quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O regresso dos liberais II

Os seus intérpretes, oriundos dos mais diversos extractos sociais, perfilham maioritariamente a fidelidade à monarquia pura vigente na metrópole e no império.
Na sequência dos problemas suscitados pela revolução francesa e dos efeitos tremendos das guerras peninsulares no nosso país, quando, entre 1807 e 1811, os exércitos napoleónicos por três vezes o invadiram, começou-se, com ênfase crescente, a antever a necessidade de substituir o regime absoluto por um regime de liberdade, análogo ao experimentado já por outros povos europeus. Os adeptos do liberalismo esperavam que da implantação de uma nova ordem política resultasse a regeneração de Portugal e o advemto de dias melhores para o povo lusitano. E se é certo que a rapacidade dos soldados de Napoleão, como a própria ocupação de Portugal, freou o incremento da admiração que à França e aos soldados franceses alguns votavam, abrindo caminho à influência da Inglaterra, que a continuada presença britânica no território nacional acabou por esbater, também é certo que, em 1820, a situação existente era extremamente grave. Os oficiais ingleses, que entre 1808 e 1811 tinham ajudado a expulsar o invasor françês, controlavam o exército português e faziam lei na governação por intermédio do marechal Beresford. O soberano residia no Rio de Janeiro para onde fugira com a corte em 1807, a fim de não ser aprisionado pelos franceses e de lá governava sem força e sem nada eficácia. No continente operava uma regência incapaz de conjurar os problemas da nação; para o Brasil, em tempo de penúria, ia dinheiro para sustentar os cortesãos, a corte e tropas para defender esse reino dos vizinhos.
Na metrópole, os burgueses estavam descontentes com a atonia que afectava o comércio; os industriais e os artesãos tinham sido prejudicados pelo efeito devastador das guerras napoleónicas e possuíam equipamento antiquado, na agricultura, os proprietários e os que laboravam nos campos viviam mal, pois estava-se em tempo de abundância da produção agrícola e os preços de venda dos géneros eram baixos. Os portos do Brasil tinham sido abertos a navios estrangeiros, o que prejudicava os nossos comerciantes dados ao trato marítimo; o funcionalismo mal pago e venal, rendia pouco no dia a dia. De uma maneira geral os portugueses sentiam-se à mercê da influência inglesa, a grande potência marítima do tempo, vencedora de Napoleão, e sentiam-se colónia do Brasil, em cujo território residia D. João IV e o ministério.

No Porto, cidade de operosos comerciantes e industriais, dada ao comércio externo, onde vivia um funcionalismo activo e núcleos das profissões liberais esclarecidas e onde, para mais, abundavam os proprietários nortenhos descontentes com as dificuldades do mundo agrário, surgiu, em 1818, uma associação secreta, o sinédrio, idêntica a outras que a europa do tempo conheceu, disposta a analisar e mudar o curso dos acontecimentos. Essa associação preparou uma revolução tendente a impedir que o poder caísse na rua, pois antevia-se a possibilidade de o descontentamento, que grassava entre o povo afectado pela crise, desaguar em tumultos populares incontroláveis. A revolução em causa, uma vez vitoriosa, pôs termo ao regime absoluto, na sequência duma acção pacífica e original concebida por juristas, militares, proprietários e gente de negócios. Os seus autores proclama «a liberdade regrada pelas leis», propõem a introdução de reformas guiadas pela razão e pela justiça, apelam à criação de um governo provisório que chame a cortes os representantes da Grei para fazerem uma constituição que assegure os direitos dos portugueses. Não renegam, antes expressamente declaram, a sua adesão à monarquia, à pessoa do Rei e à religião católica.


"Sob o signo das luzes- Luís de Oliveira Ramos"

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