sexta-feira, 5 de junho de 2015

Títulos nobiliárquicos a pedido

«Doidejavam os homens até à caricata incongruência de avocarem para si aquilo que no passado recente era tido com fátuo. Malbarataram-se não só os antenomes que da V. Mercê, como curto trânsito pela Senhoria, galgaram abruptamente para a Excelência, como também os títulos nobiliárquicos, as grã-cruzes, as comendas e as cartas de concelho com tal sobejidão que nos quatro primeiros reinados fizeram-se perto de um milheiro de titulares, e no Distrito de Viana do Castelo sé em um dia de 1867 foram dadas quatro comendas da Conceição.
Não é pois de magoar-se passados dez anos uns ingleses (conta-o Júlio Dantas) rirem de verem em Lisboa a cruz de Cristo ao pescoço de um lacaio, dum mulato, dum mestre de bilhar e de um músico.

Com perverso sarcasmo observava a tal respeito nesse ano de 67 o Diário Popular: «Para ser barão, além de luvas, sege, etc., etc. é necessário pagar 50 mil reis de direitos de mercê; um visconde faz-se com 75 mil reis; um dito com grandeza com 90 mil reis; um conde com 100 mil reis; um marquês com 150 mil reis;um duque com 200 mil reis.»
«A carta de concelho é barata custa apenas 10 libras; o tratamento de excelência vale mais, sem 50 mil reis ninguém o apanha; o de senhoria já é mais em conta, custa só 30 mil reis; para fidalgo cavaleiro ou moço fidalgo em exercício, gastam-se só 30 mil reis; o fidalgo escudeiro, o moço fidalgo (sem a confeição do exercício) dispende apenas 25 mil reis; o fidalgo cavaleiro ou escudeiro fidalgo paga 15 mil reis. É barato.»

Uma Grã-Cruz custa 60 mil reis, uma comenda 40 mil reis, o grau de oficial de qualquer ordem 30 mil reis e o de cavaleiro 25 mil reis.

Parecem-nos caras estas fazendas de avaria. A licença para aceitar condecorações estrangeiras, custa uma tuta e meia, 10 mil reis.»


In Aspectos Da Nossa Guerra Dos Cem Anos de Francisco Malheiro (1958).