quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tiros de Canhão - A Decadência de Portugal

«Já no despedir do século XVIII a ideologia da Revolução frutificava em Portugal, dando cá entrada pelos capilares da maçonaria, cujos malhetes batiam o compasso à ária altissonante da Regeneração Social. 
O Intendente Pina Manique foi cedendo terreno até ser batido pela pressão das influências napoleónicas. D. Lourenço de Lima regressado de Paris, como representante de Portugal, manifestava-se abertamente em Lisboa partidário de Napoleão, e a palavra Regeneração também por cá encantou os homens.
As lojas, dos pedreiros livres, upavam, bem visíveis, no primeiro ano do século passado. [século XIX]
Regeneração era o nome da loja da qual em 1807 era mestre o conde de Paraty, que passou o maço pedreiro, o grão-malhete a Gomes Freire de Andrade, veterano experimentado no maçonismo desde que em França, em 1785, se iniciou na Bienfaisance, a loja iluminista de Lyon que se antecipou a votar a morte de Luís XVI.
A conglutinativa palavra serviu de bandeira ao movimento político de 1851.
Uma vez aquietado, aquelas forças políticas que irromperam dos alvorotos do campo de Ourique, da tentativa revolucionária de 1817, e da revolução de 1820, depois atordoadas pelo estridor de umas décadas de embates, alguns sanguinolentos, encaminharam-se indecisas e cambaleantes, para a estabilização em dois partidos, guiadas pelas teses do manifesto de 27 de Maio desse ano de 1851.
Ia dizer que, desde então, desde a Regeneração se foi construindo o corochéu do regime da dualidade alternada do poder, acabado de erguer pelos arquitectos do Rotativismo para, anos decorridos, esboroar-se com as dissidências de João Ferreira Franco Pinto Castelobranco - o João Franco -, e de José Maria de Alpoim Cerqueira Borges Cabral - o José de Alpoim -, apressando-se o advento da república.

A Regeneração foi, por assim dizer, prenda oferecida a D. Luis de gomil de fina olaria para crisma do regime, brinco que de caminho ficou em tassalhos. Costa Cabral manobrava na sombra e a imediata cisão de Loulé rachou-a a meio.

Todos os da Regeneração se consideravam progressistas; porém o apelativo ficou para os históricos, imediatamente nomeado tanas. Subdividiram-se esses tanas em duas formações: uma, chefiada por Lobo d´Ávila, baptizaram-na de unha negra, e à outra, comandada por Anselmo José Braamcamp, de unha branca.
A oposição regeneradora, chamando a si o exclusivo de liberal e da posse da arca da ortodoxia da Regeneração, lançou furibundo ataque aos tanas, particularmente ao chefe Francisco Lobo d´àvila alcunhando-o de herói de Santulho, malévola insinuação ao assassinato de Agostinho Coelho de Araújo, divulgada em folheto - A Cruz de Santulho - profusamente distribuído nas câmaras e alardeado em cartazes luminosos em noites movimentadas da capital.

No momento o conde d´Ávila fazia um volte face à oposição entrando no ministério de Sá da Bandeira. Gritava-se aceradamente: a unha branca uniu-se aos do Santulho.

No parlamento os da unha branca tentam alijar Loulé e repartem-se dando o pequeno grupo dos maraús sob a regência de José Luciano de Castro. De tal imbróglio resulta a grita por um governo de cor definida, fosse cabralista, histórico ou setembrista pois o da ocasião era dominado pelos irmãos Cabrais. Chegou a entrever-se a pasta do reino debaixo do braço do Doutor António Correia Caldeira para quem olhavam como se fosse um sósia do conde de Tomar, secreto dirigente da política governamental».


Continua


In Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos - Francisco Malheiro, páginas 95, 96 e 97, tomo III

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os depravados da Política II

«Aos seus 17 anos no jornal O Vianense subscreveu um artigo focando estrondosas questiúnculas políticas e visando particularmente pessoa inteligente e culta à qual seus predicados e elevada positura colocaram no primeiro plano social de Ponte de Lima.
Assediou D. Santiago Garcia de Mendoza, o aventureiro que deu na vista a Camilo Castelo Branco, vindo de Pontevedra para em Braga ser estimado como general carlista e casar rico em Guimarães com uma filha do visconde de Azenha, senhora de vastas propriedades herdadas pela mãe do tio João Malheiro Pereira de Castro e Lyra, o fidalgo de Crasto, da casa dos Malteses. Salientando-se na política, tanto na miguelista como na constitucional, dissipador e frascário acabou cônsul de Portugal em Marselha.
Fora crudamente alvejado. Primeiro, atribuido-lhe ingerência na prisão de um Manuel Álvares Romero cuja extradição exigia o governo espanhol e que foi capturado em 5 de Abril de 1850 e justiçado passados dois meses. Segundo, lembrando-lhe a deserção do legitimismo, com arrepanhia dos fundos do partido de Viana, qual um eleche da ideologia, vendendo-se ao duque de Saldanha par viver em sossego no país. 
Respondeu-lhe o D. Santiago. E como mais tarde fez correr a jorros sua jocosidade num outro periódico o Braz Tisana, do Porto, foi chamado aos tribunais tendo por defensor o jurisconsulto Custódio José Vieira e por acusador o já notável José Luciano de Castro.
Destas peripécias da mocidade valeram-se os contrários para lhe chamarem «moço estouvado» e «difamador e calumniador confesso».
E tanto mal lhe queriam que, apesar de a geral veneração pelo pai, general Sá Coutinho, a aleivosia de uns oficiais da administração do concelho meteu-lhe na algibeira, imperceptivelmente, um pistolão, e com esse pretexto entrou na cadeia. A velha prisão de D. Manuel I transformou-se em salão de baile para, em homenagem ao improvisado delinquente e em protesto humoroso mas veemente, a primeira sociedade da terra bailar, folgar e rir até alta madrugada.

Foram estes passos da mexida adolescência de José de Sá os motivos do foguetear de remoques e das investidas com que os amigos de Rocha Peixoto miravam debreá-lo no afinco de impedir o desemperro, a coragem e a firmeza com que se houve em Ponte de barca, que, logo a três meses de abandonar a administração do concelho, o apresenta como seu candidato a deputado.
Substituído no lugar por Rocha Peixoto, encontram-se nas eleições de 1865 seguidas à dissolução das câmaras pelo conde d´ Ávila. 

Travou-se pugna endentada e ominosa em que as mesmas personagens de há vinte anos antes fizeram reviver as violências e despotismo desse tempo, a coberto da força armada, reforçada por malta de caceteiros, servindo de guarda de honra às urnas.

Pagaram-se votos a 500, 1000 e 1550 reis, aboletaram-se os soldados só na casa dos contrários, e na freguesia da Lavradas foi rezada missa às duas horas da madrugada para prenderem-se os eleitores e levarem-se a votar arrebanhados.

Rocha Peixoto propõe-se prender um influente oposicionista a título de culpado criminalmente, e atormenta e aterra o eleitorado lançando bando de que os que viessem à vila pagariam certo imposto. O povo, encalmado e indignado, mexe-se para o motim, mas José de Sá intervém tomando a palavra na praça pública para invectivar rudemente a táctica do chefe local dos governamentais, animando e encorajando os da oposição, e assim distrair a gambérria do ânimo popular.

Nesse dia tomou pé o Sá Coutinho; e o outro, refeito do embate, apercebeu-se de ter pela frente um adversário de respeito, sobretudo ao seu amigo conde d´Ávila deixar o lugar a Aguiar, ao Mata-frades, e esse moço ser reconduzido na administração do concelho. 
Rocha Peixoto assistiu ao delirar da vila aos sons estridentes da filarmónica, dos repiques nas sineiras e das girândolas de foguetes, até alta madrugada; enfarou-se do cheiro acre e enojoso das fumigações da farrapada de um boneco figurando o conde d´Ávila, e derrancou-se com o arraial de flores e regosijosas exclamações à chegada da nova autoridade.


Quadram-se os dois contendores. A briga é severa, seu conspecto é de rigor quando José de Sá prende e faz julgar e condenar o Dr. Francisco António da Fonseca e Brito, persona grata de Rocha Peixoto, a quem os adversários acusavam de violências e desmandos «Inqualificáveis» no exercício do cargo de administrador do concelho substituto».  

Continua


In Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos - Francisco Malheiro, páginas 76, 77, 78 e 79 tomo III

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Os depravados da política

« (...) As emanações de uma tal cultura malignavam os ares; e nessa atmosfera perniciosa e deletéria livremente viçaram as sociedades secretas, de poder quase majestático, em cujos seios se moldaram os caracteres de muitos daqueles que, com seus diplomas científicos, entraram na vida pública. Eram de ver-se a dos Divodignos, famígera pelo assassínio dos Lentes em Condeixa, a par da dos Invisíveis em Tondela, fundada por um juiz da comarca e um advogado, que chegou a deputado da Nação, fértil em vinganças políticas - incêndios e assassinatos - e degenerada em associação de ladrões.
Daí o coonestar-se com a impunidade o delito político, e com mais funestas consequências no âmago da academia coimbrã por 1835 a 1841, horroroso precedente e desolador presságio para o prestígio da direcção e administração públicas.

(...) No remoinhar da insânia destacavam-se os da república do Carmo, aos quais chamavam de Sicários por verem-nos passear com punhais ao peito e por vezados nos banditismos, sob a chefia de um ex-frade, o que não impediu que um deles morresse desembargador da Relação do Porto. (...) As encobertas sociedades secretas prolificaram nos carrilhos, e delas descendiam legitimamente os grupos de guarda-costas dos chefes eleitorais para garantia da eficiência de seus planos ou êxito das suas maquinações».


In Aspectos da Nossa Guerra dos Cem Anos - Francisco Malheiro, páginas 20 e 21 - Tomo II.