segunda-feira, 5 de março de 2012

O menino de Santarém e o regresso de D. Sebastião

«Foi em 1598, que o menino teria vaticinado a vinda de D. Sebastião. O facto relaciona-se, por um lado, com a morte de Filipe II, ocorrida em setembro desse mesmo ano, e, por outro lado, com a difusão de outras profecias, vaticínios e prodígios que têm lugar na mudança de século. O menino nascera a uma quinta-feira, 17 de outubro de 1596, sem provocar dores. Acontecimento precedido de sinais premonitórios. As duas horas antes do parto foram de fortíssimos trovões e relâmpagos. E, já na barriga da mãe, se mexia com tanta velocidade que parecia um peixe, dando gritos tais, que o pai lhe ouviu dar três grandes. Um dos seus prodígios foi ter começado a falar ainda não tinha um ano. Dizia-se mesmo, que o seu discurso era tão claro que parecia ter vinte anos. Com um ano, sabia todas as orações e ajoelhava-se em frente às imagens. Quando completou um ano, rezava com as mãos levantadas diante de um retábulo de S. Jerónimo, e sempre que os pais o iam espreitar tinha vergonha. Belo e formoso, tal como um serafim, o seu corpo parecia alabastro, muito proporcionado e sempre alegre. Assim o retratam algumas versões. Certa vez, pelas quatro ou cinco da tarde de uma quinta-feira, dia de S. António, 13 de Junho de 1598, o menino brincava..., quando começou a gritar: - "Mãe, mãe, há de vir o Bastião". Nessa mesma noite, depois da mãe do menino ter contado ao pai o que se tinha passado, este perguntou-lhe: - "Quem há de vir filho"? Tendo o menino respondido: - "O Bastião, o Bastião"! Ao que o pai retorquiu: - "Não filho, senão Dom António é que há de vir". Mas o menino insistiu, com um grande grito: -"Não há de vir Dom António, há de vir o Bastião"!
O pai voltou-lhe, ainda, a dizer que quem haveria de vir seria D. António. Ao que o dito menino lhe voltou a responder, desta vez com cólera e gritos muito altos, repetindo-o três vezes. Passados oito dias, estando outra vez o menino a brincar, voltou a dizer que há de vir o Bastião. Até que no mês de setembro, se soube que um D. Sebastião aparecera em Veneza. Foi então que o pai começou a fazer caso das palavras do filho. E perguntando-lhe quem havia de vir, este respondia, tão alto que o pai tinha de lhe tapar a boca, para não o ouvirem na rua: - "O Bastião"! Tendo passado mais alguns dias, o pai perguntou ao menino quando havia de vir e este respondeu que seria de noite. Vaticínio que as diversas versões tentam interpretar como indicando que o tempo da vinda do rei ou é escuro ou que tal aconteceria quando o reino estivesse às escuras.
Outro dos prodígios do menino de Santarém envolveu igualmente a figura do seu pai. Estando a ler os diálogos de vária história de Pedro de Mariz, com certeza a 2ª edição acabada de imprimir em Coimbra a 8 de Abril de 1599, o menino aproximou-se e foi perguntando ao pai o nome dos velhos que se encontravam representados naquelas gravuras. O pai começou a mostrar-lhas e a dizer os nomes dos reis que correspondiam a cada uma. Quando chegou a vez de D. Sebastião, o menino adiantou-se e pondo o dedo indicador sobre a gravura, com muita alegria e alvoroço, disse: "Há de vir o Bastião", repetindo-o três vezes. Este não será o único exemplo de um vaticínio a partir de um retrato de D. Sebastião: Em 1601, quando se dá um grande incêndio no Hospital de Todos os Santos de Lisboa, arderam todos os retratos dos reis de Portugal à excepção do daquele rei (D. Sebastião), facto que foi  interpretado como um prodígio. Voltando ao menino de Santarém, uma outra vez, folheava ele o referido livro de Pedro de Mariz, quando chegou à estampa de Filipe II de Espanha disse que já tinha morrido, insistindo nisso alguns dias, até que se confirmou a notícia da sua morte. Só, então, o pai lhe terá dito: - "Tu és profeta, pois viverás pouco". Morreu, no ano seguinte, vítima da peste. Mas o mais importante é que, numa das versões, a sua morte foi assinalada com marcas de santidade. Durante uma hora, o menino agarrou numa vela e repetiu o nome de Jesus, encomendando-lhe a sua alma. E, depois, que a sua alma se separou do corpo, este ficou muito fermoso, para ver e espantar...»


Yvette Kace Centeno in "Portugal: mitos revisitados"

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