quarta-feira, 13 de junho de 2012

Liberdade, governo e justiça social no fascismo

«Para o liberalismo (como para a democracia e para o socialismo), a sociedade não tem vida distinta da vida dos indivíduos, solvitur in singularitates.
Para o fascismo, a vida da sociedade ultrapassa em muito a vida dos indivíduos e prolonga-se através das gerações por séculos e milénios; os indivíduos nascem, crescem, morrem, são substituídos por outros e a unidade social mantém-se sempre igual a si própria através dos tempos.
Para o liberalismo (como para a democracia e para o socialismo), o indivíduo é o fim, a sociedade é o meio; nem é concebível que o que é o fim possa jamais assumir o valor de meio. Para o fascismo, a sociedade é um fim e o indivíduo um meio e toda a vida da sociedade consiste em assumir o indivíduo como instrumento dos fins sociais. Sem dúvida, o indivíduo é tutelado e favorecido no seu bem-estar e no seu desenvolvimento, mas isso não advém do seu exclusivo interesse singular, mas sempre da convergência entre o interesse do singular e o interesse social. Deste modo se explicam aqueles institutos como a pena de morte que o liberalismo condena em nome da primazia dos fins do indivíduo.
Para o liberalismo (como para a democracia e para o socialismo), o problema fundamental da sociedade e do estado é o problema dos direitos individuais. Será para o liberalismo o direito à liberdade, para a democracia o direito ao governo da coisa pública, para o socialismo o direito à justiça económica, mas a questão básica é sempre o direito do indivíduo ou dos grupos de indivíduos ("classes"). Para o fascismo, o problema proeminente é o do direito do Estado e do dever do indivíduo e das classes; os direitos do indivíduo são apenas reflexos dos direitos do Estado, que o singular faz valer como portador de um interesse próprio e como órgão de um interesse social com aqueles convergentes. Nesta proeminência do dever está o mais alto valor ético do fascismo.»


In "Para a compreensão do fascismo" - António José de Brito

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