sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Democracia Nova - Alfredo Pimenta

«Felizes tempos aqueles em que a democracia era uma só. Não usava máscara; não usava pseudónimos ou heterónimos. Era uma só e andava com a cara ao léu. A gente conhecia-a, desviava-se dela, evitava-a, se não queria contactos; ou caminhava para ela de braços abertos, se pretendia embarcar com ela na Gôndola dos Sonhos.
Ninguém se enganava.
Tudo mudou. E a Democracia foi o algibebe, comprou não sei quantos fatos de diferentes cores e feitios, e anda por aí a jogar o esconde-esconde com os Povos inquietos e as almas indecisas.
Ora nos aparece espartilhada e dengosa como  vamp de cabaret ou star de cinema, ou nos desafia com os seus ares de cantárida insaciável, obscena e repugnante, ou nos surge envergando o mais rigoroso vestido de luto grave, comprido até aos tornozelos, afogado até ao queixo, amplo bastante para não deixar revelar as ancas de égua estafada...»


In "A democracia Nova - Alfredo Pimenta

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