quinta-feira, 14 de junho de 2012

A concepção anti-natural da liberdade

«A palavra "liberdade" é talvez, de entre todas, a que mais vezes é pronunciada e celebrada, mas é também a que foi mais desfigurada e deformada. "Não há ideia" - escreveu um pensador que, no entanto, contribuiu para esta desfiguração - "tão notória e universalmente indeterminada, tão polissémica e tão dada (e portanto sujeita) aos maiores equívocos, como a ideia de liberdade."
O conceito de liberdade - é o próprio Hegel quem no-lo recorda numa célebre passagem - veio ao mundo com o cristianismo, de acordo com o qual o indivíduo tem, enquanto tal, um valor infinito, por ser objecto e fim do amor de Deus. E, contudo, o mundo moderno recusou a realidade da libertação oferecida a todos os homens pelo único Homem-Deus, para ir atrás da utopia de uma autoredenção que qualquer indivíduo poderia alegadamente realizar com as próprias forças ou mediante a sociedade, entendida como substituto colectivo do singular. Entre Descartes e a Revolução Francesa, estabeleceu-se na Europa um sistema antropocêntrico de pensamento, que interpreta a história como processo de emancipação do homem de toda e qualquer forma de necessidade ou de condicionamento religioso, moral, cultural, social e, de maneira mais genérica, como observa o Padre Cornelio Fabro, como aspiração de desvinculação da "tirania do finito."
O núcleo comum das múltiplas formulações, primeiro teológicas, depois filosóficas, em seguida políticas, económicas e sociais, do moderno conceito de liberdade consiste num projecto de autolibertação do homem, centrado na sua emancipação de tudo quanto possa constituir um limite à expansão da sua liberdade. Neste sentido, a liberdade veio a ser definida como absoluta independência reivindicada pelo homem para as suas acções, seja relativamente à sociedade, ou ao próprio Deus.» Continua.


In "A Ditadura do Relativismo" - Roberto de Mattei

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