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segunda-feira, 10 de junho de 2013

A "opinião pública" segundo Fernando Pessoa


«Entre as várias superstições verbais, de que se alimenta a pseudo-inteligência da nossa época, a mais vulgarmente usada é a da «opinião pública». E, como acontece com todas as superstições que conseguem deveras enraizar-se mas que não conseguem nunca tornar-se lúcidas, este critério instintivo respeitador da opinião pública em palavras (porque sente que há por detrás da frase uma realidade), mas pouco respeitador dela em actos (porque não sabe definitivamente que realidade é essa), é ao mesmo tempo o esteio e o vício das sociedades modernas. É o seu esteio porque é o esteio de todas as sociedades, na sua realidade verdadeira; é o seu vício porque as sociedades modernas têm da opinião pública um conceito absolutamente errado. Esse conceito provém do erro fundamental das teorias democráticas, profundamente anti-populares; e a origem do erro está na mentalidade do século XVIII, onde esse conceito, tal como o temos, se gerou.»

quinta-feira, 30 de maio de 2013

As imperfeições da democracia segundo Pessoa

«O melhor regimen político é aquele que permita com mais segurança e facilidade o jogo livre e natural das forças (construtivas) sociais, e que com mais facilidade permite o acesso ao poder dos homens mais competentes para exercê-lo. É escusado acentuar que esse regimen variará de nação para nação, e, em cada nação, de época para época.
Sucede com o regimen democrático que, tendo, por sua mesma natureza, a primeira vantagem, é, por essa mesma natureza, o pior com respeito à segunda. A sua base liberal, dando azo a que as forças individuais se expandam sem constrangimento, garante a plena valorização destas forças, quanto nelas caiba. Mas o basear o seu sistema de governo num apelo a maiorias, forçosamente ignorantes e incultas - ou absolutamente, ou pelo menos, em relação ao resto do país - faz com que o acesso ao poder seja quase limitado a homens dotados para dominar ou sugestionar as maiorias, e as qualidades exigidas para esse fim não são as mesmas - são até por vezes contrárias - às que são exigidas para o governo de uma nação. Se a transmissão de poderes da maioria para o governo tivesse nos dominadores e sugestionadores das maiorias, não o seu termo, mas um ponto intermédio - isto é, se os eleitos do povo fossem, não seus governantes, mas apenas os que escolheriam os governantes, eleitos não para governar mas para escolher - então se poderia admitir uma certa facilidade de acesso ao poder de homens realmente competentes para exercê-lo. (...)
 
A república aristocrática é o sistema mais perfeito, porque é o mais estável. A monarquia absoluta depende de um homem; a república aristocrática é já uma instituição. Todos os outros sistemas de governo são maus. A chamada «democracia» é apenas uma oligarquia complexa, ou uma complexidade de oligarquias. A monarquia constitucional é má porque é a média entre o que morreu e o que não pode existir.»
 
In Teoria do Estado Moderno de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O patriotismo segundo Pessoa

«A vida de uma sociedade é, fundamentalmente, uma vida de acção. As relações dos indivíduos adentro dela são, fundamentalmente, relações entre as actividades, entre as acções deles. As relações desta sociedade com outras sociedades - sejam essas relações de que espécie forem - são relações de qualquer espécie de actividade, são relações de acção. É, portanto, pela acção que o indivíduo é social. É, portanto, pelas faculdades que conduzem à acção que o indivíduo é directamente social. Ora, como a ciência constata que são os instintos, os hábitos, os sentimentos - tudo quanto em nós constitui o inconsciente ou o subconsciente - , que levam à acção, segue que é pelos seus instintos, pelos seus hábitos, pelos seus sentimentos, e não pela sua inteligência, que o indivíduo é directamente social. (...) A constatação de semelhança profunda e extensível a um grande número de indivíduos assenta, portanto, na constatação, entre esses indivíduos, da semelhança entre eles naquelas sua acções que mais demonstram uma semelhança ou dissemelhança profunda entre os indivíduos, e naquelas suas acções que maior semelhança ou dissemelhança estabelecem entre o maior númeor possível de indivíduos. (...) E as acções que estabelecem uma semelhança ou dissemelhança entre o amior númeor possível de indivíduos são aquelas que, por mais naturais, mais gerais, mais repetidas, são por isso comuns a um grande número de indivíduos, sendo, através delas, constatada fácil - imediata - e constantemente a semelhança ou dissemelhança entre os indivíduos. Segue, portanto, que a acção que mais implica a semelhança ou dissemelhança entre vários indivíduos é aquela que, sendo a mais natural, a mais geral e a mais repetida, seja, ao mesmo tempo, a que represente o que em cada indivíduo haja de mais profundo. (...)

Ora a acção mais natural, geral e constante, que se dá na sociedade, é a acção de falar. A mais simples de todas as acções sociais é a de falar com outra pessoa; sendo, porém, a mais simples é a que imediatamente nos põe em contacto com o que nessa pessoa há de mais profundo e íntimo. Mas falar  não é possível, no sentido de conversar, senão quando os interlocutores se entendam. Falar, portanto, no sentido social, pressupõe falar a mesma língua. Falar a mesma língua pode envolver, evidentemente, aquele elemento de hereditariedade, que marcámos como necessário neste problema: é quando a língua que os interlocutores falem seja a língua herdada e materna de todos eles.
Encontrámos, portanto, a acção social que estabelece entre vários indivíduos a relação imediata de semelhança extensa e profunda: é o falarem a mesma língua materna. E é com isso que queda revelado qual é o instinto social fundamental: é o instinto chamado patriotismo.


In "Fernando Pessoa o antidemocrata pagão" - Ruy Miguel