terça-feira, 11 de junho de 2013

Fernando Pessoa, o grupo dos 300 e a sua influência cultural na Europa

«A razão e a técnica de infiltração consiste no seguinte: todo o princípio político, estético, filosófico tem duas características, tem uma ideia central que o distingue dos outros; é composto de elementos vários subordinados a essa ideia central. Há, portanto, três maneiras de arruinar, por infiltração, um princípio qualquer. A primeira, é exagerar até ao desequilíbrio - sobretudo ao desequilíbrio com a realidade - a ideia central, que o distingue. A segunda é erigir em principal qualquer dos elementos secundários, ou em principais qualquer deles. A terceira é liga-lo, quer por meio da sua ideia central, quer por meio de qualquer das acessórias, exageradas em importância para esse fim, a qualquer outro princípio com que forçosamente ou não convém ou, posto em prática, não convirá.
 
Vamos dar exemplos destas três tácticas.
A certa altura do século XIX começou a manifestar-se uma reacção contra o Romantismo. Esta reacção surgiu em parte como «avançada» em relação a ele (naturalismo) em parte como «retrógada» (neoclassicismo). Como este último ameaçava reconstruir o ideal pagão, era mister desvirtuá-lo. Assim se fez. O que tendia para ser um critério neoclássico puro foi desvirtuado, pelo exagero, em oposição ao romantismo, do espírito estético central do classicismo, para o chamado movimento estético, representado principalmente por Oscar Wilde.
Os «Trezentos»  não inventaram Oscar Wilde, é certo; o que fizeram foi, por acção insistente sobre ele no meio em que vivia, impeli-lo cada vez mais no exagero da parte infecunda do seu helenismo, o que fizeram foi, conseguido isto, espalhar por toda a europa o conhecimento da sua obra. A «propaganda» de Wilde é mais alguma coisa que o simples desenvolvimento natural da sua reputação.
 
Outro exemplo. A certa altura do século XIX e mais claramente no século XX, surgiu uma corrente monárquica, nacionalista e tradicionalista na Europa e sobretudo em França. Este elemento representava um perigo, tanto mais que ameaçava tornar-se forte, como, com efeito, se tornou. Era forçoso desvirtuá-lo. Assim se fez. Por uma acção insistente e disfarçada junto de elementos componentes desse movimento, conseguiu-se que esse monarquismo assumisse um aspecto absolutamente anti-individualista, fazendo-o ir simular as instituições da Idade-Média. Sabedores os trezentos, ou quem os dirige, que a civilização europeia, pelos seus fundamentos gregos, é radicalmente individualista; que a civilização moderna é, de per si individualista também, pois que avançou para além da fase corporativista que é característica do início de todas as civilizações e do seu estado semi-bárbaro, viram bem que, convertendo em anti-individualista e corporativista o novo monarquismo, conseguiam um triplo resultado, de três modos servidor dos seus fins: nulificar a acção futura profunda desse monarquismo desadaptando-o do individualismo fundamental da nossa civilização; pô-lo em conflito com o individualismo moderno, nascido do progresso das nações e da multiplicação de entrerelações e culturas; atirar com ele contra os princípios helénicos e clássicos.
 
A queda do Império Alemão, preparada de longe, desde que se conseguiu afastar Bismarck da sua governação, é dos trabalhos mais assombrosos da direcção secreta que pode imaginar-se. Organizado em bases estatísticas, e, portanto, contrária às da substância da nossa civilização, o Império Alemão tinha que cair. O que não era forçoso é que caísse da forma que caiu, ou que se prolongasse a guerra em que ruiu, ou se tivesse conseguido a intervenção da América [...] ».

Os sublinhados e negritos são meus.
 
 
Fernando Pessoa - Textos em prosa