quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A democracia enquanto veículo dos baixos princípios

«A democracia tem o defeito bem sensível de não poder, constitucionalmente, suportar, conservar no seu seio, homens superiores. Em democracia: «se um cidadão tem uma determinada superioridade, ou se alguns cidadãos são por tal forma superiores que não possam comparar-se-lhes outros nem em merecimento, nem em influência, esses cidadãos já não podem ser olhados como fazendo parte da cidade. Seria ofendê-los, admiti-los na cidade em pé de igualdade com os que tão inferiores lhes são; (...)
Vê-se bem que as leis só são necessárias para os homens iguais pelo nascimento e pelas faculdades; não havendo leis para aqueles que sobressaem aos outros, são eles a sua própria lei. Quem pretendesse impor-lhes regras, encher-se-ia de ridículo, e eles talvez tivessem o direito de dizer o que os leões de Antístenes responderam às lebres que defendiam a causa da igualdade entre todos os animais.
Foi por essa razão que se estabeleceu o ostracismo nos estados democráticos, que, mais do que quaisquer outros, são ciosos da igualdade. Tão depressa um cidadão parecia elevar-se sobre os outros pelo crédito, pela riqueza, pelo número dos admiradores ou por qualquer influência política, vinha o ostracismo feri-lo e afastá-lo da cidade.
Era como Hércules, que os argonautas abandonaram porque a sua nau declarara que o heroí era muito pesado para que pudesse transportá-lo.
Trasíbulo, tirano de Mileto, pediu a Periandro, tirano de Corinto, um dos sete sábios da Grécia, conselhos sobre o governo. Periandro não respondeu, mas nivelou um campo de trigo cortando as espigas que sobressaíam acima das outras. Não são os tiranos os únicos que têm interesse em fazer isso e o fazem; dá-se o mesmo nos estados oligárquicos e nos democráticos; o ostracismo produz aqui quase os mesmos resultados, impedindo pelo exílio que os cidadãos se elevem muito.

Isto tudo é como que uma necessidade constitucional da democracia.

Na verdade, nem sempre é forçada a exilar ou fazer cair as espigas de trigo mais altas; pode exilar, por assim dizer, no interior, isto é, recusar sistematicamente qualquer categoria ou função social ao homem que patentear uma superioridade qualquer, de nascimento, de riqueza, de virtude ou de talento, por exemplo.
É o ostracismo pela calada, como o povo diz. (...)

Aristóteles apresenta muitas vezes a questão do homem eminente. O homem eminente, escreve ele, difere do indivíduo tomado na multidão como a beleza difere da fealdade, como um belo quadro difere da realidade, alguns fragmentos de beleza que existam no real...
Não são somente os homens eminentes que incomodam as democracias; qualquer espécie de força individual ou colectiva que esteja fora do Estado ou do governo as irrita.

Se nos lembrarmos que Aristóteles assemelhou a democracia no seu estado agudo à tirania, acharemos deveras interessante o quadro resumido por ele traçado dos meios de tirania: «reprimir os que tenham qualquer superioridade, matar os homens que tenham sentimentos generosos, não permitir refeições em comum, associações de amigos, nem a instrução, excepto a que ela fornece, nem nada que a estas coisas se pareça, evitar todos os hábitos que ordinariamente são próprios para fazer brotar a grandeza de alma e a confiança, não tolerar assembleias, nem nenhuma das reuniões em que os homens passem os seus ócios, tudo isto para conseguir que os cidadãos, tanto quanto possível, se desconheçam uns aos outros.

As conclusões de Aristóteles são pessoalmente aristocráticas: «A cidade perfeita apresenta-nos grande e desagradável dificuldade.»


In "O culto da incompetência" de Émile Faguet

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