terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Restauração da Independência de Portugal - ano 374 - continuação

«Emquanto os fidalgos corriam dos aposentos do secretario aos da vice-rainha, para onde já se haviam encaminhado D. Miguel d´Almeida e outros, emquanto o verdadeiro povo, soltando gritos d´enthusiasmo acompanhava D. João da Costa, D. Luiz d´Almada, D. Rodrigo e D. Antonio de Menezes que atravessaram o terreiro bradando «Liberdade», a canalha que mancha sempre todos os triumphos, que insulta todos os vencidos, que arrasta na lama hoje os que a opprimem, àmanhã os que a libertam, essa enxameava emtorno de Vasconcellos, arrancando-lhe a barba e os olhos, arrastando-o por sobre as pedras, e rindo torpemente das truanices infames com que um mouro, que fôra escravo da victima, sentado em cima do seu cadaver, escarnecia e vilipendiava quem o azorragára em vida, Teriboulet sem alma d´esse potentado criminoso e infeliz! 
(...)
Emquanto um troço dos fidalgos se dirigira oas aopsentos do secretario, ia outro aos da duqueza de Mantua. O conde Bayneto, estribeiro-mór da vice-rainha, morava no andar superior. Para o impedirem de descer, para isolarem completamente a duqueza dos seus conselheiros habituaes, foram alguns dos conjurados guardar a ante-camara dos quartos da princesa D. Margarida, emquanto D. Antão d´Almada occupava a sala de cima e a varanda. A duqueza já sentira os rumores da revolução, e, com mais intrepidez do que se poderia esperar d´uma senhora, a brira as janellas da sala das galés, e bradava ao povo, agglomerado: «Que é isto, Portuguezes? Onde está a vossa lealdade?» Neste momento invadiram-lhe a sala D. Miguel d´Almeida, Fernão Telles de Menezes, D. João da Costa e outros, e, sem se affastarem nem um instante das leis da cortezia, obrigaram-n´a a recolher-se. Conservando toda a sua serenidade, apezar de já saber da morte do secretario d´estado, fallou com altivez aos fidalgos, ordenando-lhes que se aquietassem, dizendo-lhes que percebia que os excessos de Vasconcellos tivessem irritado a nobreza, mas que amorte d´elle devia ter satisfeito a sua colera, que ella se obrigava a obter de Philippe IV o perdão para esse explosão illegal d´uma vingança aliás justa. Ouviram-n´a com respeito, mas, quando o arcebispo de Braga, que se viera juntar à duqueza, julgou que podia tambem com impunidade fazer a sua monitoria, mandaram-n´o calar asperamente, lembrando-lhe D. Miguel d´Almeida que lhe custára muito o livral-o de sorte igual à do secretario, mas que não abusasse da clemencia dos conjurados. Pallido de susto, D. Sebastião de Mattos retirou-se, e a duqueza, tomando como respeito pela sua autoridade era apenas deferencia pela sua qualidade de senhora, continuou a invocar o nome de Philippe IV. Responderam-lhe que  rei de Portugal era o duque de Bragança. Encolerisada, a duqueza correu à janella, querendo fallar ao povo; então D. Carlos de Noronha, mancebo impaciente e assomado, pôz termo a esta scena que ameaçava prolongar-se, dizendo-lhe que os não obrigasse a perderem-lhe o respeito. 
- A mim, como? perguntou a duqueza - Obrigando vossa alteza, se não quizer entrar por esta porta, a sair por aquella janella.
O dito era descortez, mas indispensável; tornava-se necessario que a duqueza não continuasse a alimentar vãs illusões, suppondo intacta a sua autoridade, quando apenas a respeitavam como uma senhora d´elevada gerarchia.
O effeito da resposta foi ainda mais prompto do que se devia imaginar. Caindo em si e deveras atemorisada, a duqueza de Mantua emmudeceu e retirou-se logo para o seu oratorio, guardando-lhe a porta D. Antão d´Almada com outros fidalgos. D´esse momento em diante a fraqueza feminil retomou os seus direitos, e a duqueza obedeceu em tudo aos conjurados. Estava consumada a revolução no paço; era necessario completal-a tambem nas ruas.
Encerrada até ahi no palacio e no Terreiro, não tivera ainda no resto da cidade echos bastante triumphaes para que se decidissem a acolhel-a os burguezes timidos e desconfiados. Era preciso tambem impedir que os hespanhoes, recobrando-se do assombro, se reunissem e pozessem em perigo a victoria dos nossos. Um grande troço de fidalgos atravessou o Terreiro do Paço soltando brados de triumpho, seguio-os o povo, e por toda a parte, por onde passavam, abraim-se as janellas onde até ahi assomavam apenas por traz dos vidros as cabeças curiosas, descerravam-se as portas, e saiam os moradores acclamando alegremente a liberdade portugueza e engrossando o cortejo, que, dividindo-se em bandos, corriam uns ás praças para onde affluia o povo, outros ao tribunal da suplicação, outros ao palacio do arcebispo, saudados das janellas pelas senhoras que derramavam lagrimas de jubiloso enthusiasmo.
D. Rodrigo da Cunha, apenas soubera que rebentára a revolução, convocâra todo o cabido e fôra ajoelhar na capella-mór da Sé, rogando a Deus pelo triumpho da causa da liberdade.De subito sente o rumor dos vivas, abrem-se as portas da cathedral e entram ondas de povo, a cuja frente vem alguns fidalgos trazer a noticia ao arcebispo. Logo elle se ergueu com os olhos arrazados de lagrimas, e, seguido pelos conegos e um grande numero de padres, sahiu para se dirigir processionalmente ao senado de Lisboa.
O tumulto do povo era já indescriptível, nas escadas da cathedral, o bellicoso padre Nicoláu da Maia, ainda exaltado pelo calor da sua luta com a guarda castelhana, tendon´uma das mãos o crucifixo e na outra a adaga, orava ao povo mais como tribuno militar do que como sacerdote: o seudiscuros era acolhido com enthusiasmo, não pôde porém continual-o, porque o referver da população, ebria de alegria, nas escadas da Sé era tal que nem elle podia ser ouvido, nem sequer manter-se firme no meio d´essa mó de gente.
Entretanto nos paços do senado já alguns fidalgos instavam com o presidente o conde de Cantanhede, para que adherisse à revolução, e elle hesitava ainda juntamente com os vereadores, que perdiam a cabeça com o tumulto popular, quando os filhos do conde , que entravam no número dos quarenta, o resolveram emfim. Logo D. Alvaro de Abranches empunhou a bandeira da cidade, desenrolou-a, e veio ao encontro da procissão, dirigida pelo arcebispo. «Milagre, ,milagre!» bradava o povo com inexcedivel enthusiasmo. (...) Desde esse momento pôde-se considerar como certa a victória da causa portugueza. Ainda que os hespanhoes tentassem tomar uma atitude offensiva, encontrariam a cidade toda, em pé e armada, para lhes repelir o ataque.»
Na casa da supplicação é que ninguém suspeitava o que se passára. Os desembargadores estavam reunidos, debaixo da presidência do regedor o bispo da Guarda D. Diniz de Mello e Castro. O chanceller e o guarda-mór eram o Dr. Lourenço Coelho e Jeronymo Pinheiro. Passava esse corpo de magistratura por affeiçoado ao dominio hespanhol e nenhum dos seus membros estava por conseguinte no segredo da conspiração. Sentiram elles o rumor da revolta, sem lhe perceberem a causa. Logo os informou Ayres de Saldanha, ordenando-lhes que aderissem ao movimento. Hesitaram, mas a torva figura do fidalgo, as suas maneiras asperas, lembrando-lhe que tudo tinham a temer, pois que effectivamente só a intercessão de D. Miguel d´Almeidae de D. João da Costa os havia salvo da morte a que os devotaram a maior parte dos fidalgos nos conciliabulos de Novembro, obrigaram-nos a acceder promptamente, lavrando um auto, que, para assim dizermos, legalisava a insurreição.» (...) 
A revolução estalou tão prompta e venceu tão repentina que os funccionarios entrados n´aquelle dia nas repartições para funccionarem em nome de Philippe IV, continuaram a despachar em nome de D. João IV.»


In História de Portugal - tomo III págs. 293 e 294 de F. Diniz

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