segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Do maquiavelismo nacionalista ao maquiavelismo universal

Quando Maquiavel escreve, nas últimas páginas do príncipe, a sua famosa "exortação para libertar a Itália dos bárbaros", ele aparece como o primeiro dos escritores «nacionalistas». Ainda confusamente, mas já com vigor, formula o princípio que será denominado mais tarde princípio das nacionalidades, isto é, o direito à unificação e à independência no estado de elementos nacionais dispersos ou subjugados.

Como dizia Prezzolini, «Maquiavel está sempre presente onde quer que a Itália seja unificada, armada e despojada do seu carácter sacerdotal... o próprio Duce sublinhou a sua ascendência maquiavélica, em particular num ensaio: prelúdio a Maquiavel, que apareceu primeiro na Revue de Genéve e depois como prefácio a uma reedição luxuosa de uma antiga tradução francesa do Príncipe (Paris, 1929, Helleu et Sergent). Nele declara: «Afirmo que a doutrina de Maquiavel está hoje mais viva do que há quatro séculos, porque se as formas exteriores da nossa existência mudaram muito, não se manifestam profundas modificações no espírito dos indivíduos e dos povos... O elemento fundamental da arte (política) é o homem. É daí que devemos partir.»

Estas afirmações de Mussolini marcam bastante bem a transição entre o maquiavelismo nacionalista e o maquiavelismo universal.
Já no seu tempo Maquiavel deu forma a ideias então largamente divulgadas, num estilo simples e usando uma observação mais aguda, como salientou Charles Benoist. O êxito muito rápido obtido pelos termos derivados do seu nome provam-no. Maquiavel não fez mais que precisar orientações que existiam na sua época em estado latente. No século XVI, Agripa de Aubigné, nas sua trágicas, diz: «Os nossos Reis aprenderam a maquiavelizar», isto é, a conduzir-se segundo os princípios de Maquiavel. O verbo não se manteve e já não é empregue presentemente. Em contrapartida, o substantivo doutrinal " Maquiavelismo", criado e, ao que parece, adoptado desde o século XVI, estendeu-se a todas as épocas e conquistou a terra inteira. Desde o século XVII que a expressão maquiavelismo ultrapassou a política. Há sem dúvida um maquiavelismo político, mas também há um maquiavelismo "médico", "literário", "jurídico" e "teológico". Mais tarde falar-se-á num maquiavelismo erótico e marital, fundando-se o primeiro em "A arte de amar" de Ovídio e tendo Balzac sido mestre no segundo. Existe também um "maquiavelismo romântico", representando por Lord Chesterfield, e um "maquiavelismo publicitário", que se desenvolve hoje largamente nos meios literários e artísiticos.

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