domingo, 26 de abril de 2009

D.Nuno Álvares Pereira-O santo condestável

(...)durante os últimos meses de 1380 e primeiros meses do seguinte não cessaram os preparativos bélicos.O monarca Português nomeou fronteiros para as principais terras do alentejo e equipou uma frota de 21 navios,cujo comando veio a ser confiado a João Afonso Telo,irmão da Raínha.O rei de Castela concentrou as suas forças em Badajoz,dando-lhes por chefe o mestre de Sant´iago Fernando Osorez,e armou em Sevilha uma frota de 17 navios,comandada pelo experimentado almirante Fernão Sanchez de Tovar.Em maio de 1381 foi publicada a guerra;pouco depois travaram-se as primeiras escaramuças no Alentejo.Em 11 de Junho a armada Portuguesa saiu de Lisboa para ir dar combate á Castelhana.Pelas alturas do Algarve,os navios iam já separados.No porto de Saltes estava fundeada a armada Castelhana.(...)Entretanto D.Fernando enviava ao Alentejo para coordenar os esforços da defesa um seu privado,Gonçalo Vasques de Azevedo,e,pouco depois,investia no cargo de fronteiriço de entre-Tejo e-Guadiana o moço D.Nuno Álvares Pereira,que para isso mandara vir do norte do País,onde então se encontrava.
Foi por esta ocasião que Nuno Álvares Pereira empreendeu o seu primeiro acto de grande audácia,mandando raptar o filho do mestre Sant´iago para um encontro em que cada um seria acompanhado por dez cavaleiros.Já estava aceite o desafio quando D.Fernando,a quem o caso fora relatado,mandou chamar Nuno Álvares Pereira e proibiu-lhe que levasse avante o seu propósito,pois precisava do seu esforço para cousas de maior monta.(...).
Nos finais de 1381 D.Fernando e o conde de Cambridge,recentemente chegado a Portugal com cerca de 3 mil soldados,saíram de Lisboa,passando por Santarém,dirigindo-se depois para o Alentejo com as respectivas forças.A armada onde vieram os Ingleses saiu também do Tejo.Assim ficou Lisboa desguarnecida,e os Castelhanos sabendo disso,vieram atacar Lisboa.Uma armada castelhana entrou no tejo em 7 de março de 1382 e desembarcou tropas que destruiram quanto puderam em volta de Lisboa,chagando a Sintra e Palmela.Só ficou incómule a parte murada da Capital.Esta obra de destruição cessou apenas quando chegaram as forças comandadas por Nuno Álvares Pereira e seus irmãos,entre os quais Pedro Álvares,prior do hospital.

(...)Ao passo que em Castela a linha sucessória estava muito bem representada,em Portugal havia apenas para herdeira,a Infanta D.Beatriz.E era bem problemático que D.Fernando,doente,precocemente envelhecido,caminhando para a sepultura a passos largos,viesse a ter mais filhos.
A 30 de abril de 1383 tiveram lugar os desposórios da Infanta com o Rei de Castela,representado pelo arcebispo de Sant´iago,seu procurador para êste efeito.Doze dias depois,segundo uma claúsula do contrato matrimonial,deveria a Infanta ser entregue a seu esposo entre Elvas e Badajoz.
Para este efeito partiu de Salvaterra de Magos,onde se celebrara a cerimónia,para Elvas,acompanhando-a a sua mãe,e grande número de prelados e nobres,entre eles,o Mestre de Avis,D.João,futuro rei de Portugal,filho ilegítimo de D.PedroI.(...)o banquete dêsse dia teve a assinalá-lo um sucesso que bem mostrou,mais uma vez,o valor de D.Nuno Álvares Pereira.Nuno Álvares Pereira e o seu irmão Fernando Álvares Pereira pertenciam ao número dos convidados.Logo que chegou o momento próprio,todos se encaminharam para os seus lugares.Os dois irmãos,por delicadeza,não se apressaram muito,de modo que,quando chegaram junto da sua mesa,encontraram já todos os logares tomados por fidalgos Castelhanos e Portugueses.Vendo isto,o insofrido Nuno Álvares Pereira resolveu logo vingar-se de tal descortezia.Chegando-se para a mesa,derrubou-lhe um dos pés e tudo foi ao chão.Então,no meio do alvoroço geral,Nuno Álvares Pereira retirou-se calmo e tranquilo como se nada tivesse feito.Relatando minuciosamente êste curioso sucesso,o cronista Fernão Lopes acrescenta que tendo sido narrados ao Rei de Castela os motivos determinantes atitude de Nun´álvares,êle retorquira que quem tal cousa fizera viria certamente a ser autor de grandes feitos.
Aquando da Morte de D.Fernando um dos convidados para a cerimónia fúnebre fôra o jovem Nuno Álvares Pereira-o futuro condestável-então um moço sonhador,cheio de entusiasmos patrióticos.Terminadas as exéquias,Nuno Álvares Pereira comunicou a alguns nobres da sua intimidade,entre eles o seu tio Rui Pereira,a sua opinião de que urgia matar o conde de Ourém,João Fernandes Andeiro,que segundo a opinião pública era amante da Raínha.
(...)A 6 de abril de 1384,um logar a que chamavam atoleiros,entre Estremoz e Fronteira os exércitos Português e Castelhano encontraram-se.As fôrças Castelhanas eram muito superiores em número às Portuguesas.Nun´Álvares,depois de animar os seus,mandou apear os cavaleiros.Êle próprio se foi colocar entre os da vanguarda,de lança em riste.Os Castelhanos lançaram-se a cavalo contra o pequeno núcleo de Portugueses,pensando que o rude choque da sua cavalaria poria em desbarato os Portugueses;mas depressa se viu o bom êxito da medida de Nun´Álvares.Cravando-se nas lanças que os Portugueses mantinham bem firmes,os primeiros cavalos caíram logo feridos,e com êles,os cavaleiros.Os que seguiam,tropeçando nos primeiros,fôram também ao chão.Toda a massa ofensiva,que,minutos antes,parecia invencível,era agora um amontoado confuso de homens e animais,sôbre o qual choviam sem cessar virotões e dardos lançados pelos homens de pé que Nun´Álvares colocara na sua retaguarda e nas alas da sua pequena formação.Não durou muito a luta;ao cabo de bem pouco tempo,os Castelhanos estavam em fuga,deixando no campo de batalha dezenas de mortos e feridos.Dos Portugueses ninguém morrera,ninguém ficara ferido.Nuno Álvares Pereira começava a mostrar as suas qualidades de chefe militar.(...)Durante o decorrer dos sucessos do cêrco de Lisboa,Nun´Álvares não permanecera inactivo.Fôra primeiro ao Porto para coadjuvar a luta contra o arcebispo de Compostela,regressando depois ao alentejo,onde recomeçou as suas façanhas,sustentando com denodo vários recontros com o inimigo e apossando-se de Monsaraz.Quando o exército Castelhano levantou o cêrco de Lisboa,achava-se Nun´Álvares em Palmela.Partiu dali para o alentejo a encetar uma nova campanha,de que resultou a posse de Portel e um insucesso em Vila Viçosa,cujo cêrco foi forçado a levantar tendo morrido alguns dos seus,entre os quais o seu irmão Fernando Pereira.
(...)A 6 de abril de 1385,D.João,mestre de Avis foi proclamado Rei de Portugal.Os primeiros actos de D.João I foram justamente:a escolha de Nuno Álvares Pereira para o cargo de Condestável e a confirmação dos privilégios que outorgara a Lisboa quando ainda simples regente.Não bastava,porém,intensificar a devoção dos que lhe eram fieís;impunha-se também estender,a bem ou pela força,a sua autoridade a todas as terras Portuguesas.Assim o entendeu o monarca empreendendo a campanha do minho com o fim de trazer ao seu domínio as terras do norte que não lhe obedeciam.O condestável por um lado e o monarca por outro conduziram a campanha com êxito e facilidade.Ao primeiro renderam-se,após não demorada luta,Viana do Castelo e Braga,tendo a conquista da primeira destas terras provocado a rendição voluntária de Vila nova de Cerveira e Caminha.O segundo tomou,pôr surpresa,Guimarães.De Guimarães onde se tinham reunido,foram ambos atacar Ponte de Lima,regressando novamente a Guimarães,após rápida vitória.
(...)O condestável,fechando as suas considerações,afirmava altivamente a sua independência de actos que reputava como covardes,declarando que êle,mesmo só,se defrontaria com o rei de Castela.D.João I ficou indeciso.Os do conselho não mudaram de parecer.Exaltado,como era,o condestável retirou-se bruscamente para o seu acampamento,e,no dia seguinte,pôs-se a caminho de Tomar com os seus,ao encontro do exército inimigo.O Rei,em cujo ânimo tinham calado as razões de Nun´Álvares,mandou por duas vezes chamá-lo para nova conferência.Êle,porém,negando-se abertamente a aceder a êsse pedido,fez-lhe saber que levava tenção de dar batalha ao inimigo,e que,se D.João resolvesse fazer o mesmo,se dirigisse a Tomar onde o esperava.D.JoãoI empreendeu logo no dia seguinte,a marcha no encalço do condestável.Novamente unificada,partiu a hoste Portuguesa de Tomar,por Ourém e Porto de Mós,ao encontro do inimigo.Finalmente,na madrugada de 14 de agosto,as forças Portuguesas fizeram alto,ao norte de Aljubarrota,dispostas a fechar aos Castelhanos o caminho que tinham de trilhar para se dirigirem de Leiria a Lisboa.
As forças Portuguesas ficaram voltadas para Leiria,tendo sido divididas em quatro corpos:a vanguarda comandada por Nun´Álvares;a retaguarda,por D.JoãoI;a ala direita,a que chamaram ala dos namorados,por Mem Rodrigues e Rui Mendes;a ala esquerda,composta principalmente de auxiliares estrangeiros,por Antão Vasques e João de Montferrat.Esteve o exército Português em ordem de batalha durante algumas horas.Já ia bem alto o sol quando foram avistados os primeiros Castelhanos.Pouco a pouco,novas fôrças inimigas foram surgindo,mas,embora compacta já,a massa dos Castelhanos não dava mostras de querer atacar.Pelo contrário,parecia até que recebera ordem de seguir para Lisboa,sem oferecer combate.(...)os Portugueses estavam num alto,que a natureza fortificara.(...)uma praça forte entre dois arroios,de dez ou doze braças de altura.Esses arroios,que convergiam para norte,tornavam difícil o ataque da posição Portuguesa pelo lado de Leiria ou pelos flancos.Pelo lado de Aljubarrota,porém,o alto ocupado pelos Portugueses alargava-se,oferecendo um campo de operações mais vasto,quási plano e com acesso menos difícil.Acrescia a circunstância de que,atacando,pelo lado de Leiria os Castelhanos teriam o sol de frente a incomodá-los.A topografia do local e a posição do sol explicam o movimento das fôrças Castelhanas,que se propunham assaltar pelo lado do sul,em terreno menos acidentado,e com o sol a favor,a posição defendida pelos Portugueses.Quando foi verificado o intuito dos Castelhanos,os Portugueses inverteram as posições da sua formação e esperaram resolutamente o ataque.No primeiro ímpeto,a vanguarda Portuguesa abriu longa brecha por onde os inimigos avançaram.Misturados,Portugueses e Castelhanos combatiam esforçadamente.A bandeira de Castela estava já bem perto da de Portugal,que assinalava o local onde o rei Português sa batia com denodo.Num dado momento,o pendão de Castela foi ao chão,o que encheu de novo alento os Portugueses e fez desanimar os castelhanos,que começaram a fugir.Os Portugueses estavam vitoriosos,apesar da sua inferioridade numérica.
A vitória de Aljubarrota teve consequências importantíssimas.Muitas terras se entregaram logo ao Rei de Portugal-Torres Vedras,Alenquer,Sintra,Óbidos,Leiria.A frota Castelhana,fundeada no Tejo,não demorou a afastar-se.Alcançada a vitória em Aljubarrota que lhe assegurava a coroa,D.JoãoI exprimiu logo o seu regozijo e agradecimento para com o condestável,confirmando-lhe todas as doações que anteriormente lhe fizera e acrescentando-lhe muitas mais.Depois o condestável e o Rei separaram-se.O primeiro dirigiu-se ao alentejo e o segundo encaminhou-se para o norte.O condestável pensava em invadir Castela,e,com êste intuito,partiu para Évora e Vila Viçosa,a caminho da fronteira,transpondo o guadiana junto de Badajoz.Daqui passou a Almendral,dirigindo-se no dia seguinte para a aldeia de Parra,donde saiu para Vila Garcia,que foi ocupada pelos Portugueses sem resistência.Estando em Vila Garcia,foi o condestável procurado por um certo arauto que vinha comunicar-lhe o desafio dos seus inimigos.
Saindo de Vila Garcia encaminhou-se o condestável para Magacela e Vila nova de Serena.De Vila nova de Serena partiu a hoste Portuguesa para Valverde,com o fim de passar novamente o guadiana.Foi então que o condestável se viu na seriamente atacado.A passagem do guadiana realizou-se em pleno combate,que continuou na outra margem do rio,onde o pequeno exército Português era esperado por fôrças inimigas numericamente superiores.Ao mesmo tempo outras forças Castelhanas atravessavam também o guadiana,atacando pela retaguarda as fôrças Portuguesas.A peleja era rude e sangrenta,o condestável acudia constantemente a todos os pontos onde a sua presença se tornava necessária para reanimar os combatentes.ao anoitecer,a vitória coroava os Portugueses.O arrojo do condestável obrara mais um prodígio,ganhando a batalha de Valverde.Entretanto,D.JoãoI dirigira-se para o norte,depois de ter estado no Porto concentrou forças em Vila Real e foi para Chaves,ordenando ao condestável que o viesse auxiliar com o maior número possível de homens e armas,o que este prontamente fez.
Chaves capitulou nos finais de abril de 1386 e de seguida foi a vez de Bragança.

História de Portugal-Editora Portucalense-Volume II

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