segunda-feira, 28 de março de 2011

Joseph de Maistre- Dos pretensos perigos de uma contra-revolução

«É um sofisma muito habitual nesta época insistir sobre os perigos de uma contra-revolução para se declarar que não convém voltar à monarquia. Um grande número de obras destinadas a persuadir os Franceses a agarrarem-se à república são apenas o desenvolvimento desta ideia. Os autores destas obras apoiam-se nos males inseparáveis das revoluções: depois, observando que a monarquia não se pode restabelecer em França sem uma nova revolução, concluem que é necessário manter a república. Este sofisma prodigioso, seja porque tem a sua fonte no medo ou na vontade de enganar, merece ser cuidadosamente discutido. As palavras engendram quase todos os erros. Está-se habituado a dar o nome de contra-revolução a um qualquer movimento que deve matar a revolução; e porque esse movimento será contrário ao outro, conclui-se que será do mesmo género. Seria necessário concluir o contrário. Alguém se persuadiria que o retorno da doença à saúde é tão penoso como a passagem da saúde à doença? e que a monarquia, derrubada por monstros, deverá ser restabelecida por homens semelhantes? Ah! Que aqueles que empregam este argumento lhe façam justiça no fundo dos seus corações! Eles sabem suficientemente bem que os amigos da religião e da monarquia não saõ capazes de nenhum dos excessos com que os seus inimigos se desonraram; sabem suficientemente bem, que, no pior extremo e tendo em conta as fraquezas da humanidade, o partido oprimido encerra mil vezes mais virtudes que o dos opressores! Eles sabem suficientemente bem que o primeiro não se sabe defender nem vingar: frequentemente troçaram dele sobre este assunto. Para fazer a revolução Francesa, foi necessário derrubar a religião, ultrajar a moral, violar todas as propriedades e cometer todos os crimes: para esta obra diabólica, foi necessário empregar um tal número de homens viciosos que jamais tantos vícios agiram juntos para operar um qualquer mal. Pelo contrário, para estabelecer a ordem, o Rei convocará todas as virtudes: ele o quererá, sem dúvida; mas, pela natureza mesmo das coisas, será forçado a isto. O seu interesse mais premente será aliar a justiça à misericórdia; os homens estimáveis virão por si mesmos colocar-se nos postos em que poderão ser úteis; e a religião, emprestando o seu ceptro à política, dar-lhe-á as forças que só ela pode conseguir junto da sua augusta irmã. Não duvido que uma multidão de homens pede apenas que lhe mostrem o fundamento destas magníficas esperanças; mas alguém acreditará que o mundo político marcha ao acaso e que não é organizado, dirigido, animado por esta mesma sabedoria que brilha no mundo físico? As mãos culpadas que derrubam um estado operam necessariamente dolorosos despedaçamentos; porque nenhum agente livre pode contrariar os planos do criador, sem atrair, na esfera da sua actividade, males proporcionados à grandeza do atentado; e esta lei peretnce mais à bondade do grande ser do que à sua justiça. Mas, logo que o homem trabalha para restabelecer a ordem, ele associa-se ao autor da ordem: ele é favorecido pela natureza, quer dizer, pelo conjunto de causas segundas que são os ministros da divindade. A sua acção tem qualquer coisa de divino; é em simultâneo doce e imperiosa. Ela não força nada e nada lhe resiste: dispondo das coisas , ela estabelece a saúde: à medida que opera, vê-se cessar esta inquietude, esta agitação penosa que é o efeito e o sinal da desordem, como, sob a mão do cirurgião hábil, o corpo animal magoado é avisado da reposição pela cessação da dor.» Joseph de Maistre- considerações sobre frança

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