terça-feira, 21 de junho de 2011

Paiva Couceiro e a desordem no mundo

«Entre os escritores de filosofia histórica que o pensamento moderno mais escuta,-dois avultam como oráculos principais: O Germânico Spengler, com o seu declínio do ocidente,- e o Russo Berdiaeff, com a sua nova idade-média. Ambos de acordo, verificam o caos do mundo. Mas diferem nas soluções. Spengler, naturalista, baseia-se no factor humano. Homens fortes construirão o mundo-novo. E a solução virá das minorias aristocráticas por eles constituídas. Estado forte, com leis e baionetas, corrigindo a anarquia, sem preocupações da moral que Deus sanciona.
Berdiaeff, essencialmente cristão, apresenta perspectivas mais super-terrenas, vendo as causas do mal no facto de o homem se ter emancipado das ideias e disciplinas religiosas, a que se subordinaria no período da idade-média. Navio sem rumo, desde que se apagou o farol de Cristo. Evidentemente, a doutrina de Spengler, casta de senhores em face do povo de servos,- nem é compatível com a dignidade humana, nem serve para homens livres. E de homens livres é tradição Portuguesa, dentro das suas corporações,- morais, intelectuais ou económicas,- embora obedientes, por conveniência própria e necessidade nacional, às hierarquias sociais e políticas.
Por conseguinte, não é de Spengler, mas sim de Berdiaeff, a doutrina que nos corresponde, visto que é o espírito desta que se conforma com a doutrina espiritualista Portuguesa.

Não teremos descanso, enquanto se mantiver a supremacia da força, quer dentro dos estados atropelando os direitos individuais, quer, pela lógica consequência, de estado para estado, desrespeitando totalmente a consciência espiritualista da civilização ocidental, sob exclusivas preocupações materiais,- sofismando os princípios, e violando as leis divinas e humanas com a dialética bruta do lobo contra o cordeiro da fábula.
Progresso Isto? Ou antes bárbaro retrocesso? Paz? Se a quisermos a sério, será preciso voltar atrás-pelo menos até ao século XVI, evocando os conceitos de Vitória e Suarez, e dos grandes teólogos e juristas de Salamanca e Coimbra, fundadores dos direitos das gentes, e definidores das suas bases morais. Ali se defendem os direitos das nações a governarem-se por si mesmas, em igualdade de situações recíprocas, seja qual for a sua força e regime; se proclama e ensina o respeito sagrado pela integridade e liberdade dos povos, pela liberdade de consciência e pela dignidade dos homens; e se apontam e descrevem, dentro desta ordem de ideias, as condições essenciais de moral e justiça, fora das quais nunca poderá existir harmonia e concórdia, entre os homens, e entre as nações.»


In "Profissão de fé- Lusitânia transformada"-Henrique de Paiva Couceiro.

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