terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Restauração da Independência de Portugal - ano 374

Esta peça deveria ter sido escrita ontem, dia 1, mas propositadamente deixo-a para hoje como se de certa forma, servisse de alerta aos mais distraídos deste país. O 1º de Dezembro tem de ser comemorado, ensinado constantemente às pessoas, sobretudo aos mais jovens, que sabem muito pouco de história e, pior ainda, muito longe de compreenderem a importância de tal data, onde foram cometidos actos de grande bravura, em nome de Portugal e dos portugueses. Só aqueles que não têm respeito pela história e pelo país poderiam ter decidido acabar com o feriado da restauração da independência.



«Era Vice-Rainha a duqueza de Mantua, secretario d´estado Miguel de vasconcellos, presidente do desembargo do Paço o arcebispo de Braga, D. Sebastião de Mattos Noronha, presidente da mesa da consciencia e ordens o conde da Castanheira. Eram membros do conselho d´estado o arcebispo e o conde que citámos agora, e os condes de Santa-Cruz, Miranda, e Linhares, o marquez de Villa-Real, e D. Francisco de Mascarenhas.»
(...)

«Rompeu, sereno e límpido, o dia 1 de dezembro. Não tinha nuvens a aurora da liberdade portuguesa. Quem poderá adivinhar os pensamentos que salteiavam o espírito dos conjurados ao erguerem-se, n´essa fria madrugada d´inverno, para emprehenderem um tão incerto feito? Sabemos contudo que, se muitos se preparavam com sombria resignação para se irem immolar, victimas heroicas, no altar da liberdade da patria, outros havia que a grandesa da acção enthusiasmára de novo, e que cingiam a espada, cheios de temeraria confiança. Impeto febril, fria resolução, ou verdadeiro ardor, é certo que nenhum trepidou. mais alto do que todos os outros sentimentos fallava no coração o amor da patria opprimida, e o desejo de se resgatarem. Se a essa idéa do dever cedêra o proprio amor maternal!»
(...)

«Pouco antes das nove horas estavam reunidos no Terreiro do Paço todos os conjurados. A apparencia pacifica dos coches, que iam chegando ao terreiro, não assustava os soldados da guarda, costumados n´esses tempos mais madrugadores do que os nossos a Vêrem apparecer junto do palacio os cortezãos da duqueza. (...) Com a mao no fecho das portinholas esperavam os fidalgos impacientes o bater da hora solemne. Dão nove horas. Abrem-se a um tempo os coches, e os fidalgos descem, e emquanto Jorge de Mello, Estévão da Cunha, Antonio de Mello e Castro, o padre Nicoláu da Maia e outros esperam, ainda dentro das carruagens, que venha o signal do palacio para assaltarem a guarda castelhana, o grosso dos conjurados sobem rapidamente a sescadas, entram na sala dos archeiros tudescos, e, sem lhe darem tempo nem sequer a suspeitarem o que ia succeder, Affonso de Menezes, Gaspar de Brito Freire e Marco Antonio d´Azevedo, deitam ao chao os cabides das alabardas, outros desembainhando as espadas affugentam os archeiros attonitos e darmados. Alguns d´estes, ou pro não terem as alabardas nos cabides, ou por serem mais resolutos, cumpriram o seu dever com certa bravura, já defendendo a entrada do corredor que ia ter ao forte onde ficavam os quartos de Miguel de Vasconcellos, já cobrindo a porta dos aposentos da duqueza de Mantua. Os primeiros levam- n´os adiante de si Pedro de Mendonça e Thomé de Sousa, os outros resistem com desespero a Luiz Godinho Benavente e mais trez ou quatro fidalgos, e só depois fogem, depois de terem visto cair dois dos sues, um morto outro ferido. Entretanto D. Miguel d´Almeida, ebrio d´alegria, corre a uma varanda, abre-a, e brandindo um estoque, exclama:« Liberdade! Liberdade! Viva el rei D. João IV! O Duque de Bragança é o nosso legitimo rei!». E as lagrimas, embargando-lhe a voz, innundavam-lhe as barbas alvejantes, que fluctuavam ao sopro da brisa do Tejo, que doiravam os raios de sol a campeiar no céu. Respondeu-lhe de baixo um immenso grito d´enthusiasmo e jubilo. Liberdade! Liberdade! bradou o povo n´um grito unisono. É que todos julgavam divisar n´esse heroico D. Miguel d´Almeida, n´esse velho de oitenta anos, radiante d´ardor juvenil, o symbolo de Portugal decrepito e alquebrado, mas illuminado n´essa hora de resureição por um lampejo, por um reflexo do esplendor das suas eras gloriosas.
Não se limitou a essa resposta unisona a acção dos que estavam na praça. Antes que a guarda castelhana podesse perceber o grito de liberdade que troava sobre as usa cabeças, Jorge de Mello arremetteu com os seus a elles n´um impeto, d´espadas levantadas e pistolas em punho. Quizeram resistir, mas não lh´o consentiu nem o sobreslato repentino, nem o ardor dos nossos. Apenas o alferes Marcos Leitão de Lima levou uma coronhada que lhe ia sendo fatal. Os fidalgos, entre os quaes se distinguiam dois eclesiasticos, o padre Nicoláu da Maia e o padre Bernardo da Costa, combatendo com tanto ardor como os inimigos, n´um momento dispersaram os Hespanhoes, e foram unir-se aos seus companheiros, deixando à turba já alvoratada o cuidado d´impedir a guarde de se tornar a formar, se o terror lh´o permitisse.
Entretanto nas sals os outros conjurados proseguiam a sua victoria. D. Antonio Tello, que não queria de fórma alguma deixar de cumprir o juramento que fizéra de ser o primeiro a ferir Miguel de Vasconcellos, nem entrou na sala dos Tudescos, esperou na galeria que communicava para o forte. Não foi sem um frémito de raiva que viu passar Manoel Mansos da Fonseca, um dos confidentes de Vasconcellos, recioso de que lhe levasse aviso. Por isso, apenas, d´ahi a alguns instantes, os fidalgos desarmaram os archeiros e dispersaram os que pretendiam cobrir a passagem para os aposentos do secretario, D. Antonio correu logo para a secretaria. Seguiam-n´o já a pouca distancia, Pedro de Mendonça, Ayres, e João de Saldanha de Sousa, Sancho Dias, João de Saldanha da Gama, D. João Coutinho, D. João de Sá de Menezes, camareiro-mor, os dois filhos de Philippa de Vilhena, D. Jeronymo de Athayde, conde d´Athouguia e seu irmão D. Francisco Coutinho, Tristão da Cunha d´Athayde, Luis da Cunha e Nuno da Cunha, D. Manuel Childe Rolim, D. Antonio da Cunha e outros. Esta impetuosa turba encontrou logo aos primeiros passos o corregedor Francisco Soares d´Albergaria, a quem bradaram: Viva el rei D. João IV, e elle respondeu com intrepida imprudencia: Viva el rei D. Philippe, caindo logo varado por duas balas. Esta morte não prevista nos planos da conjuração, podia ser causa de grandes desgraças, inflammando no ardor sanguinario da luta o animo excitado dos fidalgos.
Ainda o official-mór da secretaria d´estado, Antonio Correia, que acudiu ao estrondo dos tiros, foi logo apunhalado por D. Antonio Tello, que, vendo já tudo vermelho diante de si, ia fazendo o mesmo ao capitão Díogo Garcez Palha, que se salvou da morte com uma perna quebrada, saltando d´uma janela para a praça de armas. Também Antonio Correia sobreviveu às punhaladas, arrastando-se por uma escada, cujos degraus encheu de sangue, até um quarto do pavimento inferior.
Entretanto Miguel de Vasconcellos fôra efectivamente prevenido por Mansos da Fonseca de que havia novidade. Estava deitado ainda, mal tivera tempo de se vestir quando ao aviso succedeu estranho rumor nos corredores. Pallido de susto, correu à porta e fechou-a por dentro. Logo sentiu os fidalgos baterem primeiro fortes aldravadas, e em seguida lascarem a madeira com os machados com que pretendiam arrombal-a. Então, vendo-se perdido, pegou n´uma clavina carregada, e encerrou-se n´um armario de papeis. Ali, reprimindo a respiração e com a fronte aljofrada pelo suor da angustia, sentiu a porta ceder, entrarem os fidalgos como uma torrente, e revolverem, blasphemando, todos os cantos do aposento. Esteve por um fio a sua salvação, porque os conjurados, não o encontrando, iam procural-o à casa da India para onde julgaram que tivesse fugido; mas pela estreiteza do esconderijo Vasconcellos não pôde evitar fazer um leve movimento. Sentiram- n´o, correram para lá com um grito d´alegria feroz e logo uns poucos de tiros se dispararam. Atravessaram duas balas a garganta de Vasconcellos, que caiu morto, golphando jorros de sangue.
Depois de o terem punido, desampararam-n´o os vingadores da Patria e foram os creados que seguiam D. Gastão Coutinho que arremassaram das janelas o corpo do odiado ministro. Quando a plebe, que já enchia torrentuosa o Terreiro do Paço, viu cahir assim ao desdem o cadaver do seu oppressor, soltou um verdadeiro rugido de triumpho, e deleitando-se na satisfação de tão cubiçada vingança, não houve insulto, não houve mutilação que não fizesse sofrer a esses tristes despojos.»


Continua, transcrição feita respeitando a grafia da época, In História de Portugal- Tomo III de F. Diniz págs. 290 e 291

Sem comentários:

Enviar um comentário