terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os depravados da Política II

«Aos seus 17 anos no jornal O Vianense subscreveu um artigo focando estrondosas questiúnculas políticas e visando particularmente pessoa inteligente e culta à qual seus predicados e elevada positura colocaram no primeiro plano social de Ponte de Lima.
Assediou D. Santiago Garcia de Mendoza, o aventureiro que deu na vista a Camilo Castelo Branco, vindo de Pontevedra para em Braga ser estimado como general carlista e casar rico em Guimarães com uma filha do visconde de Azenha, senhora de vastas propriedades herdadas pela mãe do tio João Malheiro Pereira de Castro e Lyra, o fidalgo de Crasto, da casa dos Malteses. Salientando-se na política, tanto na miguelista como na constitucional, dissipador e frascário acabou cônsul de Portugal em Marselha.
Fora crudamente alvejado. Primeiro, atribuido-lhe ingerência na prisão de um Manuel Álvares Romero cuja extradição exigia o governo espanhol e que foi capturado em 5 de Abril de 1850 e justiçado passados dois meses. Segundo, lembrando-lhe a deserção do legitimismo, com arrepanhia dos fundos do partido de Viana, qual um eleche da ideologia, vendendo-se ao duque de Saldanha par viver em sossego no país. 
Respondeu-lhe o D. Santiago. E como mais tarde fez correr a jorros sua jocosidade num outro periódico o Braz Tisana, do Porto, foi chamado aos tribunais tendo por defensor o jurisconsulto Custódio José Vieira e por acusador o já notável José Luciano de Castro.
Destas peripécias da mocidade valeram-se os contrários para lhe chamarem «moço estouvado» e «difamador e calumniador confesso».
E tanto mal lhe queriam que, apesar de a geral veneração pelo pai, general Sá Coutinho, a aleivosia de uns oficiais da administração do concelho meteu-lhe na algibeira, imperceptivelmente, um pistolão, e com esse pretexto entrou na cadeia. A velha prisão de D. Manuel I transformou-se em salão de baile para, em homenagem ao improvisado delinquente e em protesto humoroso mas veemente, a primeira sociedade da terra bailar, folgar e rir até alta madrugada.

Foram estes passos da mexida adolescência de José de Sá os motivos do foguetear de remoques e das investidas com que os amigos de Rocha Peixoto miravam debreá-lo no afinco de impedir o desemperro, a coragem e a firmeza com que se houve em Ponte de barca, que, logo a três meses de abandonar a administração do concelho, o apresenta como seu candidato a deputado.
Substituído no lugar por Rocha Peixoto, encontram-se nas eleições de 1865 seguidas à dissolução das câmaras pelo conde d´ Ávila. 

Travou-se pugna endentada e ominosa em que as mesmas personagens de há vinte anos antes fizeram reviver as violências e despotismo desse tempo, a coberto da força armada, reforçada por malta de caceteiros, servindo de guarda de honra às urnas.

Pagaram-se votos a 500, 1000 e 1550 reis, aboletaram-se os soldados só na casa dos contrários, e na freguesia da Lavradas foi rezada missa às duas horas da madrugada para prenderem-se os eleitores e levarem-se a votar arrebanhados.

Rocha Peixoto propõe-se prender um influente oposicionista a título de culpado criminalmente, e atormenta e aterra o eleitorado lançando bando de que os que viessem à vila pagariam certo imposto. O povo, encalmado e indignado, mexe-se para o motim, mas José de Sá intervém tomando a palavra na praça pública para invectivar rudemente a táctica do chefe local dos governamentais, animando e encorajando os da oposição, e assim distrair a gambérria do ânimo popular.

Nesse dia tomou pé o Sá Coutinho; e o outro, refeito do embate, apercebeu-se de ter pela frente um adversário de respeito, sobretudo ao seu amigo conde d´Ávila deixar o lugar a Aguiar, ao Mata-frades, e esse moço ser reconduzido na administração do concelho. 
Rocha Peixoto assistiu ao delirar da vila aos sons estridentes da filarmónica, dos repiques nas sineiras e das girândolas de foguetes, até alta madrugada; enfarou-se do cheiro acre e enojoso das fumigações da farrapada de um boneco figurando o conde d´Ávila, e derrancou-se com o arraial de flores e regosijosas exclamações à chegada da nova autoridade.


Quadram-se os dois contendores. A briga é severa, seu conspecto é de rigor quando José de Sá prende e faz julgar e condenar o Dr. Francisco António da Fonseca e Brito, persona grata de Rocha Peixoto, a quem os adversários acusavam de violências e desmandos «Inqualificáveis» no exercício do cargo de administrador do concelho substituto».  

Continua


In Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos - Francisco Malheiro, páginas 76, 77, 78 e 79 tomo III