terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Restauração da Independência de Portugal - ano 374

Esta peça deveria ter sido escrita ontem, dia 1, mas propositadamente deixo-a para hoje como se de certa forma, servisse de alerta aos mais distraídos deste país. O 1º de Dezembro tem de ser comemorado, ensinado constantemente às pessoas, sobretudo aos mais jovens, que sabem muito pouco de história e, pior ainda, muito longe de compreenderem a importância de tal data, onde foram cometidos actos de grande bravura, em nome de Portugal e dos portugueses. Só aqueles que não têm respeito pela história e pelo país poderiam ter decidido acabar com o feriado da restauração da independência.



«Era Vice-Rainha a duqueza de Mantua, secretario d´estado Miguel de vasconcellos, presidente do desembargo do Paço o arcebispo de Braga, D. Sebastião de Mattos Noronha, presidente da mesa da consciencia e ordens o conde da Castanheira. Eram membros do conselho d´estado o arcebispo e o conde que citámos agora, e os condes de Santa-Cruz, Miranda, e Linhares, o marquez de Villa-Real, e D. Francisco de Mascarenhas.»
(...)

«Rompeu, sereno e límpido, o dia 1 de dezembro. Não tinha nuvens a aurora da liberdade portuguesa. Quem poderá adivinhar os pensamentos que salteiavam o espírito dos conjurados ao erguerem-se, n´essa fria madrugada d´inverno, para emprehenderem um tão incerto feito? Sabemos contudo que, se muitos se preparavam com sombria resignação para se irem immolar, victimas heroicas, no altar da liberdade da patria, outros havia que a grandesa da acção enthusiasmára de novo, e que cingiam a espada, cheios de temeraria confiança. Impeto febril, fria resolução, ou verdadeiro ardor, é certo que nenhum trepidou. mais alto do que todos os outros sentimentos fallava no coração o amor da patria opprimida, e o desejo de se resgatarem. Se a essa idéa do dever cedêra o proprio amor maternal!»
(...)

«Pouco antes das nove horas estavam reunidos no Terreiro do Paço todos os conjurados. A apparencia pacifica dos coches, que iam chegando ao terreiro, não assustava os soldados da guarda, costumados n´esses tempos mais madrugadores do que os nossos a Vêrem apparecer junto do palacio os cortezãos da duqueza. (...) Com a mao no fecho das portinholas esperavam os fidalgos impacientes o bater da hora solemne. Dão nove horas. Abrem-se a um tempo os coches, e os fidalgos descem, e emquanto Jorge de Mello, Estévão da Cunha, Antonio de Mello e Castro, o padre Nicoláu da Maia e outros esperam, ainda dentro das carruagens, que venha o signal do palacio para assaltarem a guarda castelhana, o grosso dos conjurados sobem rapidamente a sescadas, entram na sala dos archeiros tudescos, e, sem lhe darem tempo nem sequer a suspeitarem o que ia succeder, Affonso de Menezes, Gaspar de Brito Freire e Marco Antonio d´Azevedo, deitam ao chao os cabides das alabardas, outros desembainhando as espadas affugentam os archeiros attonitos e darmados. Alguns d´estes, ou pro não terem as alabardas nos cabides, ou por serem mais resolutos, cumpriram o seu dever com certa bravura, já defendendo a entrada do corredor que ia ter ao forte onde ficavam os quartos de Miguel de Vasconcellos, já cobrindo a porta dos aposentos da duqueza de Mantua. Os primeiros levam- n´os adiante de si Pedro de Mendonça e Thomé de Sousa, os outros resistem com desespero a Luiz Godinho Benavente e mais trez ou quatro fidalgos, e só depois fogem, depois de terem visto cair dois dos sues, um morto outro ferido. Entretanto D. Miguel d´Almeida, ebrio d´alegria, corre a uma varanda, abre-a, e brandindo um estoque, exclama:« Liberdade! Liberdade! Viva el rei D. João IV! O Duque de Bragança é o nosso legitimo rei!». E as lagrimas, embargando-lhe a voz, innundavam-lhe as barbas alvejantes, que fluctuavam ao sopro da brisa do Tejo, que doiravam os raios de sol a campeiar no céu. Respondeu-lhe de baixo um immenso grito d´enthusiasmo e jubilo. Liberdade! Liberdade! bradou o povo n´um grito unisono. É que todos julgavam divisar n´esse heroico D. Miguel d´Almeida, n´esse velho de oitenta anos, radiante d´ardor juvenil, o symbolo de Portugal decrepito e alquebrado, mas illuminado n´essa hora de resureição por um lampejo, por um reflexo do esplendor das suas eras gloriosas.
Não se limitou a essa resposta unisona a acção dos que estavam na praça. Antes que a guarda castelhana podesse perceber o grito de liberdade que troava sobre as usa cabeças, Jorge de Mello arremetteu com os seus a elles n´um impeto, d´espadas levantadas e pistolas em punho. Quizeram resistir, mas não lh´o consentiu nem o sobreslato repentino, nem o ardor dos nossos. Apenas o alferes Marcos Leitão de Lima levou uma coronhada que lhe ia sendo fatal. Os fidalgos, entre os quaes se distinguiam dois eclesiasticos, o padre Nicoláu da Maia e o padre Bernardo da Costa, combatendo com tanto ardor como os inimigos, n´um momento dispersaram os Hespanhoes, e foram unir-se aos seus companheiros, deixando à turba já alvoratada o cuidado d´impedir a guarde de se tornar a formar, se o terror lh´o permitisse.
Entretanto nas sals os outros conjurados proseguiam a sua victoria. D. Antonio Tello, que não queria de fórma alguma deixar de cumprir o juramento que fizéra de ser o primeiro a ferir Miguel de Vasconcellos, nem entrou na sala dos Tudescos, esperou na galeria que communicava para o forte. Não foi sem um frémito de raiva que viu passar Manoel Mansos da Fonseca, um dos confidentes de Vasconcellos, recioso de que lhe levasse aviso. Por isso, apenas, d´ahi a alguns instantes, os fidalgos desarmaram os archeiros e dispersaram os que pretendiam cobrir a passagem para os aposentos do secretario, D. Antonio correu logo para a secretaria. Seguiam-n´o já a pouca distancia, Pedro de Mendonça, Ayres, e João de Saldanha de Sousa, Sancho Dias, João de Saldanha da Gama, D. João Coutinho, D. João de Sá de Menezes, camareiro-mor, os dois filhos de Philippa de Vilhena, D. Jeronymo de Athayde, conde d´Athouguia e seu irmão D. Francisco Coutinho, Tristão da Cunha d´Athayde, Luis da Cunha e Nuno da Cunha, D. Manuel Childe Rolim, D. Antonio da Cunha e outros. Esta impetuosa turba encontrou logo aos primeiros passos o corregedor Francisco Soares d´Albergaria, a quem bradaram: Viva el rei D. João IV, e elle respondeu com intrepida imprudencia: Viva el rei D. Philippe, caindo logo varado por duas balas. Esta morte não prevista nos planos da conjuração, podia ser causa de grandes desgraças, inflammando no ardor sanguinario da luta o animo excitado dos fidalgos.
Ainda o official-mór da secretaria d´estado, Antonio Correia, que acudiu ao estrondo dos tiros, foi logo apunhalado por D. Antonio Tello, que, vendo já tudo vermelho diante de si, ia fazendo o mesmo ao capitão Díogo Garcez Palha, que se salvou da morte com uma perna quebrada, saltando d´uma janela para a praça de armas. Também Antonio Correia sobreviveu às punhaladas, arrastando-se por uma escada, cujos degraus encheu de sangue, até um quarto do pavimento inferior.
Entretanto Miguel de Vasconcellos fôra efectivamente prevenido por Mansos da Fonseca de que havia novidade. Estava deitado ainda, mal tivera tempo de se vestir quando ao aviso succedeu estranho rumor nos corredores. Pallido de susto, correu à porta e fechou-a por dentro. Logo sentiu os fidalgos baterem primeiro fortes aldravadas, e em seguida lascarem a madeira com os machados com que pretendiam arrombal-a. Então, vendo-se perdido, pegou n´uma clavina carregada, e encerrou-se n´um armario de papeis. Ali, reprimindo a respiração e com a fronte aljofrada pelo suor da angustia, sentiu a porta ceder, entrarem os fidalgos como uma torrente, e revolverem, blasphemando, todos os cantos do aposento. Esteve por um fio a sua salvação, porque os conjurados, não o encontrando, iam procural-o à casa da India para onde julgaram que tivesse fugido; mas pela estreiteza do esconderijo Vasconcellos não pôde evitar fazer um leve movimento. Sentiram- n´o, correram para lá com um grito d´alegria feroz e logo uns poucos de tiros se dispararam. Atravessaram duas balas a garganta de Vasconcellos, que caiu morto, golphando jorros de sangue.
Depois de o terem punido, desampararam-n´o os vingadores da Patria e foram os creados que seguiam D. Gastão Coutinho que arremassaram das janelas o corpo do odiado ministro. Quando a plebe, que já enchia torrentuosa o Terreiro do Paço, viu cahir assim ao desdem o cadaver do seu oppressor, soltou um verdadeiro rugido de triumpho, e deleitando-se na satisfação de tão cubiçada vingança, não houve insulto, não houve mutilação que não fizesse sofrer a esses tristes despojos.»


Continua, transcrição feita respeitando a grafia da época, In História de Portugal- Tomo III de F. Diniz págs. 290 e 291

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O caciqueiro indignado - s(o)arilhos e traições

No tumulto generalizado pela prisão do ingilheiro ainda podemos ouvir a taramulhada de pessoas que deveriam ter vergonha e tento na língua. O grau de indignação patente naquele senhor, avozinho de tremelicosa beatitude, é sintomático da perfídia e da mentira que acompanham a construção política do nosso país. 

Devo dizer-te avozinho que tu só não foste engavetado porque tinhas uma série de padrinhos no exterior, que por interesses alheios à vontade do povo nunca permitiriam uma coisa dessas. Se o caso actual se tem dado com um político do espectro da direita, aí sim, as acusações seriam merecidas na tua opinião. Também tu, como bom socialista que és, não deixas de "amamentar as tuas causas e ideologias" no marxismo, neste caso, utilizas a «tolerância repressiva de Marcuse» que afirma categoricamente e "cagando na cabeça dos outros" que «os bons estão aqui deste lado e os maus estão ali..». 

És uma besta, tal como Marcuse, e ainda te dás ao luxo de vir publicamente e com uma indignação ridícula  e risível, defender o que não tem defesa. Claro que tem defesa no código de conduta da democracia da treta, que se fundou no totalitarismo da ingilharia abrilista pelos inimigos da democracia, mas a nível real e não no vosso mundo de estirpes à parte, toda a gente sabe o que aconteceu, ninguém é cego e burro ao ponto que tu e os teus amiguitos caciqueiros pretendem.

A tua fundação deveria ser dinamitada e os teus rendimentos reduzidos a 1/4 do que recebes, mas se tal acontecesse, os teus inúmeros afilhados todos chorariam ranho, baba e códeas durante anos. Coitados de nós, vivemos no país dos enganos, onde os que mais abrem a boca para (re)clamar democracia são os maiores inimigos dela. Mas pode ser que a história começe a ajustar contas convosco, sim vós os inimigos da Democracia. 

  

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O canhão encravou - Os caciques estão com medo, com muito medo

A paródia democrática portuguesa não tem limites nem pudores, o caciquismo anda em bolandas com a prisão do "hollandêz" socialista, aliás «xuxialista», cá do burgo. Os seus "amiguitos" e "kameratens" de partido e de cleptotropelias estão em pulgas: «mas afinal de que é acusado o homem?», lançam as suas inocências para o ar fazendo da restante população uma cambada de zarolhos.

O filho do cabrão maior do pré e pós 25 da silva, com a lágrima a cair-lhe pela omoplata abaixo, e com ar de grande sumidade e especialista no que ao cacique diz respeito, atira-se com esta: «a prisão do Engenheiro é injusta e injustificada.» Está visto, roubou pouco, na opinião desta grande sumidade e desta vez, a lágrima saída do olho esquerdo, escorre-lhe pela clavícula direita abaixo.

Uma antiga ministra da descultura e da descompostura, vem por outra via, manifestar a sua surpresa (?) e dúvidas relativamente ao processo !! 

É que estamos a pouco menos de 1 ano das legislativas e o objectivo do partido xuxialista conseguir a ansiada maioria para escacar definitivamente o país começa a ser posto em causa. 

Os caciques estão com medo de não conseguirem esse desiderato e todas as suspeições que se seguirem, seja sobre a imparcialidade ou idoneidade dos juízes ou seja sobre o excesso de condições ou falta delas dos edifícios onde decorrerão os julgamentos (se chegar a haver julgamento..), serão vias que os caciquistas de maré não deixarão de explorar.

A democracia, de tão pérfida que se tornou na mão destes agentes cleptocratas, começa muito justamente a ajustar contas com estes seus inimigos. 

Sim, porque toda a franja política actual, com algumas excepções, é inimiga da democracia. Os partidos políticos actuais são inimigos da democracia, toda a estrutura político-financeira deste país é inimiga da democracia. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Tiros sobre tiros de canhão - A falácia partidocrática

Para além de óptimo espectáculo mediático este mais recente episódio político é terreno fértil para desviar as atenções, quer sejam simples tensões de facto ou sejam apenas e só intenções. O "anedotório" em volta do caso não para de evoluir.
Mas ainda se acredita no homem, há quem o defenda e o considere incapaz de tais coisas de que o acusam. Tomara esses saberem sequer metade do que por aí vai. Mas eles insistem, insinuando que somos todos burros e tolinhos e até talvez cegos...

Esta notícia deixa obviamente muita gente contente, sabemos as razões e não é preciso dizer mais nada, mas o descalabro continua. Vistos gold, subvenções vitalícias, uma subvenção de tão mau gosto que fere qualquer sensibilidade que seja verdadeiramente democrática. 

A falácia partidocrática parte do princípio de considerar qualquer político num "patamar acima da lei comum", conferindo-lhe um estatuto de imunidade nefasto aos interesses da verdadeira democracia. A "Lei da Rolha" é piramidal, e quanto mais próximo se está do vértice, maior a pressão sobre a "rolha"; a corrupção funda-se num terrível pacto de silêncio dominador das ambiências. Este princípio legitima uma partidocracia difusa, que ataca e contra-ataca quando lhe interessa, e provocando uma alternância política  da qual não é possível escapar tendo em conta o panorama desolador de uma sociedade como a nossa actual. 
Mas esta falácia vai ainda mais longe, a tentativa de impor uma imunidade política a coberto de certas pretensões pseudo-democráticas, legitima uma outra acção; a existência de leis igualmente difusas que estabelecem em definitivo a possibilidade concreta da partidocracia. 
Podíamos aqui recordar uma série de julgamentos mediáticos, onde a isenção e idoneidade dos juízes era constantemente posta em causa pelos advogados ou então só passadas 10 ou 20 sessões chegavam às brilhantes conclusões que a sala era muito pequena e teriam de transferir o julgamento para outro tribunal. Depois do julgamento recomeçar noutro tribunal, e passadas novamente umas 10 ou 20 sessões, afinal o tribunal era grande demais e tinham de regressar  ao primeiro tribunal ou arranjar outro. Mas como se pode julgar actos criminosos altamente acobertalhados pela grande cúpula do poder?
Um carnaval sem fim para quase sempre dar em pouco, alguma pólvora, quase toda seca, e puuuuuffffffffffff, arrebentou o balão..



Mais tiros de canhão - A Casa das Putas Na Longa Noite dos Sardões

Corrupção, ladroagem e tráfico de influências formam uma trilogia diabólica, sem distinção de nada nem de ninguém, sem nenhum respeito pelo que quer que seja.
Há 40 anos que andamos a ser sugados por um regime que podemos classificar como CRIMINOSO. Se as pessoas deixassem de ver a "Casa das Putas Na Longa Noite dos Sardões" e outras palermices do género e começassem a investigar quem eram os nossos governantes antes de lá terem passado, metade dos roubos não aconteceriam, nem hoje viveriam num estado de pré-escravatura.

A corrupção foi inventada, ou pelo menos desenvolvida, nas mansardas maçónicas tendo em vista o empobrecimento geral das populações e sua respectiva destruição e, o enriquecimento desenfreado de uma minoria de charlatães empantucados de maus princípios até à medula... consequência total e irreversível desta invenção é o facto da ladroagem de Estado (cleptocracia) e o tráfico de influências (plutocracia) ditarem leis, isto é, foi mediante esta mistificação maçónica que se construiu um Estado de Direito e uma Democracia. E o roubo segue imparável, derruba e racha a meio qualquer obstáculo que se lhe depare.

A subversão e a torpeza intelectual tomaram conta do país, a idiotice e o chico-espertismo são as duas faces da mesma moeda, especialistas de bombarro em conluio com os "donos desta merda toda" dão-se ao luxo de falsificar permanentemente a história, da pré-escravatura à escravatura total vai um passo muito pequenino...

O retrato fiel da sociedade actual é dado pela "Casa das Putas Na Longa Noite dos Sardões", onde um bando de atrasados mentais de colhão bufado se entretém a dar umas fodas em público, ou até enrrabadelas, com impudor e impunidade, pispagando chusmas de saliva tal como as regateiras das sardinhas. Uma sociedade de caca diga-se de passagem, a Grande Sociedade Moderna de caca do Século XXI como hoje seria mais do que justo chamar-lhe, a corrupção endémica é a sua imagem de marca, tal como os seus sucedâneos, a ladroagem e o tráfico de influências.

Um dia, não muito longínquo ainda será possível ver a nossa terra transformada num gigantesco bordel, atafulhado de lambe-sogas e de taramafuleiros  saídos da Longa Noite dos Sardões.



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tiros de Canhão - A Decadência de Portugal

«Já no despedir do século XVIII a ideologia da Revolução frutificava em Portugal, dando cá entrada pelos capilares da maçonaria, cujos malhetes batiam o compasso à ária altissonante da Regeneração Social. 
O Intendente Pina Manique foi cedendo terreno até ser batido pela pressão das influências napoleónicas. D. Lourenço de Lima regressado de Paris, como representante de Portugal, manifestava-se abertamente em Lisboa partidário de Napoleão, e a palavra Regeneração também por cá encantou os homens.
As lojas, dos pedreiros livres, upavam, bem visíveis, no primeiro ano do século passado. [século XIX]
Regeneração era o nome da loja da qual em 1807 era mestre o conde de Paraty, que passou o maço pedreiro, o grão-malhete a Gomes Freire de Andrade, veterano experimentado no maçonismo desde que em França, em 1785, se iniciou na Bienfaisance, a loja iluminista de Lyon que se antecipou a votar a morte de Luís XVI.
A conglutinativa palavra serviu de bandeira ao movimento político de 1851.
Uma vez aquietado, aquelas forças políticas que irromperam dos alvorotos do campo de Ourique, da tentativa revolucionária de 1817, e da revolução de 1820, depois atordoadas pelo estridor de umas décadas de embates, alguns sanguinolentos, encaminharam-se indecisas e cambaleantes, para a estabilização em dois partidos, guiadas pelas teses do manifesto de 27 de Maio desse ano de 1851.
Ia dizer que, desde então, desde a Regeneração se foi construindo o corochéu do regime da dualidade alternada do poder, acabado de erguer pelos arquitectos do Rotativismo para, anos decorridos, esboroar-se com as dissidências de João Ferreira Franco Pinto Castelobranco - o João Franco -, e de José Maria de Alpoim Cerqueira Borges Cabral - o José de Alpoim -, apressando-se o advento da república.

A Regeneração foi, por assim dizer, prenda oferecida a D. Luis de gomil de fina olaria para crisma do regime, brinco que de caminho ficou em tassalhos. Costa Cabral manobrava na sombra e a imediata cisão de Loulé rachou-a a meio.

Todos os da Regeneração se consideravam progressistas; porém o apelativo ficou para os históricos, imediatamente nomeado tanas. Subdividiram-se esses tanas em duas formações: uma, chefiada por Lobo d´Ávila, baptizaram-na de unha negra, e à outra, comandada por Anselmo José Braamcamp, de unha branca.
A oposição regeneradora, chamando a si o exclusivo de liberal e da posse da arca da ortodoxia da Regeneração, lançou furibundo ataque aos tanas, particularmente ao chefe Francisco Lobo d´àvila alcunhando-o de herói de Santulho, malévola insinuação ao assassinato de Agostinho Coelho de Araújo, divulgada em folheto - A Cruz de Santulho - profusamente distribuído nas câmaras e alardeado em cartazes luminosos em noites movimentadas da capital.

No momento o conde d´Ávila fazia um volte face à oposição entrando no ministério de Sá da Bandeira. Gritava-se aceradamente: a unha branca uniu-se aos do Santulho.

No parlamento os da unha branca tentam alijar Loulé e repartem-se dando o pequeno grupo dos maraús sob a regência de José Luciano de Castro. De tal imbróglio resulta a grita por um governo de cor definida, fosse cabralista, histórico ou setembrista pois o da ocasião era dominado pelos irmãos Cabrais. Chegou a entrever-se a pasta do reino debaixo do braço do Doutor António Correia Caldeira para quem olhavam como se fosse um sósia do conde de Tomar, secreto dirigente da política governamental».


Continua


In Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos - Francisco Malheiro, páginas 95, 96 e 97, tomo III

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os depravados da Política II

«Aos seus 17 anos no jornal O Vianense subscreveu um artigo focando estrondosas questiúnculas políticas e visando particularmente pessoa inteligente e culta à qual seus predicados e elevada positura colocaram no primeiro plano social de Ponte de Lima.
Assediou D. Santiago Garcia de Mendoza, o aventureiro que deu na vista a Camilo Castelo Branco, vindo de Pontevedra para em Braga ser estimado como general carlista e casar rico em Guimarães com uma filha do visconde de Azenha, senhora de vastas propriedades herdadas pela mãe do tio João Malheiro Pereira de Castro e Lyra, o fidalgo de Crasto, da casa dos Malteses. Salientando-se na política, tanto na miguelista como na constitucional, dissipador e frascário acabou cônsul de Portugal em Marselha.
Fora crudamente alvejado. Primeiro, atribuido-lhe ingerência na prisão de um Manuel Álvares Romero cuja extradição exigia o governo espanhol e que foi capturado em 5 de Abril de 1850 e justiçado passados dois meses. Segundo, lembrando-lhe a deserção do legitimismo, com arrepanhia dos fundos do partido de Viana, qual um eleche da ideologia, vendendo-se ao duque de Saldanha par viver em sossego no país. 
Respondeu-lhe o D. Santiago. E como mais tarde fez correr a jorros sua jocosidade num outro periódico o Braz Tisana, do Porto, foi chamado aos tribunais tendo por defensor o jurisconsulto Custódio José Vieira e por acusador o já notável José Luciano de Castro.
Destas peripécias da mocidade valeram-se os contrários para lhe chamarem «moço estouvado» e «difamador e calumniador confesso».
E tanto mal lhe queriam que, apesar de a geral veneração pelo pai, general Sá Coutinho, a aleivosia de uns oficiais da administração do concelho meteu-lhe na algibeira, imperceptivelmente, um pistolão, e com esse pretexto entrou na cadeia. A velha prisão de D. Manuel I transformou-se em salão de baile para, em homenagem ao improvisado delinquente e em protesto humoroso mas veemente, a primeira sociedade da terra bailar, folgar e rir até alta madrugada.

Foram estes passos da mexida adolescência de José de Sá os motivos do foguetear de remoques e das investidas com que os amigos de Rocha Peixoto miravam debreá-lo no afinco de impedir o desemperro, a coragem e a firmeza com que se houve em Ponte de barca, que, logo a três meses de abandonar a administração do concelho, o apresenta como seu candidato a deputado.
Substituído no lugar por Rocha Peixoto, encontram-se nas eleições de 1865 seguidas à dissolução das câmaras pelo conde d´ Ávila. 

Travou-se pugna endentada e ominosa em que as mesmas personagens de há vinte anos antes fizeram reviver as violências e despotismo desse tempo, a coberto da força armada, reforçada por malta de caceteiros, servindo de guarda de honra às urnas.

Pagaram-se votos a 500, 1000 e 1550 reis, aboletaram-se os soldados só na casa dos contrários, e na freguesia da Lavradas foi rezada missa às duas horas da madrugada para prenderem-se os eleitores e levarem-se a votar arrebanhados.

Rocha Peixoto propõe-se prender um influente oposicionista a título de culpado criminalmente, e atormenta e aterra o eleitorado lançando bando de que os que viessem à vila pagariam certo imposto. O povo, encalmado e indignado, mexe-se para o motim, mas José de Sá intervém tomando a palavra na praça pública para invectivar rudemente a táctica do chefe local dos governamentais, animando e encorajando os da oposição, e assim distrair a gambérria do ânimo popular.

Nesse dia tomou pé o Sá Coutinho; e o outro, refeito do embate, apercebeu-se de ter pela frente um adversário de respeito, sobretudo ao seu amigo conde d´Ávila deixar o lugar a Aguiar, ao Mata-frades, e esse moço ser reconduzido na administração do concelho. 
Rocha Peixoto assistiu ao delirar da vila aos sons estridentes da filarmónica, dos repiques nas sineiras e das girândolas de foguetes, até alta madrugada; enfarou-se do cheiro acre e enojoso das fumigações da farrapada de um boneco figurando o conde d´Ávila, e derrancou-se com o arraial de flores e regosijosas exclamações à chegada da nova autoridade.


Quadram-se os dois contendores. A briga é severa, seu conspecto é de rigor quando José de Sá prende e faz julgar e condenar o Dr. Francisco António da Fonseca e Brito, persona grata de Rocha Peixoto, a quem os adversários acusavam de violências e desmandos «Inqualificáveis» no exercício do cargo de administrador do concelho substituto».  

Continua


In Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos - Francisco Malheiro, páginas 76, 77, 78 e 79 tomo III