terça-feira, 24 de junho de 2014

Quando a política se substitui à economia - o falhanço da moeda euro

A inversão dos valores liga-se muito naturalmente a processos desconstructivos; o Euro foi acima de tudo um projecto político (Crise, Estado e Segurança - Edições MGI, pág.71) cujos dois principais mentores [a Alemanha e a França], pretendiam assim firmar uma paz duradoura entre os dois países. As guerras entre estes dois países entre inícios do século XIX e o final da 2ª Guerra Mundial, criaram um sentimento mútuo de desconfiança entre as duas nações. E só com um pacto económico-financeiro as relações entre estes dois países poderiam ser normalizadas.

Isto foi o que Miterrand e Kohl pensaram e intuíram na altura, mas segundo estudos recentes, essa posição apenas reflecte aspectos políticos e quase nenhuns aspectos verdadeiramente económicos. Na página 72 do livro acima citado pode ler-se o que segue: «Partilhamos integralmente da opinião de autores como De Grauwe (2013) ou Hall (2012), entre outros, quando referem que na base da construção monetária europeia estão, fundamentalmente, factores de ordem política. A União Económica Monetária (UEM) foi construída a partir da necessidade de conjugar os interesses dos dois principais actores, França e Alemanha, que, embora por motivos diferentes, encontraram algum consenso que permitiu avançar para um empreendimento de magnitude tão vasta e consequências tão imprevisíveis (Verdun, 2012)».

Se a construção do Euro se baseou apenas em pressupostos políticos, podemos então afirmar que os acontecimentos já tinham sido discernidos muito antes de os mesmos tomarem forma, ou seja, com o fim da beligerância franco-alemã, estabelecia-se uma união monetária que não tinha em conta as diferentes especificidades e/ou realidades das economias de cada país aderente ao Euro. E tudo isto se revelou um logro; vivemos hoje uma crise que em parte se esboçou na inobservância do aspecto económico de uma união monetária desta dimensão. É lapidar o trecho que se encontra na pág.79 do já referido livro: «Mais de dez anos depois de ter sido adoptada uma moeda única, a Europa continua a não ser uma zona monetária óptima, tendo a integração monetária até exacerbado as diferenças entre os países. Como refere Hall (2012), a falência dos países do sul é o reverso da moeda da prosperidade germânica».

Esta "aparente" incoerência de a integração monetária ter provocado um aumento das diferenças económicas entre os países do Sul e os do Norte, só é aparente aos mais distraídos, se levarmos em linha de conta que só a Alemanha saiu reforçada com o enfraquecimento dos países do sul. E tendo sido a Alemanha um dos principais mentores do projecto Euro, e sabendo-se das políticas deflacionistas dos governos alemães do pós-2ª Guerra, não é de admirar que apenas o sector industrial alemão tenha sido favorecido em todo este processo. Era aliás, conhecendo-se os dados inicias, mais do que previsível.