sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Primórdios do liberalismo em Portugal

Falar sobre a génese do liberalismo (por oposição à "antiga ordem") em Portugal, é exercício não muito simples. Portugal não ficou imune aos ideais de 1789, mas os mesmos não se manifestaram com tanta intensidade como noutros países europeus, pelo menos até ao final do século XVIII.
No período pré-1789, a reforma pombalina de 1772, já de si bastante anti-aristotélica, lançava as primeiras sementes do liberalismo. Para sermos rigorosos devemos dizer que seriam antes "novas" sementes, porque na realidade as primeiras sementes do liberalismo têm origem no iluminismo, que invadiu a europa nos século XVI e XVII.
 
Num livro intitulado "Sob o Signo das Luzes" escrito por Luís A. de Oliveira Ramos na página 136 relata-se o seguinte: «Como ensina Dominguez Ortiz, o iluminismo significou , na área peninsular, a aceitação da pesquisa científica e dos respectivos resultados mesmo quando contrários às opiniões tradicionais, implicou a flagelação das superstições e dos preconceitos propiciadores de injustiça e de opressão, contemplou o exame crítico das crenças correntes e o seu repousar, outrossim originando claro interesse por reformas de natureza económica e social.»
 
A parte final do excerto, indicia claramente que a subversão da ordem e do direito natural potenciou o positivismo, e que o mesmo é anterior a Comte, é um filho dissimulado do iluminismo.
 
Portugal só começou a sentir os efeitos da revolução de 1789 a partir de 1796-1797, até aí o ambiente era tranquilo, apesar de haver pleno conhecimento do que se passava em França e países vizinhos. Os portugueses tinham intensas relações mercantis com diversos pontos da europa, passavam por vezes meses no estrangeiro, para além de que o afluxo de estrangeiros ao nosso país também era elevado. Portanto havia um conhecimento mais ou menos generalizado das ideias revolucionárias. Sem esquecer também diversos jornais e publicações estrangeiras que aqui eram vendidas nessa época.
Os mais letrados e ilustrados promoviam abertamente a adesão aos ideais de 1789, portanto dizer-se que Portugal ficou imune a 1789 não corresponde à realidade. Mas tal adesão não aconteceu tão rapidamente e tão solidamente como noutros países europeus.
 
No Portugal de transição do século XVIII [1796-1797 em diante] para o XIX, existiam duas facções bem definidas; "os afrancesados e os inglesados". Segundo alguns cronistas da época, a luta mercantil entre as duas facções era bem pior do que a dos absolutistas e liberais, porque os interesses económicos e vantagens mercantis eram já a única preocupação das «camarilhas cortesãs» e respectivas bases de apoio. Nada de muito diferente dos dias de hoje, registe-se.
 
Continua.

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