segunda-feira, 17 de junho de 2013

A competência por colação



«A multidão, ou melhor a constituição, supunha que os legisladores nomeados pelos seus delegados eram mais competentes para fazer leis do que ela. A esta competência um pouco extravagante é que eu chamo a competência por colação. Assim, nada há que me indique que um determinado cidadão tenha a menor competência legisladora, isto é, jurídica; mas a competência que lhe falta, confiro-lha eu pela confiança que me merece e eu manifesto-a votando nele ou votando em pessoas que lha concedem escolhendo-o.
Evidentemente, a competência por colação não tem senso comum; mas tem a seu favor algumas aparências e até um pouco mais que aparências. Não tem senso comum, porque é uma criação ex-nihilo [a partir do nada], porque é o incompetente a tirar de si o competente, é um zero que produz uma unidade. A colação, todavia, embora não me agrade em parte nenhuma, é bastante legítima, sempre que provenha de uma corporação competente. Um sábio, que não seja bacharel, recebe esse grau de uma universidade, e os de licenciado e doutor, para poder entrar nessa universidade, que é hábil e competente para o fazer, por ter capacidade de saber, e por ser devido apenas a circunstâncias especiais que o sábio não possuía nenhum diploma científico oficial. Mas, sem dúvida, pareceria muito paradoxal, e até muito ridículo, que um grupo de indivíduos sem diplomas universitários conferissem a alguém, por exemplo, o grau de doutor em matemática. A competência por colação dos incompetentes não tem certamente senso comum.»
 
Excerto do livro O Culto da Incompetência de Émile Faguet.

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