quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O estado e a nação

«Para bem definir o sentido desta frase que exprime em síntese todo um programa nacionalista-é necessário pôr em relevo a distinção profunda que em Portugal se manteve sempre entre o estado e a nação e salientar ainda certas características destas duas entidades.
É curioso notar desde já,que cabendo ao estado o papel primacial de manter a ordem, tem sido ele o principal agente provocador de todas as desordens e de todas as revoluções.
Viu alguém por acaso,nesses combatentes de rua com que periodicamente damos ao mundo o mais vergonhoso dos espectáculos, envolvidas as forças produtoras da nação:a indústria,o comércio,a agricultura?
Quem prepara as revoluções e nelas colabora é sempre o estado,representado pelas suas forças políticas e pelas suas forças militares. A nação assiste intimamente perturbada e triste, o desenrolar dos acontecimentos,procurando sempre manter a sua actividade através das dificuldades e dos perigos da luta armada,mas abstendo-se sistematicamente de tomar parte nela.Após a revolução vem a suspensão de garantias, as violências, os vexames, as leis de excepção, as medidas económicas restritivas.Para os revolucionários? Não.Para o país inteiro que à revolução se manteve alheio e lhe sofreu as consequências, sempre desastrosas, eos encargos sempre pesados.Podia o estado, após a desordem que ele próprio criou,fomentou e fez explodir com ruído, manter intactas as liberdades individuais e resolver as suas lutas intestinas e cevar os ódios mesquinhos dos seus elementos representativos, sem perturbar e ferir a nação que tranquilamente quer trabalhar e viver. Pois é precisamente contra a nação inocente, que se volta a sua fúria de vingança.
Os que à sombra da revolução alcançaram o cobiçado exercício de poder logo tratam de reorganizar ministérios e repartições para que novos lugares surjam, onde se acomodem os seus agentes de confiança,sem que perturbadas sejam as comodidades dos adversários vencidos, ilegitimamente ganhas nas revoluções anteriores.A onda de novos funcionários públicos cresce a cada nova revolução e com ela a das despesas públicas.
Ao banco dos reús é chamado só o país inocente, para pagar as custas do processo com o produto das suas liberdades individuais,duramente conquistadas em séculos de evolução, e com as pobres migalhas do seu incansável e persistente labor.Este tem sido e há-de ser sempre um dos aspectos do estado, comum a todas as cores e bandeiras.É o estado desordeiro,perdulário e tirano, que se olha a si próprio como indivíduo independente, estranho e superior à nação».



In Doutrina nacionalista-J.Perpétuo da Cruz (1928)

Sem comentários:

Enviar um comentário