segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Bonald e de Maistre os anti-luzes-III

Pela dualidade das leis e do progresso económico,o modernismo dissolve a família,o primeiro grupo social.Geralmente,o grupo social,que se coloca entre o ser social e o estado,opõe-se ao individualismo igualitário e ao estado revolucionário.A extrema-direita apropriar-se-á destas ideias-tal como o corporativismo de Vichy.Sabe-se que a revolução tinha suprimido todo o corporativismo para abolir tudo o que lhe parecia feudal.A reabilitação contra-revolucionária dos grupos e das ordens restitui uma parte importante da tradição. A contra-revolução defende o corpo intermediário clássico.Para ela,a antiga França feudal e monárquica não é o resultado de uma construcção empírica,uma conquista aleatória: é o resultado através do tempo da verdade. «As famílias unidas num corpo formam uma nação em relação à comunidade de origem, um povo em relação à comunidade territorial,um estado em relação à comunidade das leis.»(Legislação primitiva,1802). O estado é uma grande família,não um ser moral e colectivo do tipo Rousseaunista que recebe por actos associativos,ou pacto social,«a sua unidade,o seu eu comum,a sua vida e a sua vontade.» Inversamente,quanto mais estado houver numa sociedade,pior ela está organizada. O estado torna-se despótico.É a origem do que se chama totalitarismo. As suas leis não são necessárias mas arbitrárias. Só pode estabelecer-se através da força e tende a invadir. A sociedade sacraliza-a e abdica da sua liberdade individual. Para um contra-revolucionário,o estado é apenas um instrumento,não um poder ou uma divindade. Assim sendo,tudo o que sobressai da justiça,das finanças,do exército,do comércio,etc,deve ser retido e publicitado como exemplo a seguir.É um desvio enorme relativamente à nossa mentalidade moderna,símbolo de uma reflexão política que se tornou totalmente estranha,mas que volta a ser actual perante a exasperação de tantos cidadãos contra um estado omnipresente e impotente.
Entendamos bem as diferenças:o ultra-liberalismo-que se radicaliza ainda mais com os libertários-apenas vê as supostas virtudes de um estado que incentiva as liberdades económicas,em que as leis(a mão invisível do mercado?) substituem as leis da natureza contra-revolucionária. A moral do lucro,é o monstro do individualismo que esquecendo a lei divina transforma o ser humano num selvagem. O liberalismo não compensa de nenhuma forma as desigualdades naturais,pois, não classificando as desigualdades pelas funções orgânicas mas sim pelas diferenças de talento,cria uma nova versão do darwinismo social,rebaixando os indivíduos. Chega-se assim à conclusão que o pensamento contra-revolucionário recusa o indivíduo como princípio fundador e como referência absoluta de organização social e política,e das instituições,culpada,segundo o pensamento contra-revolucionário da opressão contra os cidadãos.
Durante os Sécs.XIX e XX,estas análises conheceram uma grande prosperidade,serão recicladas e serão feitas variadas teorizações da sociedade e da política. A corrente mais importante será formada por Charles Maurras(1868-1952),a acção francesa, em que as ideias principais inscrevem-se na continuidade das concepções contra-revolucionárias.Serão radicalizadas e estendidas, criticando o romantismo,exercebação do indivíduo e do eu-o individualismo burguês,a república,essa «mulher sem cabeça.» Exaltando a nação,viram-se contra a república,que era um valor supremo da revolução para passar a ser um engano.
A concepção de Maurras em relação à nação difere grandemente da dos revolucionários;o seu nacionalismo é contra-revolucionário. A nação é um corpo organizado,a soma orgânica é funcional desde que os homens sociais estejam ligados por sentimentos de pertença e partilha mútua,um conjunto complexo e hierarquizado de famílias,de comunidades,de províncias e de corporações.Contra o estado republicano anónimo,desaglutinador,alienante,é preciso celebrar as comunidades naturais, a energia individual ao serviço da comuna e da nação,da unidade dos vivos e da harmonia.Maurras não concebe de forma nenhuma o indivíduo autónomo,livre de obrigações e cheio de direitos.Não quer ele com isto dizer que as características próprias de cada indivíduo devem ser negligenciadas,mas antes que devem ser utilizadas para o bom funcionamento geral do organismo social. Algumas grandes reformas do governo de Vichy tentarão pôr em marcha os ideais Maurrasianos.Mas,de uma foma geral serão classificadas de utopias sem conteúdo real.No entanto,nos discursos,são visíveis as teorias anti-individualistas contra-revolucionárias e uma apologia do homem social enraízado,da família( com a instituição do dia da mãe),da solidariedade nacional,do sentido de comunidade.Desta forma Vichy reforçará a protecção social.
O anti-individualismo parece totalmente contrário à nossa modernidade democrática.
O que resta hoje da direita contra-revolucionária,contesta radicalmente a lei do mercado e da liberalização económica,em nome da integridade da pessoa social,pois ela denuncia a alienação do indivíduo,utilizado como simples mão-de-obra escrava e em consumidor imbecilizado. Uma das primeiras críticas do modelo actual de sociedade do trabalho surgiu da parte de Louis de Bonald em 1796:«As fábricas aprisionam,nas vilas e cidades,uma população imensa de trabalhadores[...],deixados livremente a todos os vícios que habitam a corrupção dos aglomerados,[...],a mínima diminuição de rendimento no seu trabalho,a mínima variação sobre o entusiasmo em relação ao trabalho,deixam-nos entregues à fome e ao desespero esta multitude imprevisível.»(Teoria da educação social). É certo que há algum reaccionismo(recusa de indústria,da vida na cidade,do proletariado desqualificado moralmente),mas com a incontestável acuidade do que Marx chamava de «socialismo feudal»,e um século antes ele descreve a situação,segundo a fórmula de Maurras,«o operário sem louvor,verdadeiro nómada,estacionado num deserto de homens».
Para os contra-revolucionários,o individualismo conduz à alienação.O reino do indivíduo conduz inevitavelmente à escuridão.Para salvar o homem,é preciso combater toda a filosofia e todo o sistema político fundado sobre o individualismo.


Tradução feita da revista le nouvel observateur-Hors-série(décembre 2007)

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