedicada à edição de textos religiosos, nomeadamente do Evangelho. Critica o comportamento da igreja romana na sua época, mas também não deixa por isso de pretender renovar a cultura e elevar o humanismo a um estado de perfeição, ligando a tradição clássica com a religião cristã.

À maneira dos autores medievais, Erasmo constroí idealmente um corpus christianum. 
O centro desse corpo é cristo. Em torno dele estão traçados concentricamente três círculos, dois pequenos e um grande. A primeira zona é ocupada pelos príncipes da igreja e pelos padres: é a zona interior. A zona exterior contém a grande massa dos simples laicos, profundamente ligados à terra, e que pertencem ao corpo da igreja. Entre estas duas zonas- interior ou eclesiástica e exterior ou laica- a zona intermédia é constituída pelos príncipes temporais; quando governam com justiça, servindo a Cristo, e quando proporcionam o repouso ao seu povo, partilham à sua maneira da dignidade sacerdotal e situam-se assim muito acima daqueles que formam a zona exterior do laicado. Todavia, seria errado inferir deste esquema a ideia de que Erasmo confere aos príncipes uma situação priveligiada. Para ele não há dois cristianismos: um para os princípes e outro para os homens vulgares. A religião de todos deve estar de acordo com o ideal evangélico. O príncipe, em virtude da sua posição mais elevada, deve suplantar os outros pelas suas virtudes, prudência e integridade. A lei do sacrifício é-lhe imposta, assim, como a todo o cristão. Se pretende seguir Cristo, deve levar a sua cruz. Não pode escapar à lei geral. Está-se muito longe do pensamento de maquiavel, que edifica uma moral especial para o prínicipe, colocando-o numa posição acima da moral universal; está-se também muito longe dos absolutistas para quem a conduta dos poderosos não está submetida a nenhuma espécie de controlo terrestre.

Uma misantropia desesperada

"Classe política", "elite", "oligarquia", "violência", todos estes termos têm um som bem maquiavélico. Pretendem traduzir uma visão lúcida dos homens e dos acontecimentos conforme às lições do autor do príncipe. Mas, no que a este diz respeito, os seus sucessores têm geralmente uma visão parcial e exclusivamente pessimista do mundo.

Como muito bem diz R. Naves, o maquiavelismo funda as suas conclusões sobre «uma misantropia desesperada e um cinismo declarado...» Ora, Maquiavel primeiro e Mussolini depois, ao desempenharem papeís de homens maus e medíocres, perderam ambos a partida. Os heroís maquiavélicos acabaram mal: César Bórgia, morreu no exílio em Espanha, numa escaramuça, e Mussolini no balcão de um açougue em Milão. O maquiavelismo é assim julgado de acordo com o critério de valor que ele próprio adoptou para si: o sucesso.
Maquiavel, para expor uma doutrina política válida, deveria tê-la exposto de forma completa, porque, mesmo no seu tempo, havia felizmente no mundo outros homens além dos aventureiros que ele admirava. Havia pensadores e santos, havia Erasmo e Thomas More.