domingo, 15 de novembro de 2009

A maldição do individualismo

Na república,a sociedade não é mais um corpo geral, mas uma reunião de indivíduos:como a vontade geral não é mais que uma soma de vontades particulares. A conservação geral,que é o objectivo,não é mais do que a felicidade individual; e vemos com efeito o bem estar físico do homem compensar algumas vezes nas suas repúblicas,a sua degradação moral,e o sacrifício da sua liberdade social: tudo se individualiza,tudo se canaliza e concentra na vida actual; o presente é tudo para a república;não têm futuro. Tudo o que é eterno na religião, tudo o que é permanente na sociedade é por sua vez,destruído ou desconhecido,nega-se a eternidade das penas e das recompensas,a vida futura,até a existência de Deus.E ao mesmo tempo a pena de morte,o primeiro meio de conservação de uma sociedade,é trocada por uma pena temporária,sendo as distinções hereditárias confundidas com funções amovíveis,a propriedade essencial,tudo é subvertido.O homem torna-se inconsciente,e Deus não é mais do que a junção dos seres.Observo o progresso sucessivo dastas opiniões desoladoras;e censurando não alguns anos,mas séculos,não uma ou duas sociedades,mas todas as sociedades,constato com pavor a marcha combinada do ateísmo,do materialismo e do republicanismo.


Louis de Bonald-«Teoria do poder político e religioso.» (1796)

O homem só e o homem de Deus

Estamos todos enganados[...] devido a um sofisma tão natural que escapa totalmente à nossa atenção.Porque o homem age,e pensa que age só,e porque ele tem consciência da sua liberdade,ele esquece a sua dependência.Na ordem física,ele compreende a razão;e o que ele possa fazer, por exemplo,plantar uma árvore,regá-la,etc,no entanto,ele sabe e é conveniente que o saiba,que ele não faz árvores,nem folhas ou flores.Ele vê perfeita e indistintamente a árvore crescer,ganhar e perder folhas,flores e frutos sem que o poder humano faça qualquer diferença sobre o assunto; mas na ordem social onde ele está presente e é agente,ele acredita que é realmente o autor directo de tudo o que é feito por ele: é em certo sentido,a pá que se acha o arquitecto.O homem é inteligente,é livre,é sublime sem qualquer dúvida; mas não deixa de ser um instrumento de Deus.


Joseph de Maistre «Ensaio sobre o princípio gerador das constituições políticas e das outras instituições humanas.»(1809)

O Homem social instrumento de Deus

A natureza do homem é estar unido em grandes sociedades sobre toda a superfície do globo:[...] a natureza de um ser é existir tal como o criador quis que ele existisse.[...] Assim sendo a sociedade não é obra do homem,ms o resultado imediato da vontade do criador que quis que o homem fosse o que hoje é,sempre e em todo o lado.[...] O estado da natureza humana é então ser o que hoje é e o que sempre foi,ou seja,ser sociável:todos os anais do universo estabelecem esta realidade.


Joseph de Maistre «Estudos sobre a soberania».

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A micro e a macro-corrupção

Este post vem a propósito de uma série de artigos de opinião que tenho lido em diversos jornais.
Um deles dizia resumidamente,mais ou menos o seguinte:-Em Portugal existe uma micro-corrupção para que a macro-corrupção possa campear à vontade.
O que é mais do que verdade,diga-se desde já.Empola-se propositadamente a micro-corrupção tentando desviar as atenções dos grandes escândalos da macro-corrupção.E quanto mais escandalosos forem os personagens e os cenários,como é o caso Português,mais a micro-corrupção é apontada,denunciada e mais serve de bode expiatório.
Agora querem discutir na assembleia da "ri"pública novas leis anti-corrupção.Mas essas leis serão para a micro ou para a macro-corrupção?Alguém sabe a resposta?
Cuidado,não se deixem enganar,essa resposta depende de dois factores diferentes,ou seja,depende dos cenários e dos personagens,e também sabemos que os nossos personagens reduziram os cenários à incertitude da lei,aos impedimentos legais e às prescrições temporais.
Pensem bem no triângulo recém-formado aquando deste último escandâlo de corrupção.
Um deles é um excelente cão de fila.Espera e trabalha em prol de um exílio dourado em algum pseudo-organismo humanitário,de resto,tal como alguns camaradas seus de partido.
Outro deles está ali encravado no meio,o gesticulador verbal de serviço,mas que sabe que a manivela só gira para um lado.Quanto ao outro o último,é o salteador de organismos,é o que transporta as influências.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um desafio diferente-Para quebrar o ritmo

Quero aqui propor a todos os interessados um desafio interessante.
Construam a vossa equipa ideal de futebol.Adaptem-lhe um modelo táctico,escolham os jogadores a até os 7 suplentes.As únicas condições são:1-Só podem ser seleccionáveis jogadores que tenhamos visto jogar,em directo quero eu dizer e não de ter visto em reportagens ou registos.Eu no meu caso não vi eusébio,pélé,Beckenbauer e outros tantos.
2-A segunda condição não tem condições,não interessa as nacionalidades nem quaisquer outras referências.

A minha equipa ideal: Modelo 4-3-3(aprox.)-Dassaev; Gerets,Baresi,Ricardo Gomes e Roberto Carlos;Matthaeus,Robson e Platini; Maradona,P.Futre e Van Basten.

Suplentes:Schmeichel(G.R.),Maldini,Jorge Costa,Patrick Vieira,Rijkaard,Lineker,Klinsmann e Rui Costa(são 8 suplentes afinal..)

E quem gostar de ver um grande espectáculo desportivo,não se esqueça de ver o França-Á frica do sul em rugby de preparação,sábado às 19,45 na Sport TV.Parece que é à mesma hora de Portugal-Bósnia,lamento muito mas prefiro o rugby.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Bonald e de Maistre os anti-luzes-III

Pela dualidade das leis e do progresso económico,o modernismo dissolve a família,o primeiro grupo social.Geralmente,o grupo social,que se coloca entre o ser social e o estado,opõe-se ao individualismo igualitário e ao estado revolucionário.A extrema-direita apropriar-se-á destas ideias-tal como o corporativismo de Vichy.Sabe-se que a revolução tinha suprimido todo o corporativismo para abolir tudo o que lhe parecia feudal.A reabilitação contra-revolucionária dos grupos e das ordens restitui uma parte importante da tradição. A contra-revolução defende o corpo intermediário clássico.Para ela,a antiga França feudal e monárquica não é o resultado de uma construcção empírica,uma conquista aleatória: é o resultado através do tempo da verdade. «As famílias unidas num corpo formam uma nação em relação à comunidade de origem, um povo em relação à comunidade territorial,um estado em relação à comunidade das leis.»(Legislação primitiva,1802). O estado é uma grande família,não um ser moral e colectivo do tipo Rousseaunista que recebe por actos associativos,ou pacto social,«a sua unidade,o seu eu comum,a sua vida e a sua vontade.» Inversamente,quanto mais estado houver numa sociedade,pior ela está organizada. O estado torna-se despótico.É a origem do que se chama totalitarismo. As suas leis não são necessárias mas arbitrárias. Só pode estabelecer-se através da força e tende a invadir. A sociedade sacraliza-a e abdica da sua liberdade individual. Para um contra-revolucionário,o estado é apenas um instrumento,não um poder ou uma divindade. Assim sendo,tudo o que sobressai da justiça,das finanças,do exército,do comércio,etc,deve ser retido e publicitado como exemplo a seguir.É um desvio enorme relativamente à nossa mentalidade moderna,símbolo de uma reflexão política que se tornou totalmente estranha,mas que volta a ser actual perante a exasperação de tantos cidadãos contra um estado omnipresente e impotente.
Entendamos bem as diferenças:o ultra-liberalismo-que se radicaliza ainda mais com os libertários-apenas vê as supostas virtudes de um estado que incentiva as liberdades económicas,em que as leis(a mão invisível do mercado?) substituem as leis da natureza contra-revolucionária. A moral do lucro,é o monstro do individualismo que esquecendo a lei divina transforma o ser humano num selvagem. O liberalismo não compensa de nenhuma forma as desigualdades naturais,pois, não classificando as desigualdades pelas funções orgânicas mas sim pelas diferenças de talento,cria uma nova versão do darwinismo social,rebaixando os indivíduos. Chega-se assim à conclusão que o pensamento contra-revolucionário recusa o indivíduo como princípio fundador e como referência absoluta de organização social e política,e das instituições,culpada,segundo o pensamento contra-revolucionário da opressão contra os cidadãos.
Durante os Sécs.XIX e XX,estas análises conheceram uma grande prosperidade,serão recicladas e serão feitas variadas teorizações da sociedade e da política. A corrente mais importante será formada por Charles Maurras(1868-1952),a acção francesa, em que as ideias principais inscrevem-se na continuidade das concepções contra-revolucionárias.Serão radicalizadas e estendidas, criticando o romantismo,exercebação do indivíduo e do eu-o individualismo burguês,a república,essa «mulher sem cabeça.» Exaltando a nação,viram-se contra a república,que era um valor supremo da revolução para passar a ser um engano.
A concepção de Maurras em relação à nação difere grandemente da dos revolucionários;o seu nacionalismo é contra-revolucionário. A nação é um corpo organizado,a soma orgânica é funcional desde que os homens sociais estejam ligados por sentimentos de pertença e partilha mútua,um conjunto complexo e hierarquizado de famílias,de comunidades,de províncias e de corporações.Contra o estado republicano anónimo,desaglutinador,alienante,é preciso celebrar as comunidades naturais, a energia individual ao serviço da comuna e da nação,da unidade dos vivos e da harmonia.Maurras não concebe de forma nenhuma o indivíduo autónomo,livre de obrigações e cheio de direitos.Não quer ele com isto dizer que as características próprias de cada indivíduo devem ser negligenciadas,mas antes que devem ser utilizadas para o bom funcionamento geral do organismo social. Algumas grandes reformas do governo de Vichy tentarão pôr em marcha os ideais Maurrasianos.Mas,de uma foma geral serão classificadas de utopias sem conteúdo real.No entanto,nos discursos,são visíveis as teorias anti-individualistas contra-revolucionárias e uma apologia do homem social enraízado,da família( com a instituição do dia da mãe),da solidariedade nacional,do sentido de comunidade.Desta forma Vichy reforçará a protecção social.
O anti-individualismo parece totalmente contrário à nossa modernidade democrática.
O que resta hoje da direita contra-revolucionária,contesta radicalmente a lei do mercado e da liberalização económica,em nome da integridade da pessoa social,pois ela denuncia a alienação do indivíduo,utilizado como simples mão-de-obra escrava e em consumidor imbecilizado. Uma das primeiras críticas do modelo actual de sociedade do trabalho surgiu da parte de Louis de Bonald em 1796:«As fábricas aprisionam,nas vilas e cidades,uma população imensa de trabalhadores[...],deixados livremente a todos os vícios que habitam a corrupção dos aglomerados,[...],a mínima diminuição de rendimento no seu trabalho,a mínima variação sobre o entusiasmo em relação ao trabalho,deixam-nos entregues à fome e ao desespero esta multitude imprevisível.»(Teoria da educação social). É certo que há algum reaccionismo(recusa de indústria,da vida na cidade,do proletariado desqualificado moralmente),mas com a incontestável acuidade do que Marx chamava de «socialismo feudal»,e um século antes ele descreve a situação,segundo a fórmula de Maurras,«o operário sem louvor,verdadeiro nómada,estacionado num deserto de homens».
Para os contra-revolucionários,o individualismo conduz à alienação.O reino do indivíduo conduz inevitavelmente à escuridão.Para salvar o homem,é preciso combater toda a filosofia e todo o sistema político fundado sobre o individualismo.


Tradução feita da revista le nouvel observateur-Hors-série(décembre 2007)

sábado, 7 de novembro de 2009

Bonald e de Maistre os anti-luzes-II

Os contra-revolucionários põem fundamentalmente em causa a noção de indivíduo,tal como o definiram os iluministas,especialmente Jean Jacques Rousseau.Segundo os iluministas,o indivíduo,depositário dos valores morais,pode revoltar-se contra uma sociedade que o aliena;o corpo político legítimo é composto de indivíduos livres e iguais em direitos,formando em conjunto o povo soberano,unidos pelo contrato social,onde cada um se empenha em respeitar a lei.O indivíduo torna-se cidadão e virtude cívica,e o laço social entre os indivíduos reside sobre os interesses de cada um e sobre a dedicação à comunidade,à pátria,ou seja ao bem comum.
Para Edmund Burke,o património cultural e os costumes são domínios naturais da existência social,assegurando estabilidade e prosperidade.O ser humano define-se pelos seus deveres para com a sociedade,e não pelos direitos do homem opostos à ordem tradicional:«o constrangimento é,tal como a liberdade,uma faca de dois gumes.»
Joseph de Maistre,afirma que «estamos todos unidos ao trono do ser supremo,por uma corrente flexível,que nos retém sem nos subjugar.» Contesta a noção do Homem abstracto,pura construcção especulativa sem realidade objectiva e histórica:«de modo nenhum existe esse tipo de Homem no mundo.»
Louis de Bonald,o mais rigoroso e o mais sistemático destes pensadores,derruba a posição de Rousseau.Trata-se de definir o Homem como Homem social.«o Homem é a sociedade abreviada,a sociedade é um grande Homem»(Teoria do poder político e religioso,1796).
O homem define-se antes de tudo pelas relações de poder que determinam toda a sua existência,e não somente por qualquer contrato social.A sociedade é orgânica,os seus componentes estão ligados e hierarquizados como os componentes de um organismo vivo.Nasce assim uma teoria social e política organicista:o funcionamento do corpo social é análogo ao do corpo humano.Do mesmo modo,tal é a hierarquia,a mesma estrutura trinitária que organiza toda a criação:«toda a sociedade é composta de três pessoas distintas,sejam pessoas sociais.poder,ministros,sujeitos que recebem diferentes nomes dos diversos estados da sociedade:«pai,mãe,filhos na sociedade doméstica,Deus,padres,fieís na sociedade religiosa,Reis ou chefes supremos,nobres ou funcionários públicos e povo na sociedade política»(Ensaio analítico sobre as leis naturais da ordem social,1800).
O racionalismo e o individualismo do iluminismo cresceram juntos:conduzindo à subversão.Para nos conhecermos,temos de prestar atenção aos que nos rodeiam:«o conhecimento de nós próprios não é mais do que o conhecimento das relações com os nossos semelhantes e dos nossos deveres para com eles.»O Homem está ancorado num habitat natural e na história.A filosofia contra-revolucionária conduz à visão de um Homem concreto,social,enraízado,herdeiro,e não é um indivíduo abstracto e novo dos iluministas.«O género humano começou pela família»(Demonstração filosófica do princípio constituinte da sociedade,1830):Segundo Bonald e todo o pensamento contra-revolucionário,a sociedade encontra as suas origens numa micro-sociedade que repousa na desigualdade orgânica,e a constituição social nada mais é do que esta biologia social que se desenvolve,se complexifica,mas permanece fiel aos seus princípios fundamentais.Estamos em pleno organicismo.A família é fundada sobre a propriedade,motor da actividade humana.O complexo propriedade-família forneceu à direita do Séc.XIX uma base ideológica fecunda.A família dos contra-revolucionários é agrícola.A propriedade é a terra.Aqui está a origem de um divórcio ideológico entre os contra-revolucionários e a economia moderna.(continua)



Tradução feita da revista Le Nouvel observateur-Hors-série(décembre 2007)