sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Primórdios do liberalismo em Portugal - II

Para se ter uma ideia dos interesses económicos das duas facções faladas no post anterior, diga-se a este própósito que, entre 1796-1806 a balança comercial entre Portugal e Inglaterra passou de 9.838.817$463 réis para 17.788.267$282 réis! Um aumento de mais de 90%! Relativamente aos números entre Portugal e França os mesmos são impressionantes; 268.313$ 198 réis em 1796 para 7.682.088$ 432 réis em 1806!
 
Uma luta feroz pela competividade e controlo de mercados pela burguesia, facilitou a disseminação dos ideias de 1789, e dái para a frente começa a verdadeira decadência de Portugal. A partir de 1807, com a ruptura do bloco napoleónico, ficam em causa interesses vitais de uma parte da burguesia mercantil portuguesa - os afrancesados.
 
Embora o intercâmbio entre Inglaterra e Portugal continua em expansão, sobretudo pelo lado das exportações portuguesas, temia-se que a concorrência francesa, que cresceu muitíssimo em 10 anos, provocasse recessão nos negócios com os ingleses, e que os franceses fossem aumentando o valor das transacções comerciais, ganhando assim vantagem nos negócios com Portugal.
 
Os acontecimentos seguintes, apesar de tudo, não confirmaram essa tendência que se antevia por parte dos inglesados; os negócios com Inglaterra continuaram a crescer nos anos de 1808-1814. Alguns anos após, na época chamada de «Vintista», a balança comercial portuguesa começava a agravar-se seriamente.
 
Em 1819 Portugal importou 24.296.834$600 réis e exportou somente 19.447.806$084 réis, um défice de 5.000.000$000 réis. Houve que tomar medidas, e essas medidas passaram por diminuir o défice da balança de transacções correntes com o estrangeiro, através da tão badalada "austeridade". Também essa foi a receita nessa altura, mas revelar-se-ia desastrosa, pois o que acabou por acontecer foi que o saldo das importações sobre as exportações desceu para menos de metade, em grandezas absolutas. Ao baixar o volume de importações baixava obrigatoriamente, por via da "austeridade", o volume de exportações.  No ano de 1822, os números mostram precisamente o que acima acabou de se dizer, as importações ficaram-se pelos 19.181.984$032 réis e as exportações em 15.611.637$822 réis, com um défice de 3.500.000$ réis.
 
Mas a baixa dos valores da balança comercial portuguesa também se fica a dever à baixa do comércio com o Brasil, o que demonstra bem, em termos ditos práticos, os efeitos negativos da independência do Brasil e da descolonização sobre a economia nacional. A independência do Brasil, pelo menos da forma como a mesma se efectivou e não considerando os interesses que estavam em jogo, revelou-se um erro colossal. Portugal nunca mais recuperou desse golpe (e a história tratou de o confirmar) e o seu relacionamento comercial com o Brasil só foi recuperado para lá de 1840.
 
 
Continua.

Primórdios do liberalismo em Portugal

Falar sobre a génese do liberalismo (por oposição à "antiga ordem") em Portugal, é exercício não muito simples. Portugal não ficou imune aos ideais de 1789, mas os mesmos não se manifestaram com tanta intensidade como noutros países europeus, pelo menos até ao final do século XVIII.
No período pré-1789, a reforma pombalina de 1772, já de si bastante anti-aristotélica, lançava as primeiras sementes do liberalismo. Para sermos rigorosos devemos dizer que seriam antes "novas" sementes, porque na realidade as primeiras sementes do liberalismo têm origem no iluminismo, que invadiu a europa nos século XVI e XVII.
 
Num livro intitulado "Sob o Signo das Luzes" escrito por Luís A. de Oliveira Ramos na página 136 relata-se o seguinte: «Como ensina Dominguez Ortiz, o iluminismo significou , na área peninsular, a aceitação da pesquisa científica e dos respectivos resultados mesmo quando contrários às opiniões tradicionais, implicou a flagelação das superstições e dos preconceitos propiciadores de injustiça e de opressão, contemplou o exame crítico das crenças correntes e o seu repousar, outrossim originando claro interesse por reformas de natureza económica e social.»
 
A parte final do excerto, indicia claramente que a subversão da ordem e do direito natural potenciou o positivismo, e que o mesmo é anterior a Comte, é um filho dissimulado do iluminismo.
 
Portugal só começou a sentir os efeitos da revolução de 1789 a partir de 1796-1797, até aí o ambiente era tranquilo, apesar de haver pleno conhecimento do que se passava em França e países vizinhos. Os portugueses tinham intensas relações mercantis com diversos pontos da europa, passavam por vezes meses no estrangeiro, para além de que o afluxo de estrangeiros ao nosso país também era elevado. Portanto havia um conhecimento mais ou menos generalizado das ideias revolucionárias. Sem esquecer também diversos jornais e publicações estrangeiras que aqui eram vendidas nessa época.
Os mais letrados e ilustrados promoviam abertamente a adesão aos ideais de 1789, portanto dizer-se que Portugal ficou imune a 1789 não corresponde à realidade. Mas tal adesão não aconteceu tão rapidamente e tão solidamente como noutros países europeus.
 
No Portugal de transição do século XVIII [1796-1797 em diante] para o XIX, existiam duas facções bem definidas; "os afrancesados e os inglesados". Segundo alguns cronistas da época, a luta mercantil entre as duas facções era bem pior do que a dos absolutistas e liberais, porque os interesses económicos e vantagens mercantis eram já a única preocupação das «camarilhas cortesãs» e respectivas bases de apoio. Nada de muito diferente dos dias de hoje, registe-se.
 
Continua.