terça-feira, 6 de abril de 2010

Revolução ano zero-II

« Começávamos a conhecer-nos, escreveu no seu jornal o barão de Gauville. Aqueles que estavam ao lado do rei e da religião acantonaram-se à direita do presidente, afim de evitar os gritos, as propostas e as indecências que passavam do lado oposto». Tornou-se impossível escapar a esta lei: « experimentei enquadrar-me nas diferentes partes da sala e de não ter lugar marcado, para poder ser mais incisivo nas minhas opiniões, mas fui obrigado a abandonar a parte esquerda ou estaria condenado ao isolamento e aos apupos das tribunas». Marcel Gauchet cita este testemunho no livro « a direita e a esquerda». Uma tal divisão provocava uma forte repugnância a qualquer concepção partidária. Afirmação da vontade geral do lado revolucionário, culto aristocrático e independência do outro lado impediam o reconhecimento de qualquer partido. Mas a verdadeira oposição, começou nos bastidores, onde a concepção monárquica da unidade da autoridade, foi deslocada e revestida pelos revolucionários em torno da figura da nação. De seguida, no jogo das assembleias revolucionárias, toda a minoria será rapidamente condenada à sedição, e por fim à submissão. Num primeiro momento, a direita constitui-se à volta de duas figuras de ordem fundamental: Deus e o rei. Tudo gira à volta da discussão do artigo X da declaração dos direitos do homem e do cidadão, que, a 23 de agosto de 1789, proclama que « ninguém pode ser importunado pelas suas opiniões, mesmo religiosas, desde que as suas manifestações não perturbem a ordem pública estabelecida pela lei». O respeito pela liberdade religiosa esta´dependente da vontade da autoridade política, prefigurando a constituição cível do clero de 1791. O debate provoca uma divisão física na sala. E alguns dias mais tarde, a deliberação sobre a distribuição do direito de veto ao rei cristaliza a separação. À direita, os partidários do veto; à esquerda, os que recusam ao rei a autoridade superior em matéria legislativa. Que a separação partidária se estabeleça a propósito da prerrogativa real seria previsível. Não foi este o caso em que, um século antes, surgiram os dois primeiros partidos da história política moderna, quando em inglaterra os defensores do poder real foram baptizados de «tories» e os defensores dos direitos do parlamento os «whigs»?
A direita francesa teria ela podido constituir-se como em inglaterra à volta da afirmação da prerrogativa real? A vaga pós-revolucionária decidiu o contrário, rejeitando em absoluto os partidários da instauração do veto real no campo reacçionário. Em suma, não foi possível a coexistência dos partidários dos dois poderes. A restauração não mudou nada: se, por uma ironia da história, foram os mais ardentes monárquicos que, dominando a assembleia, impuseram o papel do parlamento no governo efectivo da nação, com o apoio objectivo dos liberais reunidos à volta de Guizot, os últimos visados de uns e outros eram radicalmente antagonistas. A 10 de outubro de 1820, numa carta ao seu ministro favorito Decaze, Charles X só se lamentava: « Oh, tories, oh whigs, onde estais?». Uma parte dos males da direita tem a ver com esta impotência de habituar-se ao sistema dos partidos. Nem com eles, nem sem eles: tal foi um dos resultados do drama. No fundo, esta impotência não era somente a consequência do primado da concepção unitária do poder e da autoridade, de uma reticência secular aos princípios da governação representativa. Era também a expressão de uma impossibilidade saída da impossibilidade de haver entendimento sobre a legitimidade do regime, de uma deficiência constitucionalizada no governo da nação.
« Os únicos partidos perigosos são aqueles que conservam pontos de vista opostos concernantes aos princípios essenciais do regime, a sucessão da coroa ou os privilégios mais importantes dos diferentes membros da constituição», escrevia nos meados do Séc.XVIII o filósofo inglês David Hume, defendendo a existência dos partidos num quadro de regime liberal. Esta foi a situação perigosa do qual a frança não logrou sair, pelo menos até à 3ª república nos anos de 1880, e particularmente após a concentração dos católicos em resposta à encíclica do papa Leão XIII « solicitadamente» convidaram os fieís a aceitar o regime. Mas o tempo e a prática não foram suficientes para fazer desaparecer a contestação radical do regime de horizontes ideológicos não somente de esquerda, mas também de uma parte da direita. « A revolução nacional» à volta do regime de Vichy seria a expressão máxima da incapacidade de sair do antagonismo da revolução e da monarquia. A recusa de uma sociedade democrática e individualista estendeu o seu reino sobre a consciência da direita, de Louis de Bonald a Charles Maurras.Durante muito tempo uma parte da direita francesa estava tentada a acabar com a república, muito mais intensamente do que nos anos 30 quando a república aparentava impotência total. Mas em 1945, o governo de vichy não foi capaz de manter vivo o sonho de uma sociedade corporativista. A direita foi assim condenada à desqualificação política. Tudo começou com os monárquicos Jean Joseph Mournier, Pierre Victor Malouet ou Clermond Tonnérre, moderados e partidários de uma monarquia à inglesa. estes foram os primeiros derrotados, os primeiros a abandonarem a cena política, cedendo o seu lugar a esquerdistas, como os Feuillants, os girondinos,e, à direita, aos monárquicos intransigentes, rapidamente enfileirados na causa contra-revolucionária. ( continua).

Tradução feita da revista le nouvel observateur.

Sem comentários:

Enviar um comentário