terça-feira, 10 de julho de 2012

A cidade de Deus: Santo Agostinho

Agostinho ocupou-se das relações entre a Igreja e o Império. Encontrava-se em Milão na altura em que o bispo Ambrósio entrou em luta com a imperatriz Justina, sustentáculo dos Arianos. Receando que a mãe do rei-menino, Valentiniano, mandasse os soldados raptar Ambrósio, o povo cristão mantinha-se junto do seu bispo e passava as noites na igreja, pronto a morrer com ele.

Semelhante tensão desaparece na altura em que Agostinho, quase no fim da vida, começa A Cidade de Deus. A Igreja está em paz com o estado. Teodósio selou a aliança entre o Império e a Igreja, que seu filho, Honório, estreitou ainda mais. Além disso, o poder civil está ameaçado; precisa de ser reforçado contra a dissolução interna e, sobretudo, contra as ameaças do exterior, depois de Roma ter sido tomada por Alarico, à frente dos Godos, em 410.

Os pagãos atribuem ao cristianismo a responsabilidade do desastre. Das suas fileiras erguem-se queixas, seguidas de acusações à religião nova, por ter enfraquecido e arruinado o Estado.

A refutação preenche os cinco primeiros volumes da A Cidade de Deus. Os cinco seguintes afastam outra tese pagã, segundo a qual a manutenção do culto dos ídolos teria podido, se não salvar Roma da decadência, pelo menos garantir a felicidade futura àqueles que se lhe mantivessem fíéis. Os dez primeiros livros são essencialmente apologéticos, esforçando-se Agostinho por convencer os pagãos de que o cristianismo nada tinha a ver com os males que afligiam o Império e a capital.
Os restantes livros da sua obra são uma exposição das doutrinas cristãs. Do livro XI ao livro XIV, Agostinho descreve o nascimento das duas cidades: a cidade de Deus e a cidade do mundo. Do livro XV ao livro XVIII é relatado e explicado o seu desenvolvimento paralelo. E por fim, entre os livros XIX e XXII enuncia-se os seus fins necessários.

A Cidade de Deus não é um tratado de política, embora dela se ocupe em larga medida. E não foi só na sua grande obra que Santo Agostinho se interessou por problemas desta ordem. Na multiplicidade dos seus estudos, a relação Império/Igreja nunca é esquecida (História das Ideias Políticas, volume I- Marcel Prélot e Georges Lescuyer)

De referir que Santo Agostinho era inicialmente pagão, e só se converteu aquando da leitura de um texto de S. Paulo, que segundo o próprio, «uma voz misteriosa ordenava-lhe que tomasse e lesse». Faz de seguida um retiro em Cassiciacum. Em 387, após o seu regresso do retiro recebe o baptismo das mãos de Ambrósio. Em 388, a sua mãe, bastante decisiva para a sua conversão, falece. Três anos depois, Agostinho que vivia bastante retirado, é reconhecido na basílica de Hipona pelo povo que o reclama para sacerdote. É ordenado no ano seguinte pelo bispo Valério.

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