terça-feira, 30 de agosto de 2011

Os incompetentes e a maioria-II

Mesmo que exista na realidade uma questão acerca da qual todos os homens estejam de acordo, esse acordo nada prova em si mesmo; mas, além disso, se essa unanimidade existir realmente, o que é duvidoso, pois muitos homens não têm opinião sobre coisa alguma nem tão pouco a conseguiriam definir, seria em todo o caso impossível verificá-la de facto, pelo que, o que se invoca a favor de uma opinião e como sinal da sua verdade reduz-se a ser apenas o consentimento do maior número, e ainda restringindo-se a um meio forçosamente muito limitado, quer no espaço quer no tempo.

A lei do maior número (a maioria) que invocam os governos actuais e da qual pretendem extrair a sua principal justificação é simplesmente a lei da matéria e da força bruta, a lei em virtude da qual uma massa, arrastada pelo seu peso, esmaga tudo o que se encontra na sua frente; é aí que se encontra o ponto de junção entre a concepção democrática e o materialismo.

Este é o motivo pelo qual esta mesma concepção se encontra tão estreitamente enraízada na mentalidade actual. Dá-se aqui a inversão total da ordem natural das coisas, visto que a proclamação da supremacia da multiplicidade, supremacia essa que, de facto, só existe no mundo material. No mundo espiritual ou mais simplesmente na ordem universal, é a unidade que está no cimo da hierarquia, porque ela é o princípio de onde parte toda a multiplicidade. Quando este princípio é negado ou perdido de vista, só resta a multiplicidade pura, que se identifica com a própria matéria.
A multiplicidade vista fora do seu princípio, e que desse modo não pode mais ser remetida à unidade, é, na ordem social, a colectividade concebida como sendo simplesmente a soma aritmética dos indivíduos que a compõem, e com efeito é apenas isso mesmo, quando não se encontra ligada a qualquer princípio superior aos indivíduos.

Outra consequência imediata da "ideia democrática", é a negação da elite entendida na sua única acepção legítima; não é propriamente "por acaso" que democracia se opõe a Aristocracia (escusado será dizer que o autor considera a Aristocracia muito superior à democracia), esta última palavra designando precisamente no seu sentido etimológico, o poder da elite. Mas esta elite não é uma elite qualquer, tal como estão em voga hoje em dia, é uma elite no espaço, no tempo e na conduta. A elite só pode ser um pequeno número, vindo a sua autoridade, apenas da superioridade intelectual, nada em comum com a força numérica da democracia, cujo carácter essencial é de SACRIFICAR A MINORIA À MAIORIA, A QUALIDADE À QUANTIDADE, A ELITE À MASSA BRUTA.

Continua.


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