sábado, 23 de abril de 2011

O problema da ignorância religiosa

«Quando Jesus, nas últimas horas da sua vida pública, apareceu diante de Pilatos para ser julgado, este perguntou-lhe: O que é a verdade ? Pilatos, apesar de a ter diante de si mesmo, com os olhos da alma vendados pela ignorância negra como a noite, não a viu. Jesus era a verdade. Como tal, a última palavra, direi melhor, a última resposta para todas as grandes interrogações de espírito. Ignorá-lo é ser analfabeto nos diversos campos por onde costuma passear, qual turista ávido de belezas (verum et belum convertuntur), a inteligência humana. Pilatos não a conheceu e, por isso, a mandou crucificar nos braços de uma cruz. Para ele, como, aliás, para todos os pilatos ignorantes, tudo era verdade excepto a mesma verdade. E só nesta verdade hão-de os homens de todas as latitudes e longitudes compreender toda a verdade...
Quando Agostinho, o Agostinho dos dramas íntimos da consciência e do coração, do prazer e da dor, da angústia e da saudade que luta com Deus como se Deus fosse um homem, a conheceu, dobra-se sobre si mesmo e, sentado, sozinho, no centro da sua alma, com o coração afogado em lágrimas, lamenta tê-la conhecido tão tarde. Se mais cedo a conhecera, mais cedo a amara esse bandeirante da felicidade- a síntese mais harmoniosa da natureza e da graça que até hoje se viu na terra. Sem ela considerava-se um inferno de si mesmo. Com ela um pedacinho de ceú envolto nas suavíssimas harmonias da liberdade interior...
Depósito sagrado dessa verdade são os evangelhos fora dos quais não é possível encontrar-se código doutrinal mais perfeito. Encerram, efectivamente, uma tal riqueza de virtualidades que nenhum século destes vinte séculos conseguiu esgotar nem conseguirão os séculos futuros. O que é de lamentar é que a sua doutrina seja uma ilustre desconhecida. E a descrença sempre aumentou na razão directa da ignorância religiosa.
Em sua encíclica de 15 de abril de 1905, aponta Pio X a ignorância em matéria religiosa como uma das principais razões da descrença contemporânea. E assim é na verdade. Ninguém pode amar aquilo que não conhece. Devido ao analfabetismo religioso, forma legiões o número de indiferentes e ateus práticos e muitos dos que se dizem católicos possuem apenas um cristianismo de luxo, de salão que se confunde com aquele formalismo da sinagoga que Jesus, tão indignamente, verberou. Porque ignorância religiosa, ausência de convicções religiosas firmes. Daí o omitirem-se, por vezes, deveres graves com a mesma indiferença com que se pretendem quaisquer obrigações da vida quotidiana. Porque ignorância religiosa, a apostasia das massas que passaram a viver á margem da igreja- a única detentora da mensagem salvadora de Jesus.»

Problemas da hora presente- Padre António M.P. Barros

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