sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Vilafrancada

«Com efeito, a «soberania» usurpadora do congresso instalou-se na capital. Quando a 4 de Julho de 1821, chega a família Real, apressam-se os seus representantes a pôr condições e restrições severas ao desembarque. E reclamam também que, na própria tarde do mesmo dia, o Rei preste juramento à constituição provisória ante o mesmo congresso.
«De maior despotismo não tinham usado o parlamento inglês com Carlos I e o françês com Luís XVI» - comenta acertadamente Artur Herchen...
[...] Elabora-se depois, ao longo dos meses seguintes, o novo Estatuto Constitucional, onde, como nota o Marquês de Lavradio (insuspeito pelo seu conhecido liberalismo) é evidente o propósito de «aniquilar o poder real». E continua, mais adiante: - «A constituição de 1822, baseada na constituição espanhola de 1812, por sua vez se inspirava na Constituição francesa de 1791 era um aborto; os legisladores obcecados com as ideias de liberdade, soberania da nação, etc., haviam... decretado uma Constituição republicana para reger um Monarquia».
 
[...] O descontentamento alarga-se, a cada passo, aos mais variados sectores. Escreve na altura, em carta a um amigo, o insuspeitadíssimo Manuel Martins Pamplona, antigo camarada e amigo de Gomes Freire de Andrade: - «Ninguém sabe onde isto irá parar, mas nada se prevê senão de triste e fatal. As Cortes vão deitando tudo a terra.Tudo é mau e tudo se receia pior». Clero, nobreza e povo associam-se nas mesmas queixas, avolumam a oposição geral ao sistema vigente. Até os militares recebem com atraso as soldadas e por isso exteriorizam o seu desagrado.
 
E, muito naturalmente, é em Dom Miguel que os olhares de todas as classes se concentram. «Os realistas - salienta ainda Artur Herchen - reconhecem com razão no Infante o homem que procuram, o chefe de que carecem: é o sol a nascer. De natureza ardente e resoluta, possui, além dos atractivos pessoais, aquele dom especial que arrebata num chefe e lhe vale a inteira e fiel dedicação dos homens que conduz».
 
Repare-se que dá sinal de si, na Península Ibérica, a Santa Aliança, fundada em Setembro de 1815, após o congresso de Viena e a batalha de Waterloo. Nos finais de 1822, o congresso de Verona confia à França o mandato expresso de restabelecer a ordem em Espanha. Em Abril de 1823 entra no país vizinho, à frente de cem mil homens, o Duque de Angoulême, sobrinho de Luís XVIII. Avança com rapidez e 23 de Maio ocupa Madrid. Quatro dias mais tarde, a 27, em Lisboa, o comandante do regimento nº23, José de Sousa São Paio, demitido por ser parente do Conde de Amarante, insurge-se, marcha com a sua unidade para Vila Franca, escreve de lá ao General Sepúlveda a exigir a demissão do governo e o restabelecimento dos direitos do Rei.
Mal lhe chega a notícia, sai Dom Miguel em plena noite do palácio da Bemposta, seguido, de numerosos cavaleiros entre os quais figuram nomes ilustres do Exército e da Nobreza e coloca-se à testa do movimento. Dirige ao Pai uma breve mensagem em que declara «não poder ver por mais tempo o abatimento do trono contra a vontade de todo o Reino». Logo prossegue: - «Nós devemos manter ilesa a Majestade Real, é um depósito que nos está confiado. Só pretendo servir a Vossa Majestade como Rei e como Pai e libertar a nação».
Apenas é conhecido o pronunciamento, reage o país com entusiasmo e aplauso. Gente de todas as camadas sociais vem oferecer-se ao Infante. O povo está do seu lado!
Tenta o congresso opor-se, condena asperamente o acto e o Soberano chaga a parecer inclinado a puní-lo. Mas, a 31 de Maio, o Regimento de Infantaria 18 aclama-o na Bemposta, aos gritos de «Abaixo a constituição, viva o Rei absoluto!». acede Dom João VI a ir também para Vila Franca, aí se junta ao filho e ambos fazem entrada triunfal em Lisboa a 16 de Junho, entre calorosas ovações populares.
Volta a Raínha do Ramalhão. Derruba-se no Rossio o monumento erguido à vitória constitucional. Num fervor justiceiro, a multidão assalta o congresso, quebra numerosas cadeiras de deputados. Jacobinos, liberais, maçãos emigram em massa. Como recompensa do seu feito, é Dom Miguel elevado ao alto posto de Generalíssimo. Não foi preciso aqui o Duque de Angoulême. Por nossas mãos quebramos o jugo.
 
 
In "D. Miguel I a actualidade do seu exemplo" - João Ameal
 

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