quinta-feira, 9 de junho de 2011

Charles Maurras- um moderno anti- moderno

Alta figura da potente liga de acção francesa, Charles Maurras (1868-1952) foi uma personagem complexa que ocupava um lugar à parte na nebulosa intelectualidade francesa do século XIX. Podemos mesmo questionar se o relativo silêncio que hoje paira sobre a sua personagem não será o efeito paradoxal dessa mesma complexidade. Que facetas recordar deste personagem: o homem que defenderá a língua provençal? O poeta neoclássico? O anti-dreyfuss que coloca o interesse nacional, também chamado de «instinto de conservação», acima da justiça? O seu monarquismo? O anti-semita que aplaudiu as leis raciais editadas por Vichy? O Petainnista que, por ódio à democracia, suportará a até ao fim o regime do marechal Pétain? Como deveremos classificar as suas teses polémicas, com invectivas inflamadas e apelos constantes ao desrespeito das leis democráticas? E quem nos deixa ao mesmo tempo, a liberdade de admirar as suas obras, belissimamente escritas? E de admirar a sua língua clássica e de reconhecer a profundidade e originalidade do seu pensamento?
François Furet não hesitou em compará-lo a Tocqueville: «...como ele, escreve uma anti-história do século XIX, que, em muitos pontos, é uma crítica inteligente ao catecismo republicano.» Para defender, quase freneticamente, um contra-catecismo real. A democracia é o mal: «Um povo que se deixa embalar pela democracia perde as esperanças do futuro, opta pelo cemitério», dizia ele. A monarquia representa naturalmente » a capacidade do maior bem e do menor mal», nas minhas ideias políticas -1937. O verdadeiro Maurras vamos encontrá-lo aí, a arte da formulação, o seu lado conciliador, também algum maniqueísmo. Há algo de indefinido na sua argumentação, demasiadamente esquematizada, na opinião de outros, mas de uma dureza e de uma acutilância a todos os níveis notável. Maurras é um reaccionário. Ele olha para o passado, para o século de Luís XIV. Não lhe interessa tanto o regresso do antigo regime como a instauração de uma ordem política conforma a natureza da nação, e é esta última aspiração pelo qual batalhou toda a sua vida.

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