quarta-feira, 24 de junho de 2015

Democracia, vira casacas e credo liberal-maçónico

«O que mais será de admirar-se é o servir de corochéu da edificação da nova cidade o modo de compreender a fé nos princípios e a dignidade ou a inteireza e fidelidade no credo partidário.
Sólidas nos poucos que se mantiveram legitimistas, sucessores dos corcundas, firmes na devoção à realeza de D. Miguel, vanguejaram nos sucessores dos malhados para as dobrezas, versatilidades e inconstâncias, para aquele espírito voltívolo representado no friso de «as 52 caras políticas de Saldanha».
Redunda disso assaz dificultoso, quase inescrutável, o apanhando, a descrição e a explicação da contradança em que os homens volteavam da cá para lá, de aquém para além em confusão babélica.

(...) em nossos dias um saliente republicano, desntabulou-a ao defender o mudadiço na política, preconizando a versatilidade de tão natural como nos próprios fenómenos geológicos. «que até os penedos mudam de lugar». Provieram dessas concepções situações antinómicas, paradoxais, surpreendentes.
Não há estranhamento, por conseguinte, com as mutações, por mais recentes e afloradas após a chegada da República.
(...)

Ninguém se emburrará perante os contrastes de aquele Dr. Afonso Costa, jurista, autoritário, o homem do gato dos nove rabos, o Robespierrot no humorismo do jornal O Dia chefiar a esquerda do regime, ou de o Dr. António José de Almeida, estruturalmente democrata, brilhante tribuno popular, político de boa fé e ingénuo a quem Homem Cristo, Pai, chamava o St. Just português, colocar-se à direita, ou ainda de o citado Dr. Camacho, «O Marat sem banheira, o cabrito macho de O Povo de Aveiro», um intelectual e confesso livre pensador, tomar lugar no centro e entreter a conspícua tertúlia dos seus afeiçoados.

Também aos menos versados na história do Liberalismo e ignorantes das defecções no realismo e verdadeiro êxodo do campo legitimista parecerá coisa nunca vista a avalanche de chegadiços republicanos, dos adesivos (daquele Brito Camacho) engrossando a cohorte da República, principalmente saídos da direita da monarquia, representada pelo partido Regenerador.

Em Trás-os-Montes a passagem dos Regeneradores foi quase em massa, e - espantosa é a contradição - a grande maioria dos Progressistas, dos da esquerda ficaram a esperar pelo regresso da constitucional Monarquia acéfala, embora do seio do partido saíssem os primeiros republicanos.
(...)


Seus apóstolos e guias, a alguns dos quais Garrett mimoseou com o humilhante chamadoiro de «calças de coiro», enfarados do cheiro da plebe afastaram-se do povo para entrarem de ocupar os lugares dos privilegiados banidos, usurpando-lhes as posições, macaqueando a presença, ademanes e costumes aristocráticos, e aparentando o viver da elegância moral, distinção natural e atributos daqueles que nasciam à parte. Bem confirmavam o dito de António Sardinha que a mão leva cem anos a aristocratizar; e uma vez aristocratizada já não são precisos pergaminhos, mesmo respançados ou de nova indústria química, valorizam e afidalgam os de papel do Prado.

Em contra-prova alguns homens deixaram públicas demonstrações de inteireza e coerência democráticas. Alexandre Herculano tomou como padrinhos do seu casamento o sacristão da igreja em que casou e um mendigo que o acaso lá levou, e , nos tempos mais recentes, o Dr. Teófilo Braga, se bem que haja, cá e lá fora, quem o coloque a grande distância de Herculano, sobraçando repolhudo guarda-sol, de fraque de gato pingado e sentado no carro do Chora, entre hortaliçeiras e varinas, assim se encaminhava para o palácio da presidência do governo provisório da República.


Transcrição feita do livro Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos de Francisco Malheiro.


Democracia, igualdade e sufrágio universal

«No dia em que o marechal de campo José António de Azevedo Lemos negociou a rendição em Évora Monte e D. Miguel I, num assomo de dignidade real, se despoja do único objecto da Coroa em seu poder, nessa solene e emocionante conjuntura se pôs ponto à guerra civil.
Dissipavam-se de vez as nuvens que encobriam o sol da Liberdade, desde então raiando esplendoroso e caricioso. 
(...) A democracia, sorria, atraente, prometedora. Mas, em pouco tempo, um dos grandes valores da ordem nova, que andou mancomunado com o brigadeiro Lanes na vesga política diplomática desse ministro plenipotenciário de Napoleão, se emiscuira na torva aspiração da Ibéria, que em 1810 servira como alferes agregado de infantaria 16, e cujas artes de santilão o fizeram beijar o conde de Tomar na casa do parlamento, enfim, a «raposa» Rodrigo da Fonseca Magalhães.

Consistia em postulado da vida política-eleitoral, em regra do processus na governação, ou, melhor, em síntese consubstanciando a ética do sistema, na qual se escancara a máscara da corrupção: «Os deputados são como os prédios; são mais baratos comprados feitos.»

Então, homens de boa fé e sinceros, grande parte eminentes nas ciências, nas artes e nas armas, seguem a doutrina, cedem, adaptam-se ou acomodam-se ao meio ambiente em que a Nação se debatia sob a égide do voto, colocado de chapitel nas construtoras da Liberal-Democracia.
(...) 

Porém, - é rudimentar - como a essência da eleição não está em fazer-se por muitos, mas na escolha de um entre muitos, o seu conceito foi-se graduando e evolucionando como decorrer do tempo. Não significando inicialmente senão a demonstração pública dos merecimentos dos propostos, chegou a reconhecer-se não constituir título hábil para produzir efeitos, por decorrentes de assembleias ignorantes, sáfias e indiscretas. Daí, o fazer-se a eleição indirectamente ou por representação dos mais competentes e responsáveis.

Degenerado o processo, os abusos dos colégios que representam o povo, uma vez em pé os ditames da Revolução, fizeram regressar a eleição à primitiva forma, mas com astúcias, habilidades, abstracções e mistificações, à descrição da massa comum, incaracterística e irresponsável, e com a rúbrica sonorosa de Sufrágio Universal.
Imperou a igualdade substituindo a qualidade. 

Reinou aquela igualdade metafísica que o erudito monge bernardo, bispo de Évora e director do contra-mina Frei Fortunato de S. Boaventura viu «caminho breve, e compendioso para fazer grandes, os que estalavão por isso, e não lhe sentirão outro geito, senão o de chamarem Grande e Soberano, a quem nunca o poderia ser, para esbulharem destes atributos, quem o era e devia ser.»

A igualdade que coroou o Povo Soberano, personagem mítica classificada pelo abade de Lustrosa e académico Joaquim de Santo Agostinho de Brito França Galvão de: «... noção monstruosa e contraditória, como v.g. lupus-homo, Deus-creatura, sempiterno-natural, curva-recta, sim-não.»

Em suma, um manipanço quimérico que o assombroso polemista José Agostinho de Macedo, o panfletário Padre Lagosta lobrigou e tentou desfazer, ao perguntar: «O povo impera e he soberano; o mesmo povo obedece e he vassalo. E de quem he o povo vassalo, quando não he soberano? Temos a comédia, he o amo, e he o vassalo deste mesmo amo.»

E a soberania do povo vinha-lhe do voto.
Com sua nova feição estruturalmente individualista, se queria significar a expressão dos mais sagrados direitos do cidadão e da sua elevada função social, como tal ficou na teoria, pois, a pouco trecho, figura-se objecto da mais industriosa actividade, de morbo das variadas modalidades da corrupção, contaminada a todos os sectores da vida nacional, e de legal e expurgativa explicação de todas as ambições, por mais mesquinhas, de opressões e violências, vinganças e iniquidades, senão, aqui e ali, de ignomínias e de crimes.


Transcrição feita do livro Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos de Francisco Malheiro.