segunda-feira, 11 de março de 2013

Secularização e gnosticismo

Considerar os totalitarismos o resultado de um processo moderno de secularização não parece ser muito original: não é difícil encontrar perspectivas anti-modernas nos filósofos católicos, sendo o exemplo mais recente o de Joseph Vialatoux que, "Na cidade de Hobbes" - teoria do Estado totalitário - escrito em 1935, reconhece e identifica Hobbes como o "pai" das doutrinas totalitárias contemporâneas. Por outro lado, Carl Schmitt, nomeia o Estado total, ou Estado quantitativo [também conhecido como «totalitarismo liberal» (?)], o responsável pela secularização. A sociedade civil absorveu o Estado, e torna-se absolutamente política num sentido totalmente desfigurado.
 
De forma bem diversa, Voegelin vê essa secularização não tanto como uma perca da dimensão do sagrado e da espiritualidade, mas sim, como uma espiritualização, se se tiver em conta que para Voegelin (tal como para S. Agostinho), a concupiscência carnal não é a raíz mas sim a consequência do pecado original, onde a sua origem tem lugar num acto de positivismo apóstata.
 
Voegelin considera que a secularização, a laicização e a mundialização são epifenómenos de um acto espiritual que visam destruir a divindade. É esta visão que dá corpo à obra de Karl Lowith, História e Saudade, escrita em 1949, que analisa o fenómeno da imanentização como um produto de uma evolução histórica, e não como uma força espiritual maligna.
 
A pneumatologia da consciência consiste, segundo Voegelin, num duplo movimento de revolta do espírito contra o fundamento divino da existência e na sua respectiva «intramundização». É por isto que Voegelin caracteriza desde 1938 os colectivismos (e de uma forma generalizada, as sociedades modernas) como «religiões políticas». Diz Voegelin: «O colectivismo político não representa apenas uma aparição política e moral: é sobretudo a sua componente religiosa que me parece muito importante (...) Não quero com isto dizer que o combate contra o nacional-socialismo não possa ser feito igualmente no plano ético; mas justamente, o mesmo não é feito de maneira radical, segundo o meu ponto de vista, pois falta-lhe um enraizamento na religiosidade».
 
Por mais falsas que sejam estas religiões seculares, as mesmas implicam a realização de um acto espiritual cuja falta de autenticidade são um problema. O mal, ou o diabólico não é, precisa Voegelin, «simplesmente um negativo moral, um horror, mas uma força, uma força muito atractiva».
 
Se a ordem política opera a partir de símbolos e de «cristalizações sagradas e axiológicas da realidade», podemos então afirmar que as «religiões políticas» cristalizam o sagrado em torno de uma realidade intramundana - o Estado, o soberano, o povo, etc.