domingo, 28 de março de 2010

O mistério humano

« Eccles inicia a sua argumentação perguntando se, em contraste com a doutrina do mecanicismo, pode existir uma teologia natural enquanto ciência, como a química e a física, sem referência à revelação. Podemos nós, ao observar a realidade, chegar a uma conclusão acerca da existência de Deus? Os factos da natureza revelam uma presença ou um plano divino?
C.S. Sherrington um dos mestres de Eccles, escreveu sobre a mesma questão: " O campo da teologia natural é seguramente avaliar, a partir de todas as provas deriváveis da natureza, se a natureza, no seu todo, significa ou implica a existência do que com reverência é designado por Deus; e, se assim é, igualmente com toda a reverência, que tipo de Deus?"
O mistério humano, segundo Eccles, é apresentado nestes termos: como é que o mecanicismo materialista da evolução biológica foi capaz de gerar seres com autoconsciência e valores humanos? Como podemos explicar o dualismo da natureza humana- o corpo e a mente e a interacção entre a mente e o cérebro?
Em física , o materialismo mecanicista era a base para explicar a realidade, mas já não o é. Em biologia, ainda é usado como uma base para explicar a vida. Na teoria da evolução, é a base para explicar o desenvolvimento de seres com autoconsciência e valores. Na sua forma mais radical- o materialismo monista- é a doutrina em que todos os aspectos da humanidade-os nossos pensamentos, as recordações, as decisões, a criatividade nas artes e nas ciências,e os valores- são explicáveis de uma forma determinista e materialista, em que não prevalece o resíduo de uma componente mental ou não-material.
(...) Em oposição ao materialismo monista, vários investigadores, em particular Sherrington,Popper e Eccles, propuseram uma perspectiva dualista-interaccionista, segundo a qual a mente é tão real como o mundo material, existe independentemente do mundo material e é capaz de interagir com ele. Nesta perspectiva, a mente e o cérebro são entidades independentes que interagem através de uma fronteira hipotética que permite, de um modo (ainda) não explicado pela ciência, o fluxo de informação, mas não permite o de energia. O problema com a perspectiva dualista-interaccionista, na opinião de Sherrington era que:

"Nenhum atributo de energia parece detectável no processo da mente. Essa ausência dificulta a explicação do vínculo entre o cerebral e o mental. Onde o cérebro está correlacionado com a mente não há meios microscópicos, físicos ou químicos que detectem qualquer diferença radical entre si e outro nervo que não se correlacione com a mente. Por mais que se faça, ambos permanecem refractariamente separados. Parecem díspares: não mutuamente conversíveis; intraduzíveis, em relação um ao outro.
Então, os nossos dois conceitos, a energia do espaço-tempo perceptível e a mente imperceptível não extensa, estão de certa forma acasalados, mas a teoria não tem nada a submeter quanto ao modo como podem estar assim. A vida prática pressupõe que estão assim e, com base nesse pressuposto, descobre situação após situação; no entanto, não tem resposta para o dilema básico de como os dois combinam."

Apercebemo-nos agora que o problema de Sherrington já não é um problema. No mundo quântico, o mental e o cerebral- o que tem aparência mental e o que tem natureza material- já não estão refractariamente separados, mas interagem de uma forma íntima, em que, aparentemente, a matéria desponta de estados de aparência mental. Não é necessário um fluxo de energia nos processos sensíveis à da informação para afectar a aparência de um evento macroscópico. Quando fenómenos fisicamente energéticos podem ser afectados unicamente pelo fluxo de informação, não é tão despropositado que a mente seja capaz de afectar sistemas quânticos da mesma forma, sem necessidade dos mecanismos sensíveis à energia do espaço-tempo. Em alternativa, onde as interacções da mente e da matéria violem temporariamente a conservação de energia, o princípio da incerteza de Heisenberg fornece uma base sobre a qual podem assentar tais processos.
Para Eccles, o materialismo monista era uma doutrina inaceitável porque, como afirmava, "não era uma base para uma vida com valores." Não há lugar para as mentes humanas no mecanicismo do relógio de Newton. A perspectiva mecanicista do universo destruía toda a base da existência de Deus- "sem necessidade dessa hipótese", como afirmou peremptoriamente Laplace. Num mundo mecanicista, os sentimentos de liberdade e responsabilidade são ilusões e irritações. São, no entanto, uma parte do grandioso mistério da nossa existência.
O mistério humano, então, reside na forma de explicar a nossa existência pessoal. " Este mistério", declarou Eccles, " é o valor supremo do nosso mundo", porque ele acreditava que somos criaturas com um significado sobrenatural, parte de algum grande desígnio.»


In : Em busca da realidade divina- Lothar Schafer.

3 comentários:

  1. Camarada, não sei o que se passa com os comentários que deixas na minha caixa, que já são dois que vou para publicar e aparece-me o registo de que nenhum comentário foi seleccionado, apesar de evidentemente ter sido. Mas só tem acontecido com os teus, o que é que achas que se passa? saúde!

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  2. Errado, afinal este último foi publicado, apesar de ter aparecido a mensagem em contrário. Mesmo assim há um que não consegui lançar.

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  3. Não sei o que se passa na realidade,vou investigar.Abraço.

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