quinta-feira, 15 de abril de 2010

Liquidar o maio de 68

" A meio caminho do optimismo Rousseauísta e do pessimismo reacçionário, o pensamento liberal assevera que o homem é capaz do pior, mas suficientemente bom para ser livre. Quase se poderia dizer, liberdade não é licença."



« O princípio do socialismo é muito simples. O homem é chamado para a liberdade. Será então, necessário, que ele seja digno dessa vocação, ou seja, que seja bom. Rousseau, o primeiro intérprete desta teoria, reescreve o recital bíblico da queda. O mal faz parte do mundo não porque um homem ou mulher assim o quis, mas por «manifesto azar», a invenção da propriedade privada, que nos obriga a escolher entre nós e os outros. O mal não entrou no mundo com Adão, um indivíduo, mas sim com a vida colectiva. O homem é inocentado, a sociedade posta em causa. Nós tornámo-nos maus porque somos alienados pela sociedade, de onde vem o mal e consequentemente é conveniente mudar. Libertámo-nos do mal não com discursos edificantes, não por uma pressão social que permita assegurar um mínimo de conformismo moral, não por um ascetismo que estrangule à nascença os nossos maus instintos, mas sim, transformando a sociedade que nos torna infelizes e maus.
Não é para acusar-se dos seus pecados como o fez S. Agostinho que Rousseau escreve as suas «confissões»; é pelo contrário para se justificar e desculpar. A raíz do mal não é mais a propensão do indivíduo querer igualar-se a Deus, mas a dependência da atenção dos outros, a tendência de se comparar aos outros. A questão de fundo não tem mais a ver com a relação vertical relativamente ao criador, tem é a ver com a relação horizontal entre os homens. Os problemas não têm tanto a ver com o indivíduo concreto, mas sobretudo com a organização colectiva, e é por isso que pensadores e seguidores de Rousseau inventaram uma nova ciência para compreender o problema humano: a sociologia, e uma nova doutrina política que lhe corresponde, o socialismo. Alienado pela sociedade, o homem deve analisar esta alienação, e desfazer-se dela energicamente. O homem revela-se maneável, profundamente dependente do contexto social, e, por conseguinte, perfectível; uns dirão que pela educação, outros dirão que pela revolução, todos se reconhecerão na ideia do progresso. Diferentemente de Rousseau, todos os que se empenharam neste empreendimento deram provas de um optimismo contagiante.
Os reacçionários contradizem perpendicularmente esta análise. Eles inclinam-sesobre o mal no homem e interrogam: porquê dar liberdade aos que farão mau uso dela? O reacçionário aspira não a mudar a sociedade, mas a aceitar o homem tal como é-ou pelo menos, tal como o vê- o mesmo é dizer, essencialmente corrompido pelo pecado original. No seu « exame de um escrito De Jean-Jacques Rousseau», Joseph de Maistre, o grande adversário da revolução francesa escreve : «É impossível que o homem seja o que ele for, não seja governado, pois um ser social e para mais mau, deve estar sob algum tipo de jugo.» O homem é muito mau para ser livre, muito perverso para se lhe perguntar a sua opinião, que se faça depender o governo do seu consentimento. Quanto mais se insistir sobre a deprevação, a baixeza do homem, mais se justifica um governo rigoroso, um estado absoluto. Para a escola reacçionária, toda a autoridade é boa, desde que justificável:o magistrado é bom; o povo, corrupto. A primeira necessidade da sociedade não é nem a liberdade nem a igualdade, mas é a autoridade que impõe a ordem como deve ser: de cima para baixo. A democracia liberal, que promove a liberdade e a igualdade aparece como um ideal estranho e irreal. É necessário contrapor-lhe um robusto regime autoritário. Uma objecção vem-nos imediatamente à cabeça: porquê o governo escaparia à corrupção universal? Se os homens são injustos, não se vê porque milagre o magistrado escaparia a essa injustiça. De Maistre não ignora esta objecção, opondo-lhe a figura do príncipe: « a comunidade e a abominável política de maquiavel têm um só e mesmo problema: como um assasino pode prevenir um outro?» Se o mal está em todo o lado, também está no príncipe! Para quê um regime autoritário? A resposta de Joseph de Maistre é uma só palavra: Deus.
Enquanto que maquiavel exclui toda a teocracia, de Maistre afirma que todo o poder tem uma base teocrática. Deus fornece às autoridades uma garantia que permita instalar um pouco de ordem no meio da desordem. Contrariamente ao povo, o magistrado é susceptível de ser bom, pois Deus confere aos poderes terrestres uma dignidade particular.
Seríamos tentados a escrever, tal como o faria um pensador liberal do séc.XIX: «nunca li nada de De Maistre, e estou contente por não pensar como ele.» « Temos de nos regozijar que a direita contra-revolucionária que se inspirou em De Maistre tenha sido aniquilada, assim como a esquerda revolucionária.» No entanto, a questão que opunha de Maistre a Rousseau, não perdeu actualidade. O problema do mal não é, evidentemente, reduzir-se à importância que lhe davam as escolas da direita no séc.XIX. Basta ver as leis penais para se perceber um novo problema. À esquerda, continua a ver-se os criminosos como vítimas da sociedade- vítimas da pobreza, vítimas do seu meio. Novos determinismos sociais e económicos estão a nascer, aos quais o homem não pode escapar sem uma transformação da organização social. Temos de estar sempre inclinados a perdoar os criminosos. A sociedade tem muito que perdoar. O essencial não é a punição, mas sim, a reeducação, a reinserção. À direita, numa veia anti-rousseauísta, existe uma responsabilidade individual que nada tem a ver com a dimensão social. O castigo honra o criminoso, pois admite-se que o culpado era livre de não ignorar a lei. Pelo seu acto, o criminoso exclui-se da comunidade cívica na qual ele se revela incapaz de cumprir as regras estabelecidas. O essencial não é a posição social que o crime supostamente reflecte, mas a violação das leis que tornam possível a vida em sociedade. Como escapar a esta alternativa entre direita contra-revolucionária e esquerda socialista revolucionária? Existirá entre estes dois extremos uma posição intermédia? Tratando-se de políticas penais, por exemplo, é assinalável que, desde Montesquieu, os liberais começaram a contestar a utilidade de certos castigos muito crueís, sem no entanto, aderirem a políticas de esquerda. Todos sabemos que algumas punições são demasiadamente severas, desumanas e até inúteis, que a prisão é frequentemente um foco de corrupção e de tráficos, e não obscurecendo o elemento fundamental: os culpados são culpados antes de serem vítimas, e as verdadeiras vítimas não são os culpados, mas as vítimas dos culpados. Os socialistas e a direita contra-revolucionária, que se opõem mutuamente, estão de acordo num ponto não negligenciável. De um lado e do outro, sustenta-se que a liberdade individual só tem a ganhar se for limitada, essencialmente porque antes de tudo, se trata de organizar ou reorganizar a sociedade, e também trata-se de estabelecer uma estrutura de comando vertical. Socialistas e direita recusam com a mesma energia a subordinação da sociedade à finalidade que os liberais lhe consignam: a defesa da liberdade individual. Socialistas e direita entendem-se para recusar as concepções liberais do estado de direito e da separação de poderes.No fundo,partilham o desejo de simplificar a antropologia: o homem é bom e mau. Os liberais concedem à direita que o homem é capaz do pior, juntando-lhe sempre um elemento optimista. De certa forma, o liberalismo pressupõe que o homem é suficientemente bom para ser livre. Como explica Montesquieu, « os homens, larápios em detalhe, são na sua essência pessoas muito honestas.». O homem é honesto e trabalhador, e gosta da liberdade da qual retira excelente partido. De outra forma, o liberalismo pressupõe que o homem é mau e organiza a sociedade partindo desse pressuposto. Bem longe de combater o mal, ele acomoda-se em nome de um racioçinio simples: mais vale servir-se dos vícios em virtude do interesse generalizado do que os afrontar em vão. Em vez de ingenuamente pensar-se que se pode criar um povo altruísta, mais vale tomar partido do pecado original e arranjar o mundo para homens egoístas, de maneira a tirar algum bem do mal. Inclinados a ver as coisas só pelo lado positivo, os liberais igualmente se inclinam a ignorar os aspectos mais deploráveis da existência. Esta combinação encerra em si um paradoxo. Os amigos da liberdade pareceriam reinvidicar um optimismo de fundo: porquê discutir a liberdade individual se temos confiança nas qualidades do ser humano? Todavia, os teóricos do liberalismo afirmam com muita franqueza: o ser humano nem sempre é recomendável. «Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário», lê-se sob a pena de James Maddison, um dos fundadores do regime americano, que não se retém de acrescentar: « como os homens não são anjos, nenhuma liberdade é justificável.» A diferença entre a esquerda revolucionária e a direita contra-revolucionária em relação ao liberalismo, é que os liberais não vêm aqui qualquer contradição, mas antes um fecundo paradoxo.
Depois deste desvio, voltemo-nos para a liquidação da herança do maio de 68. Durante o mês de maio de 1968 viveu-se um carnaval improvisado: tomou-se o gosto pela desordem para melhor apreciar a ordem; mas a ordem, ela própria, já estava completamente transformada. De inspiração esquerdista, o movimento é dirigido simultaneamente contra a direita contra-revolucionária e contra o socialismo organizador. Os contestários voltam as suas atenções aos dois velhos adversários do liberalismo. Eles acham, evidentemente, que estão a combater a burguesia liberal-reputadamente bem pensante-à qual eles contrapõem o seu cepticismo moral. Depois do carnaval, a sociedade evoluiu. As pessoas passam a tratar-se por tu, houve a emancipação da mulher, e outras coisas mais. A autoridade foi sendo posta em causa, sobretudo a igreja, o pai de família, o partido, os professores. Primeiro visado por uma revolta que era antes de tudo uma revolta estudantil: o mundo do ensino. Sob a influência do maio de 68, uma pedagogia mais ou menos directamente influenciada pelas análises de Rousseau no seu «L´emile» parece impôr-se um pouco por todo o lado- um rousseauísmo sem a sua dimensão política, sem a exigente cidadania do « contrato social» um tema anarquista que não teve paralelo até então, fez a sua aparição na cena política e social. A escola e a universidade, enquanto instituições de ensino, são objecto de uma suspeição generalizada. A ideia progressista do professor primário ser o embaixador local do iluminismo é substituída pela ideia pós-moderna do professor primário cúmplice de genocídios culturais, que hesita em transmitir saberes bem determinados- a ideia republicana de escola como motor de promoção social é substituída pela ideia de uma escola agente da reprodução das desigualdes que favorece transmitindo a cultura dominante aos dominados. A organização da vida escolar( repartição do tempo, repartição das disciplinas, lugar do professor e dos alunos) é analisado não como um modo de aprendizagem da liberdade, mas como um meio de endireitamento e arregimentação. É conveniente então que o professor preste o máximo de atenção às particularidades culturais dos seus alunos, e que cesse de impôr de alto a baixo o saber do qual ele seria o detentor. Assim se enfraquece a autoridade do professor, ao qual se pede que « escute os seus alunos». O aluno é bom, e a instituição- que não presta-devem ter o cuidado de não corromper o aluno.
Com o tempo, a dimensão revolucionária do maio de 68 desapareceu, e apenas deixou uma dimensão anarquista de onde se faz uma boa ilustração com a figura do bohémio burguês. O regime procedente do movimento revolucionário vai buscar elementos da burguesia clássica, que o próprio regime passa a aceitar: o medo da morte e a paixão pelo materialismo, juntando-lhe ainda, contra a moral burguesa, este elemento bohémio. O advento da nova burguesia provoca uma questão de fundo: é mais liberal ou menos liberal que a burguesia clássica? Pode-se sustentar que o elemento bohémio coadugna-se na perfeição com um maior liberalismo. O verdadeiro imperativo moral, independentemente da autonomia de cada um, é a tolerância para com os outros. O dever da correcção fraternal, com o seu cortejo de pressões sociais não é mais reconhecido como legítimo,daí o novo código de polidez que é o politicamente correcto. O carácter imperativo deste novo código convida entretanto a perguntar se o antigo conformismo não cedeu o seu lugar a um novo conformismo, não menos intolerante do que o primeiro. Não é nada seguro, bem pelo contrário, que o pôr em causa a autoridade sirva verdadeiramente a causa da liberdade. Quando « o pai de família se torna criança e passa a temer os seus filhos» quando « o professor receia os que frequenta as suas aulas», os aduladores, « e que façam pouco caso do professor e das autoridades em geral», não estamos longe da tirania: « a liberdade excessiva transforma-se em escravatura excessiva» ( Platão). Em 1969, no final de um diálogo tumultuoso com os estudantes de Vincennes( subúrbio parisiense) que punham em causa a sua autoridade enquanto professor com toda a impertinência que convinha, Jacques Lacan proferiu estas palavras: « se aquilo que aspirais como revolucionários, é um professor, tê-lo-eis.»
O regime político liberal funcionava com uma certa severidade: moralmente, os instauradores da 3ª república não eram muito diferentes do clero que diziam combater. A democracia liberal pode ela funcionar com burgueses bohémios? Este regime é separável de um certo conservadorismo dos costumes? A sociedade democratizou-se, mas até que ponto esta democratização é verdadeiramente liberal, no sentido político do termo? A herança do maio de 68 remete-nos para uma distinção clássica, que hoje em dia já está mais esbatida, entre a licença( democrática) e a liberdade( Liberal). A liquidação definitiva do maio de 68 acontece por motivos reacçionários e socialistas, mas também, por motivos liberais.


Tradução feita da revista- Le nouvel observateur.

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