domingo, 31 de julho de 2011

Deus e o big-bang

Galileu costumava dizer aos detractores da sua época uma frase muito simples mas bem reveladora do desencontro entre a ciência e a religião. Dizia ele: «Digam-nos como se vai para o ceú e deixem-nos dizer como vai o ceú.»
O que está para além da ordem visível, não pode a ciência interpretar nem falar. Mas contrariamente a uma opinião muito espalhada, a ciência não elimina Deus, bem pelo contrário, com o advento da física quântica, Deus é cada vez mais necessário para explicar os mecanismos da ciência moderna. Deus e a ética que lhe está associada. Não é só a religião cristã que explica a criação do mundo por uma explosão de luz (big-bang), também entre os antigos Egípcios, entre os Hopis da América do norte, os Sumérios e os Hindus tal concepção era mais ou menos unânime. Este caos primordial é muitas vezes representado por uma imagem aquática, como um oceano mergulhado na obscuridade. Nada mais existia além do ceú vazio e do mar calmo, na noite profunda, conta a tradição maia. Toda a terra era mar, diz um texto babilónico. A terra era sem forma e vazia, a obscuridade estendia-se à superfície das profundidades e o espírito de Deus movia-se sobre a extenção das águas, lê-se no Génesis.
Durante dois milénios, a tradição filosófica considerou que o universo era eterno e inalterável. Aristóteles foi muito claro ao referir-se a este assunto e as suas ideias dominaram o pensamento ocidental durante mais de dois mil anos. Para ele, as estrelas eram feitas de matéria imperecível e as paisagens celestes eram imutáveis. Hoje sabemos que tal visão não corresponde à realidade, pois as estrelas nascem e morrem, mas naquela época era o máximo que se podia saber, o que quer dizer que Aristóteles não estava errado, simplesmente não havia os meios de observação que hoje existem.
Lucrécio, filósofo romano do século I a.c., afirmava que o universo se encontrava ainda na sua juventude. Porque teria ele essa convicção, um pouco avançada para a sua época? Por um raciocínio muito astucioso: desde a minha infância, dizia ele, tenho verificado que as técnicas se têm aperfeiçoado à minha volta. Melhoraram as velas dos barcos, inventaram-se armas cada vez mais eficazes, fabricaram-se instrumentos de música cada vez mais apurados...
Quando nos referimos ao começo do universo, tropeçamos inevitavelmente nos vocábulos. A palavra «origem» indica um acontecimento situado no tempo. A nossa «origem» pessoal, por exemplo, é o momento em que os nossos pais se unem e nos concebem. A nossa origem tem portanto um «antes» e um «depois». Podemos datá-la, inscrevê-la no fio da história. E admite-se que o mundo já existia antes desse instante.
Encontramo-nos neste momento como os primeiros cristãos, quando perguntavam o que fazia Deus antes de ter criado o mundo. A resposta popular era: preparava o «inferno» para os que fizessem essa pergunta. Santo Agostinho não estava de acordo e tinha percebido muito bem as dificuldades de tal interrogação, que pressupunha que o tempo existia antes da criação. E respondia que a criação fora não somente da matéria, mas também do tempo! Este ponto de vista está muito perto da ciência moderna, espaço, tempo e matéria são indissociáveis. Na cosmologia moderna, eles, aparecem juntos. Se houve uma origem do universo, ela foi também a do tempo. Não há, portanto, um «antes». Mas será mesmo assim?? Falaremos com mais promenor desta questão num próximo post.

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