quarta-feira, 20 de junho de 2012

A ideologia nazi - milenarismo recalcado

«Sem as vingativas reparações de guerra do Tratado de Versalhes e o caos da economia alemã entre guerras, o mais provável era que os nazis não tivessem passado de um movimento marginal. Foram populares enquanto foram, porque deram vantagens materiais a grandes sectores da população alemã. A eficiência da máquina de guerra de Hitler pode ter sido exagerada, mas a política económica nazi não foi diferente da que Keynes defendia (como o próprio Keynes reconheceu) e proporcionou pleno emprego a seguir à guerra. A popularidade dos nazis foi sustentada nos primeiros anos de guerra pelo êxito militar e pela orgia do saque que este último permitiu na Europa ocupada. Dar estas vantagens à população alemã foi uma parte importante da estratégia dos nazis para conquistar e manter o poder.
Ao mesmo tempo, os nazis mobilizaram um poderoso conjunto de crenças. A ideologia nazi difere da da maioria dos outros movimentos utopistas e milenaristas na medida em que é muito negativa. A escatologia nazi era uma imitação adulterada de tradições pagãs que permitia a possibilidade de um desastre final sem qualquer perspectiva de renovação futura. Esta escatologia negativa estava ligada a uma espécie de utopismo negativo que concentrava mais nos obstáculos ao futuro paraíso do que no seu próprio conteúdo. A escatologia dos nazis talvez tenha sido menos importante do que a sua demonologia, que vinha de raízes cristãs (nomeadamente da tradição luterana). O mundo estava ameaçado por forças demoníacas que eram personificadas pelos Judeus. O tempo presente e o passado recente eram um mal sem redenção possível. A única esperança residia na catástrofe - só depois de um acontecimento totalmente destruidor é que o Volk alemão podia ascender a uma situação de harmonia mística.»


In " A morte da Utopia" - John Gray

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