quarta-feira, 30 de março de 2011

Joseph de Maistre- Dos pretensos perigos de uma contra-revolução IV

«É também um grande erro de imaginação que se pense que o povo tem algo a perder com o restabelecimento da monarquia; porque o povo ganhou apenas em teoria com a transformação geral. Ele tem direito a todos os cargos, diz-se; que interessa? Trata-se de saber o que é que eles valem. Estes cargos, sobre os quais se faz tanto barulho e que se oferece ao povo como uma grande conquista, nada são face ao tribunal da opinião. Mesmo o estado militar, honroso na França acima de todos os outros, perdeu o seu brilho: não tem mais grandeza perante as opiniões e a paz diminuí-lo-á ainda mais. Ameaça-se os militares com o restabelecimento da monarquia, e ninguém tem nele mais interesse do que eles. Nada há de mais evidente que a necessidade que o Rei terá de os manter nos seus cargos e dependerá deles, mais cedo ou mais tarde, para mudar esta necessidade de política em necessidade de afeição, de dever e de reconhecimento. Por uma extraordinária combinação de circunstâncias, nada há neles que possa chocar a opinião mais realista. Ninguém tem o direito de os desprezar, porque combateram apenas pela França: não existe entre eles e o Rei nenhuma barreira de preconceitos capaz de obstruir os seus deveres: ele é Françês antes de tudo. Que eles se lembrem de Jaime II; durante o combate de la Hogue, aplaudindo, na borda do mar, o valor dos Ingleses que conseguiam destroná-lo: poderão eles duvidar que o rei tenha orgulho do seu valor e os veja no seu coração como defensores da integridade do seu reino? Não aplaudiu ele publicamente o seu valor, lamentando (como era bem necessário), que ele não se manifestasse por uma melhor causa? Não felicitou ele os bravos do exército de Condé, por terem vencido os ódios que o artifício mais profundo trabalhava há tanto tempo para alimentar? Os militares Franceses, depois das suas vitórias, só têm uma necessidade: é que a soberania legítima venha legitimar o seu carácter; agora, são temidos e desprezados. A mais profunda indiferença é o preço dos seus trabalhos, e os seus concidadãos são os homens do universo mais indiferentes aos trofeús do exército. Chegam muitas vezes a detestar estas vitórias que alimentam o humor guerreiro dos seus senhores. A restauração da monarquia dará subitamente aos militares uma alta posição na opinião pública. Os talentosos recolherão no seu caminho uma dignidade real, uma ilustração sempre crescente, que será propriedade dos guerreiros e que eles transmitirão aos seus filhos. Esta glória pura, este brilho tranquilo, valerão bem as menções honrosas e o ostracismo do esquecimento que sucedeu ao cadafalso.» Joseph de Maistre- considerações sobre frança

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