sábado, 7 de novembro de 2009

Bonald e de Maistre os anti-luzes-II

Os contra-revolucionários põem fundamentalmente em causa a noção de indivíduo,tal como o definiram os iluministas,especialmente Jean Jacques Rousseau.Segundo os iluministas,o indivíduo,depositário dos valores morais,pode revoltar-se contra uma sociedade que o aliena;o corpo político legítimo é composto de indivíduos livres e iguais em direitos,formando em conjunto o povo soberano,unidos pelo contrato social,onde cada um se empenha em respeitar a lei.O indivíduo torna-se cidadão e virtude cívica,e o laço social entre os indivíduos reside sobre os interesses de cada um e sobre a dedicação à comunidade,à pátria,ou seja ao bem comum.
Para Edmund Burke,o património cultural e os costumes são domínios naturais da existência social,assegurando estabilidade e prosperidade.O ser humano define-se pelos seus deveres para com a sociedade,e não pelos direitos do homem opostos à ordem tradicional:«o constrangimento é,tal como a liberdade,uma faca de dois gumes.»
Joseph de Maistre,afirma que «estamos todos unidos ao trono do ser supremo,por uma corrente flexível,que nos retém sem nos subjugar.» Contesta a noção do Homem abstracto,pura construcção especulativa sem realidade objectiva e histórica:«de modo nenhum existe esse tipo de Homem no mundo.»
Louis de Bonald,o mais rigoroso e o mais sistemático destes pensadores,derruba a posição de Rousseau.Trata-se de definir o Homem como Homem social.«o Homem é a sociedade abreviada,a sociedade é um grande Homem»(Teoria do poder político e religioso,1796).
O homem define-se antes de tudo pelas relações de poder que determinam toda a sua existência,e não somente por qualquer contrato social.A sociedade é orgânica,os seus componentes estão ligados e hierarquizados como os componentes de um organismo vivo.Nasce assim uma teoria social e política organicista:o funcionamento do corpo social é análogo ao do corpo humano.Do mesmo modo,tal é a hierarquia,a mesma estrutura trinitária que organiza toda a criação:«toda a sociedade é composta de três pessoas distintas,sejam pessoas sociais.poder,ministros,sujeitos que recebem diferentes nomes dos diversos estados da sociedade:«pai,mãe,filhos na sociedade doméstica,Deus,padres,fieís na sociedade religiosa,Reis ou chefes supremos,nobres ou funcionários públicos e povo na sociedade política»(Ensaio analítico sobre as leis naturais da ordem social,1800).
O racionalismo e o individualismo do iluminismo cresceram juntos:conduzindo à subversão.Para nos conhecermos,temos de prestar atenção aos que nos rodeiam:«o conhecimento de nós próprios não é mais do que o conhecimento das relações com os nossos semelhantes e dos nossos deveres para com eles.»O Homem está ancorado num habitat natural e na história.A filosofia contra-revolucionária conduz à visão de um Homem concreto,social,enraízado,herdeiro,e não é um indivíduo abstracto e novo dos iluministas.«O género humano começou pela família»(Demonstração filosófica do princípio constituinte da sociedade,1830):Segundo Bonald e todo o pensamento contra-revolucionário,a sociedade encontra as suas origens numa micro-sociedade que repousa na desigualdade orgânica,e a constituição social nada mais é do que esta biologia social que se desenvolve,se complexifica,mas permanece fiel aos seus princípios fundamentais.Estamos em pleno organicismo.A família é fundada sobre a propriedade,motor da actividade humana.O complexo propriedade-família forneceu à direita do Séc.XIX uma base ideológica fecunda.A família dos contra-revolucionários é agrícola.A propriedade é a terra.Aqui está a origem de um divórcio ideológico entre os contra-revolucionários e a economia moderna.(continua)



Tradução feita da revista Le Nouvel observateur-Hors-série(décembre 2007)

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