quinta-feira, 7 de julho de 2011

A questão multicultural

O multiculturalismo do ponto de vista ético baseia-se numa concepção diametralmente oposta, de características essencialmente relativistas; e, do ponto de vista filosófico, alimenta-se, sobretudo, do cepticismo e da «desconstrucção» das certezas e dos alicerces tradicionais da cultura europeia e ocidental.

A utilização da palavra multiculturalismo é recente, tendo ocorrido pela primeira vez na língua inglesa em meados do século XX. No início dos anos 1970, este termo foi instituído em simultâneo no Canadá e na Austrália, para designar as políticas públicas com o objectivo de valorizar e promover a diversidade cultural. Um pouco antes, no Reino Unido e nos EUA também tinham sido iniciadas políticas públicas que podiam ser classificadas de multiculturais. Assim, resulta claro que o multiculturalismo como política pública de estado é um produto estreitamente associado ao universo cultural Anglo-Saxónico.
O que já é menos claro é saber como se chegou à formulação de políticas públicas multiculturais, e quais as concepções ideológicas que as sustentaram. Segundo Charles Taylor (1988), o que actualmente no discurso público se designa por «multiculturalismo» é um processo que teve a sua origem na necessidade ou na exigência de reconhecimento (a qual vai para além de uma simples questão de cortesia), e que se faz sentir, sob determinadas formas, mais ou menos ligadas à acção em nome de grupos minoritários ou «subalternos». Nestes casos, a exigência do reconhecimento deriva de uma «suposta relação entre reconhecimento e identidade», significando este último termo qualquer coisa como a maneira através da qual uma pessoa se define, ou seja, quais as características fundamentais que fazem dela um ser humano.
«A tese consiste no facto de a nossa identidade ser formada, em parte, pela existência ou inexistência de reconhecimento, e muitas vezes, pelo reconhecimento incorrecto dos outros.»
Na concepção de outros autores, como Fiona Sze e Diane Powell, o multiculturalismo parte da noção de autonomia pessoal, e a sua actuação «tende a preservar a herança cultural», sugerindo estas autoras ainda que implicitamente, que o multiculturalismo funciona num único sentido, ou seja, é algo estático e conservador.

Segundo o já anteriormente citado Andrea Semprini, a questão da coesão social num espaço multicultural não deverá ser reduzida a uma «lógica binária, coesão-balcanização, ou unidade-caos», dado existirem diversos modelos de gestão do «espaço multicultural», cada um oferecendo uma perspectiva diferente sobre o problema da coesão. Estes modelos são, por um lado, o modelo político liberal clássico cujas origens se encontram na Europa dos séculos XVII e XVIII, o qual nasceu num contexto histórico de pacificação de sociedades marcadas por uma extrema diversidade cultural e religiosa, cujo culminar foi a guerra dos 30 anos (1618-1648). E, por outro lado, os modelos multiculturais, nas suas diferentes versões- o modelo liberal multicultural e o modelo multicultural maximalista- cujas raízes ideológicas se encontram nos anos 60 do século XX e na chamada nova esquerda.

A antinomia de Semprini está aqui bem à vista, na realidade, o multiculturalismo é um produto do iluminismo, embora só em meados do século XX o termo foi inventado e só a partir dessa época houve consciência desse facto. Mas a própria questão do multiculturalismo não se esgota aí. Continuarei a falar disto num próximo post.

1 comentário:

  1. "O que já é menos claro é saber como se chegou à formulação de políticas públicas multiculturais, e quais as concepções ideológicas que as sustentaram."


    caro Skedsen, isso não é nada obscuro, nem sequer "pouco claro".
    a concepção ideológica que sustentou o multiculturalismo, foi o Marxismo Cultural (ou Politicamente Correcto) nascido na Escola de Frankfurt nos anos 20, depois de teóricos marxistas como Gramsci, Lukács e outros delinearem estratégias alternativas ao Marxismo económico clássico, que não vingou na Europa Ocidental e EUA.
    era preciso destruir a cultura desses países.

    a Nova Esquerda dos anos 60 não nasce do nada, mas é, isso sim, fruto dessas teorias do Marxismo Cultural (Pol.Correcto) que já existiam muito antes, décadas antes.
    pouco depois, veio a Teoria Crítica, que visava destruir e criticar todos os fundamentos da sociedade tradicional do Ocidente, colocando-os em causa como "preconceitos".

    é essa a origem do multiculturalismo. nada tem de "obscuro".

    convém dizer que praticamente todos os teóricos da Escola de Frankfurt (que se mudaram para Nova York nos anos 30 com a ascensão do Nazismo) eram praticamente todos judeus - Lukács, Horkheimer, Adorno, Marcuse, Weil, Habermas, Fromm, etc, etc

    o Politicamente Correcto, de que falamos tantas vezes, não passa de uma forma de Marxismo disfarçada.
    ninguém se apercebe, precisamente porque não vem com a etiqueta de Marxismo e sim como "modernidade", "diversidade", "tolerância" etc, e todos esses chavões.

    espero ter ajudado, meu caro.

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