segunda-feira, 5 de abril de 2010

Revolução ano zero-I

Em 1789, a deliberação do outorgamento do direito de veto ao rei, cristaliza a separação entre direita e esquerda nos bancos da assembleia nacional constituinte. Uma divisão que poderia ter dado nascimento a uma monarquia constitucional "à inglesa".


Na consciência colectiva, a «direita», designa uma orientação política mais ou menos definida mas de forma nenhuma com qualquer partido associado. O País que inventou a Sumo Divisio entre a direita e a esquerda é também aquele que tem mais dificuldades em estabelecer um partidarismo bipolar. O facto é bem conhecido. Raymond Aron fez deste facto um dos temas da sua obra «Opium des intellectuels», publicado em 1955: em frança, falamos tanto de direita como de esquerda e nem uma nem outra têm unidade efectiva. A história política francesa põe em cena as direitas e as esquerdas. Mais ou menos na mesma época, René Rémond terminava uma publicação que realçou a história das direitas: ele estabelecia a permanência e as metarmofoses de 3 famílias políticas cuja caracterização as remete explicitamente aos inícios do final da revolução francesa: os «legitimistas» por fidelidade á árvore genealógica dos Bourbon, os «orleanistas» em deferência ao primo de Luís XVI e os «bonapartistas». Cada uma das famílias das direitas associaram-se a regimes diferentes: a monarquia reestabelecida que se «outorga» uma carta própria em 1814, a monarquia constitucional de Louis -Phillipe estabelece« pela vontade dos franceses» em 1830, o império plebiscitário instaurado por Napoleão Bonaparte em 1851. A pluralidade das direitas é um facto estabelecido ao qual se junta a evolução das clivagens no tempo que doravante classificam de direita certos personagens de esquerda nas suas épocas. Outras denominações são sem dúvida mais eloquentes para caracterizar as direitas: tradicionalistas,conservadores, liberais, populistas e autoritários.
Contudo, estas distinções no seio das direitas parecem estar a perder pertinência. E então que, durante muito tempo ser-se de direita, era antes de tudo não ser de esquerda, o tabu identitário da direita francesa parece levantar-se. As condições da eleição de Sarkozy à presidência francesa atestam-no: as referências que tinham até então estruturado o posicionamento e as divisões da direita francesa esfumaram-se. O sonho da constituição de um partido conservador à inglesa, que desde à dois séculos ocupa o imaginário unitário da direita, está provavelmente longe de se realizar. Como o poderiam , se a natureza das clivagens políticas parecem cada vez menos ligadas à identificação partidária? A normalização e a unificação superficial da direita francesa evidencia sem sombra de dúvidas um enfraquecimento no seu curso histórico. Talvez seja um dos efeitos do esgotamento da substância nacional. Retornemos à tripartição de Rémond pois ela dá-nos o essencial, que é a incapacidade crónica da direita francesa entender-se sobre a natureza do regime. Por via das suas divisões, com muita equidade se questiona a ordem constitucional de uma nação em que o absolutismo abalou os contornos políticos pós-revolucionários. (...) a direita e a esquerda são filhas da revolução. O antigo regime não desconhecia as lutas de facções, mas, para advirem as premissas da política partidária, uma condição se revelava necessária: o estabelecimento de um círculo político fechado que pudesse quebrar as linhas delimitatórias da sociedade. E quando isso foi conseguido, no dia 17 de junho de 1789, os representantes do terceiro estado, concebendo-se como elementos comuns da sociedade, deixaram os estados generais para se constituírem em assembleia nacional constituinte onde o voto por ordem é substituído pelo voto por cabeça. O juramento fundador desta assembleia a 20 de junho, compõem-se de palavras audaciosas: « a assembleia nacional, considerando o apelo de fixar a constituição do reino, de operar a restituição da ordem pública e manter os verdadeiros princípios da monarquia...» « constituição do reino», « verdadeiros princípios da monarquia»: tudo estava dito nesta ambição de estabelecer os fundamentos da legitimidade. Não seria proclamar que a monarquia não tinha mais constituição estabelecida nem verdadeiros princípios. A deliberação operada sobre os princípios iria tornar visíveis as divisões políticas. Tudo começaria pelo agrupamento físico, à esquerda da assembleia, dos mais ardentes proclamadores da liberdade e, entrincheirados no canto direito da sala, os defensores da monarquia tradicional.(Continua).

Tradução feita da revista Le nouvel observateur.

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