quarta-feira, 27 de abril de 2011

Perfil de Salazar

«O século XIX termina asfixiado de teorias e de retórica. Fatigado nas precipitações dum largo esforço de adaptação da mentalidade geral à influência das novidades do progresso, sacudido por ondas doutrinárias que o levam ao sobressalto de convulsões ideológicas contraditórias e o despertam do sonho romãntico e embalador, deixa, no lumiar da nova idade, um mistério de profecias que procuram ávidamente confirmação. Nietzsche agoniza entre brados e visões de loucura, Croce comenta o materialismo histórico e económico marxista; há um professor novo no colégio de França- Bergson; Bismarck, abandonado o espírito e o método do secretário florentino, morreu há pouco, em plena reforma.
Um homem de noventa anos- Leão XIII- pálido, uma aureóla de cabelos brancos envolvendo a vasta fronte coberta por um solideú; sorriso de bondade e olhar vivo e firme, mas enternecido, vê partir o seu antigo adversário na guerra religiosa da Kulturkampf. Em breve se encontrarão no ceú, onde o chanceler de ferro esquecerá a campanha de ideias de 78. (...) a constituição dos estados, a liberdade humana, os deveres do cidadão cristão e a condição dos operários cruzaram sobre a consciência ansiosa do mundo com os manifestos dos novos revolucionários enpenhados já na conquista de horizontes que o clarão de 89 não iluminara. Ele comanda o neo-tomismo, e a filosofia da summa mantém-se como expressão exacta da doutrina cristã. A igreja define em termos sensacionais, clara e completamente, a sua conceoção cristã da sociedade. (...)
E é precisamente no primeiro ano do século XX que o antigo aluno da escola de Vimieiro entra para o seminário de Viseu, o grande edifício de fachada imponente e severa, antigo convento dos Nerys, ao sul do campo Alves Martins.
Durante oito anos fez ali a sua formação e disciplina intelectula. O seu comportamento exemplar, o seu amor ao estudo, as manifestações da sua vigorosa inteligência destacam-no nitidamente no curso a que pertence. Metódico, rigidamente disciplinado por vocação, ordenado na escolha dos elementos de cultura, as sua provas de exame revelam sempre profundidade e segurança dos conhecimentos. Desde logo, por tendência natural, tem a preocupação de esgotar em investigação cuidadosa os assuntos propostos à curiosidade do seu espírito ou aos seus deveres de estudante. Um antigo condiscípulo desse colégio recorda-o assim: Nunca da sua boca saía uma frase inútil e muito menos de sentido duvidoso. Encobria o seu grande valor intelectual com a sua grande modéstia, que roçava pelo acanhamento.
Lealíssimo e dedicado, é querido pelos seus companheiros e sempre o primeiro classificado nas provas finais. No Vimieiro, durante as férias, quem passa pela estrada que se debruça sobre a pequena propriedade de António de Oliveira Salazar e conduz a Ovoa, vê junto do velho carvalho da encosta, ou do pequeno caramanchel, por detrás da escola, sozinho, lendo constantemente, o estudante Salazar, que podia repetir a frase de Frederico Ozanan para definir as preocupações da sua idade: crescendo na sombra e estudando no isolamento. (...)
O curso teológico que começou em 1900 com os preparatórios desenvolve os seus trabalhos sobre a natural influência das ideias do grande humanista. Quando em 1908 o estudante António de Oliveira Salazar termina os seus estudos no seminário, onde teve companheiros que foram depois vedetas da política democrática e renuncia à vida eclesiástica, os traços fundamentais da sua personalidade e do seu carácter estão definidos, a sua organização intelectual apta e constituída em bases de uma solidez invulgar.» continua.


"Perfil de salazar- Luís Teixeira"

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