sexta-feira, 13 de julho de 2012

A gnose e a sua deturpação segundo Eric Voegelin

«É fácil imaginar a indignação de um liberal humanista se lhe dissermos que seu particular de imanentismo é um passo na estrada que leva ao marxismo.» Eric Voegelin - A Nova Ciência da Política - página 95. (edição Brasileira)

Esta afirmação esclarece muita coisa. Ou pelo menos deveria ter esse poder, não fosse o desligamento permanente da maioria em assuntos políticos. Mas há mais:

«... a gnose constituía [na Idade Média] uma cultura religiosa viva; à qual os homens podiam recorrer. (...) O gnosticismo medieval está ligado ao gnosticismo contemporâneo por uma linha de transformação gradual. E, na verdade, a transformação é tão gradual que seria difícil decidir se os fenómenos contemporâneos devem ser classificados como cristãos, já que derivam claramente das heresias crsitãs da Idade Média, ou se os fenómenos medievais devem ser classificados como anticristãos, por serem claramente a origem do anticristianismo moderno.»

Eu inclino-me mais para a segunda hipótese. Analisando a história, ela suporta na perfeição a segunda hipótese.

«A gnose acompanhou o Cristianismo desde as suas origens, dela se encontrando vestígios em S. Paulo e S. João. A heresia gnóstica foi o grande oponente do Cristianismo nos primeiros séculos. (...) Ademais, além da gnose cristã, havia ainda uma gnose judaica, uma gnose pagã e uma gnose muçulmana. Muito provavelmente, a origem comum de todos esses ramos de gnose deva ser buscado no tipo experiencial básico que prevaleceu na área pré-cristã da civilização siríaca. No entanto, somente no apogeu da Idade Média a gnose assumiu a forma de uma especulação sobre o significado da história imanente.»

Isto é: a gnose começou a sua corrupção a partir do apogeu da Idade Média, e a partir daí, e com a reforma protestante e os alvores do iluminismo, este movimento não mais foi detido.

«A gnose não conduz, por necessidade interna, à construção falaciosa da história que caracteriza a modernidade desde Joaquim [de Fiore]».

Voegelin dá a entender que Joaquim de Fiore teria sido um dos principais teóricos que permitiria, passados alguns séculos, a passagem do gnosticismo para o neognosticismo moderno.

«Uma data apropriada para o início formal seria a activação do antigo gnosticismo através  de Escoto Eriúgena no século IX, porque sua obra, bem como a de Dionísio Areopagita, exerceram influência contínua sobre as seitas gnósticas clandestinas, antes que elas viessem à superfície nos séculos XII e XIII.»

Voegelin revela uma questão importante - o início formal - havia um gnosticismo antigo, em que partes suas foram reactivadas por Escoto Eriúgena e Dionísio Aeropagita no século IX. Apenas a partir do século XII, e provavelmente ainda mais no século XIII, o gnosticismo começaria a tomar as feições de que hoje se reveste.

«A especulação gnóstica venceu a incerteza da fé recuando da transcendência e dotando o homem e seu raio de acção intramundano com o significado da realização escatológica. Na medida em que essa imanentização avançou experimentalmente, a actividade civilizacional transformou-se num trabalho místico de auto-salvação.»

Aqui Voegelin parece sugerir que ao desligar-se da fonte transcendente, o homem liga-se a uma fonte imanente que o faz "vencer" a incerteza da fé; até que ponto isso foi bom ou mau!?

Excertos do livro de Eric Voegelin - A Nova Ciência da Política

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