quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A modernidade é originária da Idade Média

A Idade Média está na moda. Em particular, a de expressão ocidental latina.
Tem sido muitas vezes considerada como uma página em branco no ordenamento do tempo e do mundo, consideração que é totalmente falsa. A designação de «média», uma suspensão do movimento de progressão, encravada entre a Antiguidade e a Modernidade, cujo processo e progresso relativizava tudo o que a precedeu.



Tal como a modernidade em relação à antiguidade, também o pós-modernismo tende à inexorável relativização da modernidade. É um processo sem fim.
A Idade Média costuma ser situada entre os séculos V e XIV, no entanto, não faltam razões para mudarmos as balizas temporais. Na realidade, a Idade Média, romanticamente ampliada, duraria até finais do século XVIII.

Durante muitos séculos, diversas culturas, múltiplos povos (romanos, bárbaros,etc.), diferentes impérios, religiões diferenciadas, pulverização de línguas, fracturas políticas, uma série de protagonistas individuais e colectivos, filosofias diversas e teologias ortodoxas e heterodoxas, foram o fermento da Idade Média. Como se conseguiram consensos e atitudes que hoje conduziram ao entendimento sobre essa época? Sem qualquer sombra de dúvida, o Cristianismo foi o factor mais determinante para se conseguir amalgamar as diferentes correntes que existiram durante a Idade Média.

Um dos argumentos que mais conduziram ao denegrir da Idade Média foi considerar-se esse período como um estágio intermédio, que não preenche um lugar positivo e insubstituível na história, mais dedicado a Deus do que aos homens. Por isto mesmo, as filosofias do humanismo renascentista e a modernidade não vêem aí suficientemente afirmados os indeclináveis valores humanos. Nessa época, as razões de viver assentam apenas nos desígnios da fé e não nos da razão. Embora ultimamente se tenha feito esforços para corrigir essa inexactidão de independência entre a fé e a razão. A fé representa uma radical, natural e habitual atitude humana, sendo mesmo inerente ao exercício da própria razão. Por outro lado, aquilo a que se adere por fé constitui sempre uma expressão racional sobre algo que excede o ser humano,  e esse âmbito racional sobre que incide a fé, por ser geralmente muito vivenciado, tem no exercício da existência a sua própria prova de pertinência e razoabilidade.




A bíblia, que inspira largamente, mas não exclusivamente, a mundividência medieval, é uma mensagem racional que foi acolhida por diversas mundividências que integram a Idade Média, designadamente a greco-romana e a dos diversos povos bárbaros, num movimento de influência recíproca.
A razão medieval decorrente desse complexo caldeamento é diferente da razão antiga, que, aliás, se prestigiou ao ser assumida e, muitas vezes, excedida pela estruturação da racionalidade medieval. Também esta participou no desnvolvimento do logos que não se esgotou na razão antiga nem terminará com a razão moderna. As obras literárias dos antigos legaram à Idade Média muitos e indeléveis conteúdos, mas igualmente potenciaram muitos instrumentos de análise e estudo, como a lógica aristotélica.

O que tipifica fundamentalmente a razão medieval é a abertura ao infinito, contribuindo assim, para desenredar o poder de compreensão da finitude circular. Nesta perspectiva, a Idade Média é a percussora do modernismo. As primeiras universidades surgem precisamente nessa época, tornando-se numa referência fundamental do futuro. A medievalidade dá início a uma série de processos que viriam a desabrochar no modernismo. E o modernismo, por sua vez, lançou as bases para a decepção do pós-modernismo, cuja razão se revela frágil em demasia.

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