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terça-feira, 3 de março de 2015

A perversão do sistema liberal segundo Luz Soriano

«As côrtes. como já dissemos, são sempre filhas do suborno e capricho do poder, do qual mais se devem considerar como delegadas, do que representação da nação. Sendo a camara dos pares, ou hereditária, da inteira nomeação do governo, sem intervenção directa, nem indirecta da nação, não póde haver duvida que ella só representa o poder. Vejamos agora o que sucede, quanto á constituição da camara dos deputados, ou camara electiva. Como da maioria das côrtes depende a conservação dos ministros no poder, e a preponderancia dos differentes partidos politicos nos destinos do paiz, são as eleições parlamentares a primeira origem da perversão do systema liberal, olhando-as uns e outros como o mais grave e transcendente negocio do estado, e portanto o unico a que todos consagram os seus incessantes cuidados, e a sua mais particular attenção. Para se obter um triumpho eleitoral todos os meios são lícitos e decentes, por mais indecorosos e immoraes que sejam, não duvidando recorrer a elles, tanto os ministros, como os differentes candidatos a uma cadeira parlamentar. Promessas de empregos, de condecorações e dinheiro, intimas allianças de corruptos e corruptores, protecção aos immoraes e facinoras por toda da autoridade, intervenção activa dos governadores civis, administradores e recebedores de concelho, regedores de parochia e cabos de policia em todos os actos eleitoraes, violentando escandalosamente os eleitores do seu respectivo districto a lhes aceitarem as listas, por cujo triumpho se empenham, offertas de protecções e bons officios aos que se prestam ás suas inspirações, ameaças de maior ou menor monta aos que lhes resistem, e finalmente baixezas e indignidades de toda a ordem, eis a pintura fiel de uma epoca eleitoral, pintura tanto mais verdadeira, quanto mais animada e concorrida é a votação dos eleitores. Em todas as localidades se estabelecem agentes, e se commissionam delegados sem moral, nem consciencia, e ás vezes mesmo cobertos de crimes, que todos se disfarçam, com tanto que similhantes agentes e delegados tenham coragem para calumniar os adversarios politicos dos patronos a quem servem; que sem nenhum escrupulo promettam, dêem e ameacem em nome de quem os occupa, segundo as circumstancias o pedirem; que deturpem os recenseamentos, que assaltem as igrejas para viciar as urnas, que nellas se depositam, que nas mesmas urnas tirem ou mettam as listas que querem, e finalmente que a todos estes titulos, sempre meritorios em epocas de eleições, reunam o de saber falsificar, ou mesmo de sumir as actas, quando assim fôr necessario.

Desgraçadamente o governo é sempre a alma e a vida da tão indecentes manejos, porque capitaneando uma das facções, que se debatem, e querendo como tal vencer as eleições para a sua conservação no poder, não se peja de entrar em transacções immoraes com homens d´aquella natureza, ou directamente por si, ou pelos seus delegados e pessoas da sua confiança».

Quantos paralelismos e similitudes com a nossa época actual. Este livro, editado em 1860, é um dos vários livros proféticos sobre a perversão liberal e democrata.



Transcrição feita do livro Revelações da Minha Vida de Simão José da Luz Soriano, com a grafia da época.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O nascimento das nações europeias

«A partir do ano 1000, coincidindo com o desenvolvimento da instituição monárquica, nascem as primeiras nações europeias. (...)

A história do feudalismo identifica-se com a das principais linhagens, em torno dos quais se forma a grande família, que é a nação. (...) Na Idade Média, os conceitos de nação e pátria, não tinham o sentido que lhes foi atribuído nos séculos XVIII e XIX mas permanecem vivos na consciência europeia. (...) O território sobre o qual se exerciam as várias autoridades (reino, região, terra, casa, etc.) - era sempre denominado nos documentos da época como: a Pátria, o domínio do pai.
A Pátria - diz Franck Funck Brentano - foi na sua origem o território da família, a terra do pai. A palavra estende-se ao domínio senhorial e a todo o reino, no qual era o pai do povo. O conjunto de territórios do reino passou a ser a Pátria. Quando aparece o símbolo da bandeira - a consciência - de ser uma nação e de ter uma pátria exprime-se na forma política do Estado, representado pelo rei e pela coroa.
 
A coroa, símbolo da soberania, era comparada ao corpus mysticum do reino. Neste estava compreendido todo o corpo político do rei, passando pelos vassalos, pelos lordes e pelos comuns. Embora distintos rei e coroa não podiam ser separados, e muito menos colocados em oposição».
 
 
 
Roberto de Mattei - A Soberania Necessária